Armamento
Drones. Os “mísseis dos pobres” que podem prolongar a guerra no Irão
13 mar, 2026 - 09:00 • João Carlos Malta (texto) , João Pedro Quesado (ilustração)
Os drones iranianos já estavam a ter destaque na guerra da Ucrânia, mas é no Médio Oriente que se estão a tornar centrais nos desenvolvimentos do conflito. Com custos mais baixos, estão a servir para o Irão manter em alerta toda a vizinhança do Golfo. Se um drone custa cerca de 20 mil dólares, abatê-lo com um míssil pode custar quatro milhões de dólares.
Na guerra da Ucrânia, os drones já se tinham revelado como atores relevantes, numa guerra de terror cirúrgica contra Kiev. Mas é neste novo conflito do Médio Oriente que estas pequenas aeronaves se estão a tornar centrais nos ataques e contra-ataques no terreno. Este “míssil dos pobres”, está mesmo a constituir a maior arma por parte do Irão para atacar os adversários, Estados Unidos e Israel, militarmente superiores.
Nos últimos dias, e seguindo a estratégia russa na Ucrânia, o Irão tem inundado os céus da região do Golfo com os drones Shahed — baratos a produzir — combinando-os com mísseis balísticos para forçar os EUA, Israel e outros países do Médio Oriente a esgotarem os sistemas de defesa aérea, que são bastante dispendiosos. A ideia é desgastar e continuar a desgastar as defesas.
Os Shaed são aeronaves de 3,5 metros de comprimento por 2,5 metros de largura, que atingem uma velocidade máxima de 185 km/h. Têm a capacidade de transportar até 40 quilos de explosivos. Custam entre 20 e 50 mil dólares (entre 17 mil e 43 mil euros). Frequentemente chamados de "kamikaze" ou "suicidas", funcionam essencialmente como mísseis guiados que voam em direção a um alvo pré-designado e explodem após o impacto.
O Irão e os seus aliados têm procurado contrariar a intensa ofensiva conjunta dos EUA e de Israel com milhares ataques contra alvos em quase uma dezena de países, espalhados por mais de 1.900 quilómetros. Teerão tem uma força aérea antiquada, incapaz de competir com as de Israel e dos EUA, e tem-se apoiado no arsenal que tem disponível de mísseis e de drones.
A extensão geográfica dos ataques de retaliação do Irão tornou este conflito o mais amplo no Médio Oriente desde a Segunda Guerra Mundial.
Do Dubai ao Chipre, ninguém está a salvo
Os ataques iranianos recorrendo a drones têm sido constantes, atingindo com eficácia zonas residenciais no Dubai e o aeroporto daquele emirado, um dos mais movimentados do mundo, mas também o Bahrein, a Arábia Saudita, o Qatar e outros estados da região.
A capacidade destas aeronaves não tripuladas é tanta que podem voar os 1.600 quilómetros que separam o Irão do Chipre e chegar à base da Força Aérea Real Britânica em Akrotiri, atingindo a pista de aterragem. Um sinal do seu amplo alcance.
Para se ter uma ideia quantitativa do que significa a importância desta nova arma, dados publicados pelos ministérios da Defesa do Golfo indicavam, segundo a Reuters, que, até 3 de março, o Irão lançou mais de 540 mísseis e realizou mais de 1.450 ataques com drones contra países da região. Os drones representaram cerca de três quartos dos ataques.
Só contra Israel foram 1000 ataques com drones em 12 dias de guerra, segundo o site israel24.com. Quase 99% dos drones que representavam uma ameaça para Israel — cerca de 500 — foram intercetados pela Força Aérea israelita com caças, helicópteros e sistemas de defesa aérea terrestres, segundo a mesma fonte.
Ainda assim, as defesas israelitas e norte-americanas não travam todos os ataques. No início do mês, um ataque iraniano no Kuwait com drones matou seis soldados norte-americanos ali estacionados numa base militar daquele emirado.
"Cálculo sombrio"
A importância destas armas é tão grande que há analistas a afirmar que o resultado e a duração da guerra no Médio Oriente podem ser decididos por aquilo que apelidam de “cálculo sombrio”. A equação a fazer é entre os drones e mísseis do Irão em comparação com a capacidade da defesa aérea detidas pelos EUA, Israel e os países do Golfo.
Os Shaed podem mesmo, segundo vários analistas, levar a um prolongar da guerra devido ao recurso massivo a estes drones e a esta guerra de desgaste.
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A chave para a eficácia destes drones, segundo vários especialistas, reside na quantidade. São relativamente baratos e fáceis de produzir em massa, especialmente se comparados com os sofisticados sistemas utilizados para a defesa contra eles.
Aqui entra também a dimensão económica da guerra e os valores gastos nos ataques e na defesa, o que não é de subestimar. “Depender muito das aeronaves de combate e usar mísseis antiaéreos para intercetar [drones iranianos] não é certamente a forma mais barata de o fazer”, afirmou Kelly Grieco, investigadora sénior do Stimson Center, um ‘think tank’ de relações internacionais, citada pelo Finantial Times.
Grieco estima que, por cada dólar gasto pelo Irão em drones, os Emirados Árabes Unidos gastaram pelo menos dez vezes mais para os abater, utilizando uma combinação de sistemas de médio alcance, como o Sistema Nacional Avançado de Mísseis Terra-Ar dos EUA.
