21 jan, 2026 - 23:40 • José Pedro Frazão
Ouvido no programa “Da Capa à Contracapa” da Renascença, em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, Nuno Garoupa reconhece que o Presidente Donald Trump “não tem grandes méritos” na economia atual norte-americana.
À entrada para o segundo ano de mandato, subsistem dúvidas sobre a natureza das intervenções policiais e militares anti-imigração quando falta menos de um ano para as eleições intercalares. Se perder, Trump conta com a possibilidade de um processo de destituição, afirma Nuno Garoupa, que adverte para os custos que o caso Epstein pode vir a ter para Trump junto da sua própria base eleitoral.
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A política externa não é por tradição um tema extraordinário nos Estados Unidos. Aquilo que debatemos na Europa, ou noutros pontos do mundo, a propósito da administração Trump, tem alguma ressonância na opinião pública americana?
Tem e não tem. Tem, no sentido em que há uma consciência de que, desde o discurso de tomada de posse, Trump anunciou uma alteração da geopolítica tradicional que vinha desde o final da Segunda Guerra. Nesse discurso, que muita gente não entendeu na Europa, houve um realinhamento não só da doutrina Monroe - como depois se tornou moda dizer - mas da doutrina do Presidente McKinley, do final do século XIX, que é o expansionismo norte-americano.
No entanto, dentro dos Estados Unidos, o que se passou, por exemplo, na Venezuela não foi colocado como um problema de direito público internacional como na Europa. Foi visto como um problema interno, ou seja, se o Presidente tem ou não tem poderes constitucionais internos, para fazer o que fez. A questão foi colocada como uma questão doméstica, não como uma questão internacional.
A retórica e a política externa de Trump podem ser uma forma agressiva de lidar com o problema, mas não são significativamente diferentes da administração Biden
Desse ponto de vista, questões como a relação com a China, a Gronelândia e também a guerra na Ucrânia, têm passado à margem dos debates internos americanos?
Não passam à margem, mas há uma consciência generalizada de que a China é um problema para os Estados Unidos. A retórica e a política externa de Trump podem ser uma forma agressiva de lidar com o problema, mas não são significativamente diferentes da administração Biden.
Não são dois mundos diferentes, como por vezes na Europa isto é apresentado. Trump subiu tarifas no seu primeiro mandato e Biden manteve as tarifas. No primeiro mandato, Trump alterou drasticamente a política com a China e Biden manteve essa política.
Do ponto de vista da retórica, há diferenças significativas. É evidente que o Presidente Trump tem uma retórica belicista, expansionista, de tentar ameaçar a China. Mas em termos substantivos e estruturais, é a continuação do que já vinha do final da administração Obama e da administração Biden.
A questão da Gronelândia também não é uma questão nova. Foi apresentada assim na Europa, mas é uma conversa que tem muitos anos, senão muitas décadas.
Da Capa à Contracapa
Sociedade norte-americana vive tempos de grande ag(...)
As tensões com países vizinhos como o México ou o Canadá têm uma ressonância diferente?
É evidente que sim, até porque têm consequências bastante diferenciadas. A questão do México é um pouco diferente, porque o governo mexicano neste momento não inspira muita confiança. É um governo de esquerda populista radical que está a fazer sérias ameaças ao Estado de Direito no México e, portanto, não tem grande popularidade mesmo em quem não se reveja em Donald Trump.
A questão do Canadá é diferente. Não é só uma questão de tarifas - que tem sido um problema – ou do fentanil ou da importação de drogas na fronteira do Canadá, mas também é uma questão turística. Há um problema que neste momento se coloca, por exemplo, em Nova Iorque ou em Las Vegas, no estado da Nevada, de uma quebra muito significativa de receitas do turismo que tem a ver com este conflito com o Canadá. Desse ponto de vista, as perceções ajustam-se, dependendo das consequências diretas ou indiretas desta política de Donald Trump.
Donald Trump não tem grandes méritos do ponto de vista da economia. Neste momento, não pode apresentar o tal ‘milagre económico’
Na economia, os dados mostram algum pessimismo na confiança dos consumidores, para além das subidas e descidas que têm existido, quer da inflação, quer até da cotação do dólar. Economicamente, como é que definiria o país, neste momento, ao cabo de um ano de Trump?
