Médio Oriente

O herdeiro do xá deposto que quer participar no "renascimento" do Irão. Quem é Reza Pahlavi?

01 mar, 2026 - 14:45 • João Malheiro com Lusa e Reuters

Pahlavi tem criticado o governo iraniano dos últimos 47 anos e agora agradece ao Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por ter dado a ordem dos bombardeamentos, que atingiram a república islâmica.

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Depois dos ataques de EUA e Israel ao Irão, este sábado, que resultaram na morte do líder supremo Ali Khamenei e de várias figuras centrais do exército do país, há um nome que quer ter um papel fulcral no futuro: Reza Pahlavi.

O filho mais velho e herdeiro do xá iraniano deposto em 1979 pela Revolução Islâmica afirmou num editorial publicado este sábado pelo The Washington Post que pretende assumir um papel no processo de transição no Irão.

"Muitos iranianos, muitas vezes apesar das balas, pediram-me para liderar esta transição. Estou impressionado com a sua coragem e respondi ao seu apelo", escreve Pahlavi no jornal norte-americano. "O nosso caminho a seguir será transparente: uma nova Constituição redigida e ratificada por referendo, seguida de eleições livres sob supervisão internacional. Quando os iranianos votarem, o governo de transição será dissolvido", detalhou.

Pahlavi tem criticado o governo iraniano dos últimos 47 anos e agora agradece ao Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por ter dado a ordem dos bombardeamentos, que atingiram a república islâmica.

Mas, afinal, quem é Reza Pahlavi?

Filho de outro regime opressor

Pahlavi emergiu durante a recente convulsão social no Irão, como um destacado dissidente político no exílio, que encorajou e inspirou a população a manifestar-se. No entanto, continuava a ser incerto qual o nível de apoio popular que ele comandava dentro do Irão, para não falar se, de facto, era dedicado à democracia como descendente de um monarca.

Enquanto alguns iranianos viam Pahlavi como um líder da oposição, outros consideravam-no uma figura oportunista com desígnios monárquicos e um historial misto.

Nascido em Teerão em 1960, Reza Pahlavi era o filho mais velho do xá Mohammad Reza Pahlavi e da sua esposa, a rainha Farah Diba, tornando-o príncipe herdeiro.

De 1941 a 1979, o xá governou o Irão com mão de ferro. Com financiamento e treino de França, Estados Unidos e Israel, estabeleceu e destacou uma força de polícia secreta, a SAVAK, que sujeitava opositores políticos a vigilância, prisão, tortura e execução.

À medida que o descontentamento popular contra o xá crescia em 1974-75, a Amnistia Internacional estimou que havia entre 25 mil e 100 mil prisioneiros políticos no Irão.

Embora o xá tenha afirmado durante a revolução de 1979 que preferia fugir do país do que disparar contra manifestantes, as suas forças de segurança mataram aproximadamente 500 a três mi iranianos. Estes números são inferiores aos mortos nos últimos protestos no Irão, em janeiro.

O xá e a sua família fugiram do Irão em 1979, tendo posteriormente sido estabelecida a República Islâmica.

Em 1980, o xá admitiu erros, incluindo o reconhecimento de que o seu regime tinha torturado iranianos. Após a morte do xá nesse mesmo ano, Reza Pahlavi declarou-se o próximo xá e iniciou o seu ativismo político contra a República Islâmica a partir do estrangeiro.

Presença política ativa

De 2013 a 2017, foi cofundador e porta-voz do Conselho Nacional do Irão, uma organização guarda-chuva de grupos da oposição, com sede em Paris. Segundo relatos, sofreu deserções de alguns grupos, o que sufocou a sua capacidade de realizar muito. Em fevereiro de 2019, Pahlavi ajudou a criar o Projeto Fénix do Irão, um "think tank" em Washington, D.C., dedicado à mudança de regime e a um plano de transição no Irão.

Durante os protestos Mulher, Vida, Liberdade de 2022-23, desencadeados pela morte da jovem iraniana Mahsa Amini, enquanto estava sob custódia da polícia da moralidade, Pahlavi apelou a manifestações contra o governo iraniano nos Estados Unidos, Canadá e outros países. Figuras de destaque da oposição discursaram nestes comícios, e milhares de pessoas participaram.

Nesse mesmo ano, alguns ativistas e celebridades de alto perfil, incluindo alguns que o seu pai tinha preso, apoiaram Pahlavi como líder ou figura capaz de unir a oposição.

Em abril de 2023, Pahlavi fez a sua primeira visita oficial a Israel, onde foi recebido pela Ministra da Inteligência Gila Gamliel e reuniu-se com o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu. A visita foi condenada poriranianos, desde apoiantes do regime a ativistas antigovernamentais, que se opunham à monarquia e não eram simpáticos a Israel.

Depois de a participação de Pahlavi na conferência de segurança de Munique de fevereiro de 2025 ter sido anulada, ele e os seus apoiantes reuniram-se na cidade nesse mês e no verão para unificar a oposição política e planear uma transição pós-regime. Para Pahlavi, as reuniões podem ter sido simplesmente uma medida para salvar a face, após o desprezo da conferência de segurança.

Como dissidente político, Pahlavi apelava continuamente a uma revolta popular, à mudança de regime e a um Estado laico e democrático. Ao mesmo tempo, não excluiu o regresso da monarquia, ainda que constitucional, baseada num referendo nacional e numa assembleia constituinte.

O "renascimento" do Irão

Reza Phalavi quer ser parte ativa num "renascimento" do Irão, que julga surgir agora com a morte do líder Ali Khamenei.

O filho herdeiro do xá elogia no artigo que assinou no The Washington Post toda a trajetória que Trump, desde o seu primeiro mandato, tem desenvolvido como Presidente em relação ao Irão, começando pela retirada do "acordo nuclear irresponsável" de 2015, seguida da campanha de sanções contra Teerão ou a eliminação, em 2020, do então comandante da Força Quds da Guarda da Revolução, Qasem Soleimani.

"Mesmo com a ajuda dos EUA e de Israel, a vitória final será forjada pelo povo iraniano. São os soldados no terreno", escreveu.

Pahlavi diz ainda que o "renascimento" do Irão "marcará o início de uma era de paz e prosperidade" e que "o Irão não é o Iraque".

"Não repetiremos os erros que se seguiram a esse conflito [do Iraque]. Não haverá dissolução das instituições, nem vazio de poder, nem caos", escreve o herdeiro do xá, garantindo que, "precisamente por isso", defende desde o ano passado o chamado "Projeto de Prosperidade do Irão", um plano político e económico nacional para instaurar um governo provisório de transição após a queda dos aiatolas.

O ativista iraniano garante que "este roteiro detalhado para a recuperação nacional" inclui um plano para "os primeiros 100 dias após o colapso do regime e a reconstrução e estabilização a longo prazo" do país e "conta com o apoio de numerosos líderes empresariais de todo o mundo".

"Um Irão democrático transformaria o Médio Oriente, convertendo uma das fontes de agitação mais persistentes do mundo num pilar da estabilidade regional", afirma ainda Pahlavi, que elogia os acordos "históricos" de Abraham, impulsionados por Trump no seu primeiro mandato, para normalizar as relações entre Israel e vários países árabes.

"Um Irão livre ampliaria esse avanço, ao reconhecer imediatamente Israel e ao procurar um quadro de paz regional mais amplo", afirma Pahlavi.

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