Astronomia
Há vida noutros planetas? Telescópio português pode ajudar a encontrar a resposta
14 mar, 2026 - 09:00 • Cristina Nascimento
Instrumento vai ser montado no deserto de Atacama, no Chile. Durante três semanas, 12 cientistas portugueses vão instalar o telescópio POET, que vai funcionar de forma remota.
Alexandre Cabral já perdeu a conta a quantas vezes já foi ao Observatório Europeu do Sul, em pleno deserto de Atacama, no Chile. Este investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa parte de viagem novamente, este sábado, desta vez na companhia de mais 11 cientistas portugueses.
Nas próximas três semanas, vão montar um telescópio solar, um instrumento que custou cerca de 800 mil euros, financiado por fundos comunitários, e desenvolvido a 100 por cento em Portugal.
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“Irá ficar ligado por fibra ótica a um espectrógrafo que é dos mais avançados também e que nos vai permitir fazer estudos sobre aquilo que é o sol”, explica o cientista, em declarações à Renascença.
O que se pretende é estudar melhor o sol para estabelecer um padrão que permita, depois, investigar melhor outras estrelas, mesmo quando estão em condições de observação menos favoráveis, a que os cientistas chamam ruído.
“Vai usar o nosso sol quase como que cobaia para compreender as outras estrelas e melhorar os modelos físicos que existem, bem como a física que se conhece das estrelas, para poder modelar esse ruído e, então, compreender melhor os sinais que recebemos das outras estrelas”, detalha.
Por trás das investigações está uma pergunta que frequentemente é feita: haverá vida noutros planetas? A observação das estrelas pode ajudar, garante o cientista.
Este avançado telescópio solar, batizado de POET (Paranal solar ESPRESSO Telescope), foi totalmente desenvolvido em Portugal, financiado por uma bolsa europeia de quase três milhões de euros.
Alexandre Cabral considera que a atribuição da bolsa, o resultado final do telescópio e a abertura para ser instalado num dos observatórios mais avançados do mundo atestam a boa ciência que se faz em Portugal.
“Temos uma capacidade de trabalhar a nossa criatividade e imaginação e, às vezes, tem que ser superada de dia para dia, para conseguir estes objetivos, até porque as equipas não são tão grandes quanto gostaríamos. Mas a verdade é que nós conseguimos resultados muito bons”, explica.
Nesta entrevista à Renascença, Alexandre Cabral refere que o telescópio foi desenvolvido em quatro anos, o que “nesta área é muito curto”. O tempo habitual “é uma década”.
O principal desafio foi ter encontrado o investimento, que acabou por vir da Europa. “Estamos a falar de um investimento significativo e, normalmente, aquilo que Portugal tinha eram financiamentos pequenos de pequenos projetos”, que ainda assim reconhece que esta “é uma das dificuldades que começa a ser ultrapassada neste momento”.
”Esta área do espaço está sob a tutela da Agência Espacial Portuguesa que tem feito um esforço enorme para dar um apoio bastante grande à parte científica, ai têm sido dados passos positivos”, detalha.
Já em sentido contrário, este especialista reconhece que em Portugal ainda há “carreiras precárias na investigação e na ciência”.
“Vê-se muitos jovens que acabam por ir lá para fora. É bom ir lá para fora e são bons investigadores que vão levar o nome de Portugal lá para fora. Mas uns quantos deviam ficar cá para reforçar as nossas equipas e isso às vezes é muito difícil”, admite.
Para já, a preocupação de Alexandre Cabral está virada para o telescópio que terão de montar e três semanas pela frente de estadia no deserto.
A equipa vai ficar instalada num espaço que fica “apenas a três quilómetros e 300 metros de altitude abaixo dos telescópios”, numa paisagem digna de um filme de Hollywood.
“O Observatório já apareceu num filme do 007. Quem se lembrar do ‘Quantum of Solace’ há um edifício que no final rebenta. Esse é o sítio onde nós ficamos a dormir”, descreve.
Fora do tempo de trabalho, que não será muito, dado que deverão trabalhar à volta de 10 horas por dia, o resto do tempo será passado num “local onde estão cerca de 100/150 pessoas”, de todo o mundo.
“É um ambiente engraçado”, assegura o cientista português.










