De ex-polícia a suspeito de duplo homicídio: quem é Cédric Prizzon, detido em Portugal?
26 mar, 2026 - 14:41 • Olímpia Mairos
Após dias em fuga, foi detido em Portugal com os filhos no carro. Horas depois, as autoridades encontraram os corpos das duas mulheres enterrados numa zona isolada de Bragança. Suspeito é ouvido esta quinta-feira no tribunal da Mêda.
Um cidadão francês de 42 anos, antigo polícia e ex-jogador de râguebi, foi detido em Portugal e é o principal suspeito da morte de duas mulheres, encontradas enterradas na Serra da Nogueira, em Bragança. As vítimas, Audrey Cavalié, de 40 anos, e Angela Legobien-Cadillac, de 26, estavam desaparecidas desde 20 de março, em França, e eram, respetivamente, a ex-companheira e a atual companheira de Cédric Prizzon.
A detenção ocorreu na noite de 24 de março, durante uma operação de rotina da GNR na Mêda. No veículo seguiam também os dois filhos menores do suspeito, que foram encontrados em segurança. O caso, que envolve autoridades portuguesas e francesas, expõe o percurso de um homem descrito como instável, com um passado marcado por episódios de conflito, problemas disciplinares e antecedentes criminais.
Quem é o suspeito?
Cédric Prizzon, de 42 anos, é um ex-polícia francês natural da região de Haute-Garonne, conhecido entre colegas e no meio desportivo pela alcunha de “Veado”. Antes de se tornar suspeito de crimes graves, teve uma vida aparentemente estruturada: trabalhou como agente policial em Toulouse, numa zona considerada tranquila, e destacou-se como jogador de râguebi.
No plano desportivo, chegou a ser visto como um atleta promissor. Com cerca de 1,80 metros e 95 quilos, jogava no Olympique XIII e chegou a ser chamado às seleções jovens francesas, sendo descrito como combativo e fisicamente imponente. Em 2011, a sua contratação pelo clube Villefranche-de-Rouergue foi considerada de grande valor.
No entanto, segundo a imprensa francesa, paralelamente a este percurso, começaram a surgir sinais de instabilidade. Durante a carreira policial, acumulou problemas disciplinares que levaram à sua transferência de Toulouse para Paris e, posteriormente, para Aveyron. Chegou a ser ouvido pela Inspeção-Geral da polícia francesa em várias ocasiões, o que evidencia um histórico profissional conturbado.
Que tipo de comportamento apresentava?
Ao longo dos anos, Cédric Prizzon revelou um padrão de comportamento instável e conflituoso, tanto na vida pessoal como profissional. Nas redes sociais, construía uma narrativa em que se apresentava como um pai injustiçado, acusando o sistema judicial francês de corrupção e a ex-companheira de colocar o filho em perigo.
Participou inclusivamente em protestos públicos e numa greve de fome, em 2023, juntamente com outros pais que alegavam ter sido prejudicados em processos de regulação parental. Nessas intervenções, denunciava alegadas pressões exercidas sobre o filho e criticava duramente as autoridades judiciais.
Este discurso público contrastava com o seu historial judicial, que incluía condenações por sequestro de menor e assédio à ex-companheira, além de um episódio em 2021 em que levou o filho para Espanha sem autorização, permanecendo lá durante várias semanas.
Quem são as vítimas?
As vítimas são Audrey Cavalié, de 40 anos, e Angela Legobien-Cadillac, de 26. Audrey era a ex-companheira do suspeito e mãe do filho mais velho, enquanto Angela era a companheira atual e mãe do filho mais novo.
Segundo o Le Dauphiné Libéré, Audrey e Cédric conheceram-se por volta de 2011, quando ele se mudou para Aveyron para jogar râguebi. O casal teve um filho, mas a relação deteriorou-se com o tempo, dando lugar a conflitos frequentes.
Em 2020, ocorreu um episódio particularmente violento entre ambos: uma discussão escalou ao ponto de envolver uma faca, tendo Cédric ficado ferido no abdómen e Audrey na garganta. Ambos acabaram condenados, em 2021, a seis meses de prisão por violência mútua.