Não está muito diferente do que estava. E essa é a grande questão, porque Donald Trump não tem grandes méritos do ponto de vista da economia. Neste momento, não pode apresentar o tal ‘milagre económico’ e a tal ‘idade do ouro económica’ que prometeu, porque ela não existe.
Os problemas de há um ano subsistem, mas os mercados financeiros tiveram um bom ano de 2025, o que a classe média valoriza. Por outro lado, as ‘consequências trágicas’ das tarifas antecipadas pelos críticos de Trump - incluindo prémios Nobel como Paul Krugman e uma enorme rede de comentadores à esquerda de Trump que diziam que isto era uma catástrofe - não se materializaram. Isso obviamente também retira credibilidade às críticas à política económica de Trump.
Não haverá a necessidade de Trump tentar acelerar o processo económico no ano que agora começa tendo em conta as eleições intercalares em novembro?
Trump precisa que a economia não recue, porque vai apostar na questão das políticas migratórias, onde argumentará que está a fazer aquilo para que tem mandato e para aquilo que a base dele votou.
Já o Partido Democrata está com um problema - sem uma recessão muito forte até ao verão, as perspetivas do Partido Democrata para as eleições intercalares parecem-me muito menos risonhas do que se poderia antecipar há uns meses.
O Partido Democrata é muito popular na Europa e fora da América, mas não é popular nos Estados Unidos
Mas apenas e só uma catástrofe de Trump ‘salvará a pele’ dos democratas?
O Presidente Trump está nos seus mínimos de popularidade, que são 38%/39%, ou seja, mobiliza a sua base. Mas o Partido Democrata tem os ‘ratings’ mais baixos desde Clinton, está nos 32%/33%. O Partido Democrata tem um problema enorme para resolver: o que é que vai fazer para conquistar o vasto eleitorado que não gosta de Donald Trump, mas não se revê, nem percebe muito bem o que é que o Partido Democrata tem para apresentar?
O Partido Democrata é muito popular na Europa e fora da América, mas não é popular nos Estados Unidos. O Partido Democrata insiste que não há problemas de imigração, mas eles existem. Insiste que não há problemas geopolíticos, mas eles existem. Insiste que não há problemas de ‘wokismo’ na Universidade e na Administração Pública, mas eles existem. Portanto, o Partido Democrata tem um problema, precisa de ter uma plataforma que mobilize esse eleitorado.
A síndrome “Trump Derangement” ( “Loucos por Trump”) não é essa plataforma, como já se viu nas eleições presidenciais. O Partido Democrata está dividido neste momento em duas alas, com opções muito distintas. A ala centrista insiste numa política de alguma colaboração com Trump - por isso é que o shutdown (suspensão do Governo) não passou - e a ala radical do Partido Democrata, que ganhou em Nova Iorque, mas não ganha fora daí - nem sequer ganha na Califórnia - insiste numa política de terra queimada. Portanto, o Partido Democrata tem seis meses para refazer a casa e pensar o que é que vai apresentar ao eleitorado nas intercalares.
E do lado republicano?
Do lado republicano, acho que Trump já ‘deu a bola’ e o sinal à sua campanha: ‘se não ganharem, há impeachment (processo de destituição)’. A questão é saber se isso vai ser suficiente para mobilizar este eleitorado que não gosta de Trump neste momento, votou Trump há um ano e meio, mas também ainda não decidiu se vai votar no Partido Democrata. A questão vai ser se esse eleitorado é ou não é sensível à questão da destituição de Trump.
E a redefinição de círculos eleitorais terá impacto?
No caso da Câmara dos Representantes, vai ter um impacto muito limitado, porque, na minha opinião, está perdida para os republicanos. Neste momento já está a metade da metade e, portanto, o que os republicanos podem ambicionar é manter metade da metade. Perder a Câmara para os democratas não vai afetar muito a governabilidade, uma vez que Trump não tem governado com o Congresso. É importante dizer que Trump governa por ordens executivas, não por legislação, que praticamente não mudou neste tempo.
A questão é saber se os democratas conseguem ou não obter uma maioria no Senado. E depois, se nessa maioria que venham a ter, conseguem ou não sensibilizar alguns republicanos para conseguir os 67 votos necessários para o processo de destituição de Trump.
