Guerra no Irão
Israel mata mais um comandante do Irão. Quem e quantos são os líderes já assassinados?
27 mar, 2026 - 23:00 • Ana Kotowicz (texto e gráficos)
O estratega do fecho do Estreito de Ormuz será Alireza Tangsiri, comandante da Marinha da Guarda Revolucionária, assassinado por Israel esta quinta-feira. Lista de altos funcionários iranianos mortos desde 28 de fevereiro já passa as quatro dezenas. Guerra começou há um mês.
Licença para matar. A ordem de Israel é transparente: “Ninguém no Irão tem imunidade, e todos estão na mira”. As palavras foram proferidas pelo ministro da Defesa, Israel Katz, no dia em que anunciou a morte de uma das mais importantes figuras do regime iraniano: Esmaeil Khatib que, desde 2021, chefiava os serviços secretos de Teerão.
Nesse dia, 18 de março, a lista com as mortes confirmadas já tinha 33 nomes de figuras de topo do regime iraniano, incluindo um antigo Presidente, Mahmoud Ahmadinejad.
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Ali Khamenei, o Líder Supremo do Irão, foi morto logo no primeiro dia de ataques conjuntos dos Estados Unidos e Israel, a 28 de fevereiro. O seu braço direito, Ali Larijani — que muitos analistas apontavam como o líder de facto no Irão — foi assassinado na véspera da morte do ministro da Informação, Esmaeil Khatib, um radical islâmico, com ligações à Guarda Revolucionária do Irão.
Larijani, extremamente poderoso dentro do regime, era um dos mais próximos conselheiros de Khamenei. Teve uma longa carreira política e era, à data da morte, chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, um órgão estratégico que, além de definir as políticas de Defesa e de Segurança, tem a obrigação de preservar a Revolução Islâmica.
A lista continua: entres os mortos estão o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o comandante que liderava o ramo terrestre da Guarda Revolucionária ou o ministro da Defesa.
Esta quinta-feira, a lista — que terá mais de 40 nomes, a maioria já confirmada — cresceu. E com um nome de peso: Israel assassinou Alireza Tangsiri, comandante da Marinha da Guarda Revolucionária, que é apontado como a mente por trás da estratégia do fecho do Estreito de Ormuz.
Voltemos às palavras de Israel Katz de 18 de março: “O primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e eu autorizamos as Forças de Defesa de Israel a alvejar qualquer alto funcionário iraniano para o qual surja uma oportunidade operacional e de inteligência, sem a necessidade de aprovação adicional.”
Com esta decisão, Telavive retira um passo (e a pressão) antes de premir no gatilho: deixa de ser preciso ter luz verde do poder político para assassinar líderes iranianos.
Irão não depende de uma pessoa, diz Araqchi
A 9 de março, Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá Ali Khamenei, torna-se sucessor do pai como Líder Supremo do Irão. Foi escolhido com base nos conselhos de Khamenei pai. O seu substituto deveria “ser odiado pelo inimigo”.
A escolha é também sinal de que a linha dura se mantém no poder no Irão.
A 24 de março, o lugar de Larijani — visto como pragmático e um conservador moderado —, foi ocupado por Mohammad Baqer Zolqadr, uma figura da linha dura da Guarda Revolucionária, onde foi comandante.
“Não sei por que os americanos e os israelitas ainda não entenderam este ponto: a República Islâmica do Irão possui uma estrutura política forte, com instituições políticas, económicas e sociais consolidadas”, dizia, a 18 de março, Abbas Araghchi, ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão. “A presença ou ausência de um único indivíduo não afeta essa estrutura.”
Por isso, defendia que o desaparecimento de Larijani não ia abalar o regime. E dava o seu próprio exemplo, numa entrevista à Al Jazeera.
“Se o ministro dos Negócios Estrangeiros viesse a ser martirizado, haveria inevitavelmente outra pessoa para assumir o cargo", argumentava Araghchi. "É claro que os indivíduos são influentes, e cada pessoa desempenha seu papel – alguns melhor, alguns pior, alguns menos – mas o que importa é que o sistema político no Irão é uma estrutura muito sólida.”
Decapitação do regime "gera combatentes de resistência aguerridos”
A visão de Araghchi tem sido também a leitura de analistas internacionais.
“Este não é um regime personalizado”, argumentou Sanam Vakil, uma especialista em Irão do think tank Chatham House, citada pelo The Guardian. “Existem camadas institucionais sob cada indivíduo. Suspeito que a resposta a ataques de decapitação será simplesmente promover alguém de dentro – embora se corra o risco de trazer à tona indivíduos desconhecidos e sem experiência.”
“Há sempre outro líder”, defendeu também Mohamad Elmasry, professor do Instituto de Estudos de Pós-Graduação de Doha, citado pela Al-Jazeera.
“Não acho que isso vá indicar qualquer tipo de colapso do regime iraniano”, até porque, na opinião do professor, os assassinatos acabaram por eliminar "possíveis saídas" para a desescalada do conflito.
A morte de Larijani é disso exemplo: uma figura que já tinha negociado com o Ocidente, sobre o programa nuclear iraniano, e com influência e poder suficientes para acalmar as tensões.
Por tudo isto, os especialistas não veem a estratégia de decapitação da liderança como bem-sucedida.
"Existe a possibilidade de estar a injetar ar no sistema e revitalizar um regime que estava a tornar-se numa força esgotada, onde as pessoas em ascensão viram os seus mentores, os seus chefes e os seus familiares assassinados", defende Sanam Vakil. "Essa abordagem não produz democratas jeffersonianos, mas sim combatentes de resistência aguerridos. Ela gera ainda mais resistência.”