Após a separação, ficou estabelecido um regime de guarda alternada, com o filho a dividir o tempo entre os dois progenitores, semana a semana — um acordo que, ainda assim, não evitou novos conflitos.
O desaparecimento simultâneo de Audrey Cavalié, de 40 anos, e Angela Legobien-Cadillac levantou suspeitas imediatas, sobretudo tendo em conta o passado do suspeito e o facto de também os filhos terem desaparecido com ele.
Onde foram encontrados os corpos?
Os corpos foram localizados na Serra da Nogueira, em Bragança, enterrados num local isolado e de difícil acesso. A escolha do local indica uma tentativa deliberada de ocultar os crimes e dificultar a descoberta pelas autoridades.
A distância significativa entre o local onde o suspeito foi detido e o local onde os corpos foram encontrados — mais de 150 quilómetros — reforça a ideia de deslocação com o objetivo de esconder provas.
Guarda
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Como foi feita a detenção?
A detenção ocorreu de forma aparentemente casual. Durante uma operação de fiscalização rodoviária da GNR na Mêda, o veículo conduzido por Cédric Prizzon foi mandado parar. Os militares detetaram irregularidades, nomeadamente documentos falsos e posse de uma arma ilegal.
Após a identificação, foi possível perceber que o homem estava a ser procurado pelas autoridades francesas por suspeita de crimes graves, incluindo rapto e homicídio. A partir daí, foi acionada a Polícia Judiciária, que desenvolveu diligências que acabariam por levar à descoberta dos corpos.
O que aconteceu às crianças?
Os dois filhos do suspeito, com 13 anos e 18 meses, seguiam no veículo no momento da detenção. Foram encontrados em segurança, mas, dada a gravidade da situação, foram encaminhados para uma instituição de acolhimento.
O caso levanta sérias preocupações sobre o impacto psicológico nas crianças, especialmente no filho mais velho, que terá estado diretamente exposto a acontecimentos traumáticos.
Qual foi o papel do filho mais velho?
Segundo informações divulgadas, o filho mais velho terá fornecido elementos decisivos às autoridades, permitindo localizar os corpos na Serra da Nogueira. Embora os detalhes não sejam públicos, o seu testemunho terá sido crucial para confirmar as suspeitas e orientar as buscas.
Este facto acrescenta uma dimensão particularmente sensível ao caso, tendo em conta a idade do menor e o contexto familiar em que estava inserido.
Quando desapareceram as vítimas?
Audrey Cavalié e Angela Legobien-Cadillac foram dadas como desaparecidas no dia 20 de março, na região de Aveyron, no sul de França. O alerta surgiu após comportamentos considerados anormais, como a ausência de Audrey no trabalho e a falta do filho mais velho na escola, além da impossibilidade de contacto. Estes sinais levaram familiares a comunicar o desaparecimento às autoridades, dando início à investigação.
Há antecedentes do suspeito?
Sim. Cédric Prizzon tinha já um historial significativo de problemas com a justiça. Foi condenado por sequestro de menor e por assédio à ex-companheira, além de ter antecedentes de violência doméstica. Tinha também perdido a guarda dos filhos, embora existisse um regime de guarda partilhada em determinados períodos.
Quem está a investigar o caso?
A investigação está a ser conduzida em cooperação entre as autoridades portuguesas, nomeadamente a Polícia Judiciária, e as autoridades francesas. Inicialmente acompanhado pelo Ministério Público de Rodez, o processo passou para a divisão criminal da Procuradoria de Montpellier.
O que se segue no processo?
O suspeito é presente a primeiro interrogatório judicial esta quinta-feira, no Tribunal de Vila Nova de Foz Côa. A audiência, marcada sob fortes medidas de segurança, conta com um reforço significativo da Guarda Nacional Republicana (GNR), com militares destacados para a entrada principal e para as traseiras do edifício.
Após ter passado a noite nas instalações da GNR de Mêda, o suspeito será agora ouvido pelas autoridades judiciais, que irão decidir as medidas de coação a aplicar.