A agitação provocada por intervenções mais mediáticas e musculadas, como as do ICE, terá um impacto eleitoral para os republicanos?
Sim, essa é a grande questão - até que ponto o eleitorado que não gosta dessas intervenções está ou não está disposto a perdoar essas intervenções em função de uma instabilidade que possa sair das eleições?
Não sabemos ainda como vai acabar a situação no Minnesota, se isso vai ou não ser usado por Donald Trump para fazer uns seis meses ainda mais musculados. Não é impossível que Donald Trump caracterize formalmente - porque até agora é puramente retórico - a situação no Minnesota como uma insurreição. Isso tem consequências jurídicas e constitucionais. Vamos ver se isso acontece ou se isso tem ou não consequências nesse eleitorado mais moderado.
Diria que o Estado de Direito norte-americano permanece firme e sólido ou está a fragilizar-se ao cabo destes últimos meses?
Não, o Estado de Direito obviamente não está igual, porque o presidente tem feito um ‘teste de stress’ ao Estado de Direito nos Estados Unidos. Agora, também não é verdade que sempre que os tribunais tomam decisões favoráveis a Donald Trump é ‘uma violação do Estado de Direito’, e cada vez que os tribunais tomam decisões contrárias a Donald Trump, ‘isso é que é Estado de Direito’ - isso é ativismo partidário. Há muita confusão entre puro ativismo partidário - que simplesmente quer os tribunais a imporem a agenda de um lado ou do outro - e o respeito pelas decisões.
Até agora, Donald Trump efetivamente não desrespeitou nenhuma decisão do Supremo Tribunal, mesmo nas decisões que não lhe foram favoráveis. Objetivamente, neste momento, continuamos a ter um Estado de Direito.
O que Trump pretende fazer neste mandato é um conjunto de políticas que sejam o mais difícil de reverter
E esta é a única arena mais firme de contestação a Donald Trump face a outras que existem no sistema norte-americano?
De um certo ponto de vista, percebemos que Donald Trump aprendeu com o primeiro mandato. O que Trump pretende fazer neste mandato é um conjunto de políticas que sejam o mais difícil de reverter, ou seja, criar situações que, mesmo que venha o Partido Democrático a ganhar em 2028, vai ser dificilmente reversível, seja na geopolítica internacional, seja internamente.
O único poder que neste momento consegue evitar isso é o poder judicial. Por isso, a luta está nos tribunais muito mais do que está no Congresso. Muita gente no Partido Democrático percebe que, se muitas destas medidas feitas forem implementadas - e temos desde a extinção do USAID até a transformação do ICE num corpo armado de 150 mil pessoas - evidentemente que o Partido Democrático ao voltar em 2028 - se voltar - não estará em condições de reverter isto facilmente.
Donald Trump quer políticas irreversíveis. Neste momento, até 2028, o único poder que pode evitar a irreversibilidade dessas políticas é o poder judicial. É, portanto, normal que a luta esteja muito mais nos tribunais do que está no Congresso.
E a mobilização popular e o papel da imprensa e das universidades?
Tanto a comunicação social como as universidades são micro-ambientes. A universidade, evidentemente, não gosta de Donald Trump. Mas Trump tem um argumento muito sério contra a universidade: 95% são democratas, portanto isso não é uma universidade pluralista. Há um problema na universidade, que vem dos últimos 20 anos, que é a sua falta de pluralismo. Isso tem a ver com o ‘movimento woke’ e a forma como este se impôs na universidade.
Na comunicação social, há uma luta entre a comunicação social tradicional - que obviamente não gosta de Donald Trump - e aquilo que são as alternativas nas redes sociais.
A comunicação social tradicional perdeu terreno para essas redes sociais e hoje não é claro que grande parte desse eleitorado moderado - que é quem vai decidir quem ganha as intercalares e as presidenciais - se informe pela CNN ou pela Fox ou pela CBS. É muito provável que esse eleitorado seja muito mais sensível às redes sociais do que à comunicação social tradicional.
Caso Epstein? Esse sim pode criar muitos custos na sua base eleitoral
O que é que Trump vai fazer ao incómodo que lhe causa cada vez que se fala do caso Epstein?
