EUA
Em protesto contra a guerra no Irão, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA demite-se
17 mar, 2026 - 14:33 • Ana Kotowicz
Joe Kent lamenta que Trump tenha cedido ao lobby israelita. "Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irão."
O Irão não representava uma ameaça para aos EUA e Donald Trump foi vítima de uma campanha de desinformação que serviu apenas para levá-lo a entrar numa guerra que não interessa aos norte-americanos. Estes são os motivos para o principal funcionário da administração Trump para o combate ao terrorismo ter apresentado a sua demissão nesta terça-feira.
A nomeação de Joe Kent tinha acontecido há menos de sete meses.
"Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irão", defendeu Joe Kent, que publicou a carta enviada ao Presidente dos Estados Unidos nas redes sociais. "O Irão não representava nenhuma ameaça iminente à nossa nação, e é evidente que iniciámos esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby norte-americano", acusa o diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA, que abandona o cargo com efeitos imediatos.
A guerra contra Teerão foi lançada a 28 de fevereiro pelos Estados Unidos e Israel.
Kent é um veterano das forças especiais norte-americanas e da CIA, enviado para combate 11 vezes e viúvo de uma militar condecorada com a Estrela de Ouro. "Perdi-a numa guerra fabricada por Israel, não posso apoiar o envio da próxima geração para lutar e morrer numa guerra que não traz nenhum benefício ao povo americano nem justifica o custo de vidas americanas."
Joe Kent afirma que apoiou (e apoia) os valores que Trump defendeu nas suas campanhas eleitorais de 2016, 2020 e 2024.
Até junho de 2025, o Presidente "compreendeu que as guerras no Médio Oriente eram uma armadilha que roubava aos Estados Unidos as preciosas vidas" dos norte-americanos e "esgotava a riqueza e a prosperidade" dos Estados Unidos.
Mas algo mudou, segundo a visão de Joe Kent. Se durante a primeira administração, Trump "compreendeu melhor do que qualquer Presidente moderno como aplicar decisivamente o poder militar", sem arrastar o país para guerras intermináveis, agora caiu numa campanha de desinformação lançada por "altos funcionários israelitas e membros influentes dos media norte-americanos".
Trump acreditou "que o Irão representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos e que, se atacássemos agora, haveria um caminho claro para uma vitória rápida". Acontece que isso era mentira, argumenta o veterano, "e é a mesma tática que os israelitas usaram para arrastar os EUA para a desastrosa guerra do Iraque".
Assim, Kent pede ao Presidente dos Estados Unidos que mude o rumo: "Não podemos cometer esse erro novamente."
Donald Trump já reagiu a esta saída. O Presidente disse aos jornalistas que a demissão de Joe Kent "é uma coisa boa", considerando-o “muito fraco em matéria de segurança”.
LEIA AQUI A CARTA DE DEMISSÃO NA ÍNTEGRA:
"Após muita reflexão, decidi renunciar ao meu cargo de Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, com efeito a partir de hoje.
Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irão. O Irão não representava nenhuma ameaça iminente à nossa nação, e é evidente que iniciámos esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby norte-americano.
Apoio os valores e as políticas externas que o senhor [Trump] defendeu nas suas campanhas de 2016, 2020 e 2024, e que implementou no seu primeiro mandato. Até junho de 2025, compreendeu que as guerras no Médio Oriente eram uma armadilha que roubava aos Estados Unidos as preciosas vidas dos nossos patriotas e esgotava a riqueza e a prosperidade da nossa nação.
Na sua primeira administração, compreendeu melhor do que qualquer Presidente moderno como aplicar decisivamente o poder militar sem nos arrastar para guerras intermináveis. Demonstrou isso ao matar Qasam Suleimani e ao derrotar o Estado Islâmico.
No início deste governo, altos funcionários israelitas e membros influentes dos media americanos lançaram uma campanha de desinformação que minou completamente a sua plataforma "America First" ("América Primeiro") e semeou sentimentos pró-guerra para incentivar a uma guerra com o Irão. Essa câmara de eco foi usada para o enganar, fazendo-o acreditar que o Irão representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos e que, se atacássemos agora, haveria um caminho claro para uma vitória rápida. Isso era mentira e é a mesma tática que os israelitas usaram para nos arrastar para a desastrosa guerra do Iraque, que custou à nossa nação a vida de milhares dos nossos melhores homens e mulheres. Não podemos cometer esse erro novamente.
Como veterano de guerra que foi enviado para combate 11 vezes e como marido de uma militar condecorada com a Estrela de Ouro, a minha amada mulher, que perdi numa guerra fabricada por Israel, não posso apoiar o envio da próxima geração para lutar e morrer numa guerra que não traz nenhum benefício ao povo americano nem justifica o custo de vidas americanas.
Rezo para que [a administração] reflita sobre o que estamos a fazer no Irão e para quem estamos a fazê-lo. A hora de agir com ousadia é agora. O senhor pode reverter o curso e traçar um novo caminho para a nossa nação, ou pode permitir que deslizemos ainda mais rumo ao declínio e ao caos. As cartas estão nas suas mãos.
Foi uma honra servir na sua administração e servir a nossa grande nação."
Joseph Kent, Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo
[notícia atualizada às 17h00 - com reação de Donald Trump]








