Médio Oriente

Trump insiste que Irão quer um acordo, mas não está a negociar com o líder supremo

23 mar, 2026 - 14:55 • Ana Kotowicz

Presidente Trump diz estar a negociar com uma pessoa de alto nível. "Não se esqueçam: eliminamos a primeira, a segunda e, em grande parte, a terceira fase da liderança."

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A fazer fé nas palavras de Donald Trump, o cenário no Médio Oriente é este: as negociações entre Estados Unidos e Irão estão a acontecer. Teerão quer um acordo. E foi o lado iraniano que encontrou em contacto com a administração Trump para conversar.

Haverá mesmo 15 pontos de acordo entre os dois Estados, Israel "ficará muito satisfeito" com os resultados e o Teerão terá concordado em não possuir armas nucleares — e esta renúncia faz parte dos "pontos um, dois e três" do acordo. Esta é a versão dos factos apresentada pelo Presidente norte-americano aos jornalistas, esta segunda-feira, na Florida antes de embarcar no Air Force One.

Apesar da insistência do Presidente norte-americano neste relato, a imprensa ligada à Guarda Revolucionária do Irão tem desmentido a existência de conversações, antes de Teerão se pronunciar oficialmente sobre o tema. Mas o desmentido acabou por chegar: "Fake news", disse o Irão.

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Ainda assim, Trump insiste que o Irão quer “muito” chegar a acordo e garante estar em conversações com alguém de muito alto nível. “Ainda existem alguns líderes. Estamos a lidar com o homem que eu acredito ser o líder e o mais respeitado.”

Com Mojtaba Khamenei, perguntaram os jornalistas? "Não, não com o líder supremo", respondeu Trump que confessa não saber se ele está sequer vivo. “Não tivemos notícias do filho. De vez em quando aparece alguma declaração, mas não sabemos se ele está vivo.”

As declarações de Donald Trump acontecem poucas horas depois de o Presidente norte-americano ter anunciado uma paragem de cinco dias nos ataques a Teerão. E estas foram proferidas (ou melhor, escritas nas redes sociais) depois de o regime iraniano ter ameaçado bloquear todo o Golfo Pérsico se a sua costa for atacada.

Essa ameaça, feita segunda-feira pelo Conselho de Defesa do Irão, surge depois de os Estados Unidos avançarem com a hipótese de ocupar ou bloquear a ilha de Kharg, infraestrutura crucial para as exportações de petróleo do Irão e de imporem um prazo de 48 horas para o desbloqueio do Estreito de Ormuz (que terminava esta segunda-feira).

Israel ficará "muito satisfeito"

E como estão a correr as negociações? Segundo Trump têm sido "muitos fortes" e decorrem de "forma perfeita". A equipa, do lado norte-americano, inclui Steve Witkoff e Jared Kushner.

No domingo, dia em que terão começado as primeiras conversas, a reunião prolongou-se pela noite fora. Esta segunda-feira deverá haver nova ronda, mas por telefone. “Eles [Irão] querem muito fazer um acordo. Nós também gostaríamos. Vamos voltar a falar hoje [segunda-feira], provavelmente por telefone, porque é muito difícil para eles deslocarem-se”, afirmou.

Além do Irão, também há contactos com Telavive. “Acho que Israel ficará muito satisfeito. Isto será paz para Israel — uma paz duradoura, garantida, se isto acontecer”, argumentou Trump.

Depois das tréguas, EUA podem "bombardear tudo sem parar"

Sem nunca revelar o nome da pessoa (ou pessoas) com quem Witkoff e Kushner estão a conversar — "Eu não liguei, eles que ligaram – e queriam fechar um acordo" — Trump recorda que os Estados Unidos decapitaram o regime. "Não se esqueçam: eliminamos a primeira, a segunda e, em grande parte, a terceira fase da liderança."

As tréguas de cinco dias, anunciadas horas antes, têm como objetivo único propiciar um acordo entre as partes. Se isso não acontecer, o Presidente já escolheu o caminho a seguir. “Vamos dar um prazo de cinco dias e ver como corre. Se tudo correr bem, vamos chegar a um acordo. Caso contrário, continuaremos a bombardear tudo sem parar.

Estreito de Ormuz poderá ficar nas mãos dos EUA, acredita Trump

Durante a conversa com os jornalistas, Donald Trump disse ainda que, de acordo com os planos de Washington, terá de haver "uma mudança séria de regime".

Nesse cenário, a questão que fica no ar é quem irá controlar o Estreito de Ormuz, atualmente bloqueado pelos iranianos.

"Talvez eu, eu e... quem quer que seja o próximo" líder supremo, respondeu Donald Trump. "Estamos a lidar com pessoas que considero muito razoáveis e sólidas. As pessoas que trabalham lá sabem quem são. São muito respeitadas. Talvez uma delas seja exatamente o que estamos procurando."

E, em jeito de conclusão, Trump garantiu que o preço do petróleo "cairá como uma pedra" assim que qualquer acordo for fechado.

"Fake news", diz Irão. Não há negociações com os EUA

"Fake news." Foi com esta expressão, a mesma que o Presidente norte-americano costuma usar quando discorda do teor das notícias, que o Irão reagiu oficialmente às declarações de Donald Trump.

“Nenhuma negociação foi realizada com os Estados Unidos", garantiu o presidente do Parlamento iraniano. O Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano já tinha assumido posição semelhante, naquela que foi a primeira reação do regime de Teerão.

As acusações de Mohammad Bagher Ghalibaf vão mais longe e acusa os Estados Unidos de estarem a tentar influenciar os mercados com este tipo de declarações.

“As notícias falsas estão a ser usadas para manipular os mercados financeiros e petrolíferos e para escapar ao impasse em que os EUA e Israel se encontram”, escreveu Ghalibaf na rede social X.

[atualizada às 17h03 com a reação oficial do Irão]

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