Nesse sentido, o caso é bicudo, não tanto pelos factos e pelo seu eventual envolvimento pessoal, porque é muito provável que, se ele estiver envolvido, estejam também muitas figuras de topo dos dois partidos.
A questão aqui é mesmo o que ele prometeu à sua base eleitoral. Ele precisa de gerir isso com cuidado, como se tem visto, porque isso sim - não o tema do ICE, da Venezuela, da Gronelândia ou das tarifas - esse sim pode criar muitos custos na sua base eleitoral.
Essa base eleitoral acredita em teorias da conspiração e acha que toda a história de Epstein é uma conspiração do que ele chamou de ‘Deep State’, ou seja, do ‘Estado profundo’ que governaria a América. Ele tem tentado gerir isto da forma menos cautelosa possível e isso tem provocado estragos.
Penso que ele vai insistir muito neste tema até às intercalares. O que está em causa neste momento é a continuação ou não do movimento "MAGA" a governar os Estados Unidos. Vamos ver se de facto esse eleitorado esquece o caso Epstein e vai atrás desse chamamento de Donald Trump.
Coligação "MAGA" existe com Trump, não é claro que essa coligação possa existir com JD Vance ou com o Marco Rubio quando Trump sair
O movimento "MAGA" é um movimento de massas para além do Partido Republicano, ou seja, verdadeiramente o Partido Trump?
Aí está um exemplo de uma irreversibilidade - o Partido Republicano não volta a ser o que era antes disso. O Partido Republicano tem eleitorado muito conservador, religioso, mas também tem pessoas que votavam Partido Democrata até há 10 a 15 anos e que hoje vota Trump. É um eleitorado menos escolarizado, que trabalha nas fábricas, trabalhista, tradicionalmente apoiante da coligação democrata e que neste momento é apoiante da coligação de Trump.
E esse debate também inclui, por exemplo, minorias, porque há uma visão de que todas as minorias estão do lado democrata e não é verdade. A minoria hispânica está bastante dividida por temas que têm a ver com a globalização, com temas religiosos. Essa minoria é bastante apoiante de Donald Trump e é uma coligação diferente do que foi o Partido Republicano de George Bush ou mesmo de Ronald Reagan. Essa coligação "MAGA" existe com Trump, não é claro que essa coligação possa existir com JD Vance ou com o Marco Rubio quando Trump sair
E das personalidades que gravitam em torno de Trump, Marco Rubio está a fazer um caminho autónomo na vertente externa?
Sim, Marco Rubio vai tentar ser o candidato de compromisso entre os MAGA e aquilo que são as forças tradicionais do Partido Republicano. Vance é um candidato complicado, porque no primeiro mandato de Trump, era anti-MAGA e hoje apresenta-se como sendo o herdeiro MAGA de Donald Trump. Há uma parte muito substantiva do movimento MAGA que não gosta de Vance, por razões completamente estapafúrdias, que têm a ver com ele ser casado com alguém que não é branco. Há uma parte muito substancial do movimento MAGA que não aceita isso e que já disse que não votará Vance se se mantiver casado com uma senhora de origem indiana.
Para si é claro que a questão do terceiro mandato de Trump está excluída?
Sim. Quando se fazem comparações com outros presidentes e até ditadores, as pessoas esquecem-se que Donald Trump tem 80 anos, não vai fazer um terceiro mandato. Donald Trump vai sair em 2028, a partir do princípio de que não haverá destituição, ou seja, de que o Partido Democrata não tem uma grande vitória nas intercalares e não consegue fazer a remoção do presidente.
Mas isso abre uma discussão dentro do Partido Republicano que não vai ser fácil. Não é claro que Vance seja o candidato ungido pelo "MAGA" e por Trump.
Explicador Renascença
No Explicador Renascença da tarde desta terça-feir(...)
Que fratura provocou uma só pessoa como Marjorie Taylor Greene?
Ela continua a representar uma franja dessa coligação tradicional do Partido Republicano que não se revê neste mandato. É uma franja pequena neste momento dentro do Partido Republicano. Vai ser importante, porque se o movimento e a coligação de Trump se vier a dividir entre Marco Rubio e JD Vance, é muito possível que essa franja venha a ter o poder de decidir quem é o candidato formal do partido nas eleições de 2028.