Numa outra contabilidade, ainda mais radical, o investigador do Instituto do Médio Oriente da Suíça, Francesco Schiavi, explica que cada interceção de drone “acarreta um custo financeiro e logístico”.
“As estimativas sugerem que, por cada dólar (0,86 cêntimos de euro) que o Irão gasta na produção de drones, os países do Golfo podem gastar 20 a 28 dólares (17 e 24 euros) em fogo defensivo, sendo que os intercetores individuais custam frequentemente mais de um milhão de dólares”, avança o mesmo Schiavi.
A Ucrânia pela experiência que tinha em defender-se dos Shahed iranianos, por ter estado “na linha da frente” e “a desenvolver soluções de menor custo”, foi pioneira na utilização de drones intercetores produzidos em massa para combater os ataques da Rússia, com a ajuda de várias startups tecnológicas.
Uma história que vem da Ucrânia
Durante os quatro anos de guerra da Rússia contra a Ucrânia, a indústria bélica ucraniana foi obrigada a inovar, construindo drones intercetores de baixo custo, com preços entre os 1.000 e os 2.000 dólares (863 e 1727 euros), para contrariar os ataques russos com drones Shahed-136 iranianos importados por Moscovo. Kiev produz agora estes drones interceptores de baixo custo em massa.
Entre a Ucrânia e o Irão, há diferenças de utilização destas armas, como reflete Kristian Patrick Alexander, investigador sénior e investigador principal da Academia Rabdan, nos Emirados, ao site “Defense News”.
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“Na Ucrânia, os drones do tipo Shahed são frequentemente utilizados como ferramentas de assédio noturno persistente e de desgaste de infraestruturas, enquanto no Golfo estão a ser utilizados dentro de uma campanha de mísseis mais ampla, destinada a derrubar as defesas aéreas e alinhadas com os EUA por vários estados, bases e áreas urbanas simultaneamente”, disse.
Os mísseis de defesa aérea Patriot, fabricados nos EUA, têm conseguido interceptar a maior parte dos Shaheds e de outros mísseis balísticos, com taxa de precisão acima de 90%, segundo fontes governamentais dos Emirados Árabes Unidos.
Mas mais uma vez aqui entram as contas. Para derrubar um drone de 20 mil dólares (17 mil dólares), um míssil pode custar 4 milhões de dólares (3,45 milhões de euros), o que abre um problema: armas baratas conseguem desgastar sistemas de defesa pensados para ameaças muito mais sofisticadas.
Contra-ataque norte-americano
E, por isso, os EUA trabalharam para rapidamente responder a esta nova realidade e criaram uma resposta. O Comando Central dos EUA (CENTCOM) afirmou estar a produzir drones, desenvolvidos com base nas lições aprendidas com a própria tecnologia iraniana.
“Estes drones de baixo custo, modelados a partir dos drones Shahed do Irão, estão agora a retaliar", declarou o CENTCOM num comunicado divulgado na página X.
São drones produzidos por vários fabricantes, segundo o Pentágono. As fotos divulgadas sugerem que se assemelham ao “LUCAS” (Low Cost Non-Tripulated Combat Attack System), fabricado pela Spektreworks, com sede em Phoenix, no Arizona.
"A utilização de drones LUCAS pelos EUA contra o Irão é significativa porque estes drones são o resultado de engenharia reversa do Shahed-136. Essencialmente, os EUA estão a dar ao Irão uma amostra do próprio veneno", disse Liu Mei Ching, investigadora associada da Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam (RSIS), citado pelo canal de televisão de Singapura, CNA.
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Estes drones norte-americanos custam 35 mil dólares, podem voar 800 quilómetros e têm uma capacidade para transportar 18 quilos de explosivos.
"Simplificando, os Estados Unidos não têm recursos ilimitados. É muito mais rentável implantar um drone LUCAS por cerca de 35 mil dólares (30 mil euros) cada, em vez de utilizar mísseis de cruzeiro Tomahawk, por aproximadamente 2,5 milhões de dólares cada (2.2 milhões de euros), nas versões mais recentes", disse Steve Feldstein, investigador sénior da Carnegie Endowment for International Peace, ao mesmo canal de Singapura.
Esta resposta norte-americana é uma prova sólida de que o custo se tornou um fator decisivo no desenvolvimento de armamento, e as forças armadas optam cada vez mais pela utilização de drones, que estão equipados com precisão suficiente para atingir vários objetivos operacionais.
E se é verdade que os drones Shahed são relativamente lentos e ruidosos em comparação com os mísseis balísticos — o que facilita a sua deteção e seguimento — é também verdade que atacar os drones desta forma requer muitos recursos e é dispendioso. Isto além de esgotar rapidamente alguns tipos de intercetores.
Se a guerra na Ucrânia já tinha levado os EUA e outros países a adotar uma nova tática conhecida como "produção em massa acessível" — dando prioridade a grandes quantidades de sistemas relativamente baratos, o Irão está a tornar esta dinâmica numa estratégia.
"Os iranianos não podem ganhar a guerra com estes drones, mas, tal como o Vietcong [comunista] durante a Guerra do Vietname, têm uma capacidade assimétrica que pode prolongar esta guerra e criar pressão política", disse à Fox News, Cameron Chell, CEO da produtora de drones Draganfly
Todos estes são fatores que tornam evidente a vontade de as empresas de defesa e dos governos ocidentais redobrarem esforços para levar armas de baixo custo contra drones e mísseis baratos para o campo de batalha após os ataques iranianos no Golfo.
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