Voltando à questão da política externa, a base "MAGA" era centrada na América, não tanto no expansionismo, onde Trump se está a posicionar ao longo deste primeiro ano. Esta dissonância entre a base eleitoral e Trump tem tendência a agravar-se por esta via?
É evidente que Trump neste momento apresenta domesticamente estas opções como uma continuação da sua política ‘America First’ (a América Primeiro) e isso é o movimento MAGA. Mas, por outro lado, até agora Trump tem tido noção de que há um limite que não pode ultrapassar com essa base eleitoral, que é aquilo que chamamos de ‘soldados no terreno’ (‘boots on the ground’).
Ao contrário do que se chegou a dizer em Portugal, não houve invasão da Venezuela, tal como não houve invasão do Irão e até agora não houve uma invasão, no sentido físico, da Gronelândia.
Se Trump entrar por esse caminho de invasões terrestres formais, aí sim, a base MAGA vai ter uma implosão, porque os grandes comentadores e ativistas MAGA têm sido muito claros que esse é o limite. Não haver soldados no terreno é um limite para Donald Trump, porque quando faz ameaças à América Latina ou à Europa sobre a Gronelândia, sabe que essas ameaças têm um limite. Se não pode pôr tropas no terreno, há uma limitação ao valor dessas próprias ameaças.
E a relação entre Trump e Putin, não causa também alguma urticária na base eleitoral do Presidente?
Não penso que cause muito isso, porque - ao contrário também da perspetiva que se tinha na Europa - a guerra na Ucrânia nunca foi popular nos Estados Unidos. Um dos problemas que Biden e Harris tiveram foi a guerra na Ucrânia. Estar ao lado da Ucrânia contra a Rússia não era uma vantagem de Biden e Harris, porque há uma percentagem muito grande do eleitorado norte-americano que acha que isso é um problema europeu, que não tem nada a ver com os Estados Unidos e que os Estados Unidos não têm que pagar essa guerra. E muito menos andar a prejudicar políticas internas, nomeadamente a desviar recursos orçamentais substantivos, para pagar essa guerra. Portanto, desse ponto de vista, isso não causa grande urticária. O problema para Trump na gestão da Ucrânia é que ele não pode pôr tropas no terreno e evidentemente fica numa posição muito delicada naquilo que pode ou consegue impor a Putin ou a Zelensky.
E para fechar, ninguém vai chorar uma lágrima pela Europa em linha com a estratégia de Trump de segurança nacional?
Não me parece. Há muito tempo que a União Europeia também não é popular nos Estados Unidos. No mundo universitário, a União Europeia é muito popular, mas somos um microcosmos naquilo que são os Estados Unidos. Somos elites completamente desfasadas do resto do país. Há muito tempo que a União Europeia não é popular e não me parece que isso vá prejudicar o Partido Republicano nas próximas semanas.
Os europeus não eram os aliados dos valores norte-americanos?
Não, há muitos anos que não são vistos como isso. Aliás os discursos de Trump e de Vance que dizem que a União Europeia abusa e usa dos recursos norte-americanos para construir uma superioridade moral, ouvem-se aqui há muitos anos.
Já no tempo da guerra do Iraque e de Bush havia uma enorme frustração com a Europa pela perceção de que esta vive da proteção dos Estados Unidos - se vive ou não é outra discussão - e que depois arroga-se com moralidade superior para boicotar os interesses estratégicos norte-americanos. Essa questão já vem de há 20 anos, não me parece que seja um grande problema para Donald Trump.
Mas a ideia de avançar sem aliados para alguns destes teatros de operações não é preocupante para algumas franjas que até apoiam Donald Trump?
Não, porque os Estados Unidos não avançam sem aliados. Têm muitos aliados, têm dois terços da América Latina, coisa que não tinham, porque todos os presidentes do populismo de direita apoiam Donald Trump. E têm muitos aliados na Europa, com praticamente todos os países da Europa de leste. Não têm a França, a Alemanha e o Reino Unido, mas isso definitivamente não preocupa absolutamente nada a base eleitoral do Donald Trump.