Português na Hungria. "Sente-se que há uma expetativa maior, comparando com outras eleições"
10 abr, 2026 - 13:05 • André Rodrigues , com Pedro Mesquita
Quando no próximo domingo as urnas fecharem na Hungria, a Europa saberá se é o fim da era Orbán, após 16 anos no poder. O atual primeiro-ministro, conhecido por ser um aliado da Rússia na União Europeia, procura o quinto mandato consecutivo, mas Péter Magyar será o maior desafio da longa carreira de Orbán. Diretor do Instituto Camões em Budapeste admite que há divisões entre os húngaros sobre qual a melhor escolha. Que, seja qual for, terá impacto no país. E na União Europeia.
“Não vou votar, não sou húngaro, mas vivo cá e sente-se que há uma expetativa maior, comparando com outras eleições no passado”. Assim começa a conversa da Renascença com o diretor do Instituto Camões em Budapeste.
João Miguel Henriques entende que há alternativa, mas somam-se pontos de interrogação na contagem decrescente para a escolha de domingo.
A perceção de que as eleições podem representar uma mudança é visível nas conversas do dia-a-dia. Mas a vantagem de Magyar sobre Orbán está longe de ser um sinal de unanimidade em torno do candidato da oposição.
Questionado diretamente sobre se os húngaros veem em Péter Magyar uma alternativa real a Orbán, este português aponta uma divisão clara: à esperança em alguns setores da sociedade juntam-se aqueles que exprimem reservas sobre o percurso político do opositor, que até já foi próximo do atual primeiro-ministro.
“Eu penso que alguns sentem que essa é a alternativa, outros talvez olhem ainda com algum ceticismo, alguma desconfiança, porque, na verdade, não é um candidato com uma carreira política muito larga e com alguma prova dada”, sublinha.
E acrescenta: “Há, talvez, uma confiança da parte de alguns húngaros. Penso que, na maior parte deles, ainda há alguns pontos de interrogação em relação a este candidato da oposição.”
Bruxelas na expetativa com foco na Ucrânia
Péter Magyar, líder do partido Tisza, tem sido apontado por vários órgãos internacionais como o principal adversário de Orbán e o rosto de uma oposição que, pela primeira vez em muitos anos, aparece com hipóteses reais de vencer.
Daí o interesse que estas eleições suscitam em toda a União Europeia, em particular pela relação tensa de Budapeste com as instituições comunitárias e pela forma como Viktor Orbán tem condicionado decisões por unanimidade.
“A União Europeia vê com grande expetativa estas eleições, porque Viktor Orbán, nos Conselhos Europeus, tem sido um travão, nomeadamente no apoio à Ucrânia”, lembra João Henriques, numa leitura que, aliás, coincide com a análise de vários observadores internacionais, que apontam o histórico de vetos e bloqueios como um dos elementos que mais pesa na avaliação externa sobre o papel do primeiro-ministro húngaro dentro do bloco dos 27.
Sobre a possibilidade de mudança com uma vitória da oposição, João Miguel Henriques considera que os húngaros tendem a basear-se nas declarações públicas de Péter Magyar, que tem sinalizado maior proximidade a Bruxelas.
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“Ele já manifestou uma maior aproximação à União Europeia, por contraste com o atual primeiro-ministro, portanto acreditando nas palavras e no discurso do candidato da oposição. Então, eu penso que os húngaros verão nesta alternativa uma mudança de orientação do país.”
Ainda assim, ressalva que a Europa não é o único eixo da campanha, embora seja um dos mais visíveis para fora.
“Vê-se no candidato da oposição uma mudança de orientação neste campo, sim.”
Budapeste e jovens mais recetivos. Mas e o custo da energia?
A aceitação de uma viragem europeia, porém, não é homogénea.
“Há uma parte da população provavelmente concentrada na capital, provavelmente mais jovem que verá isso com bons olhos, mas também há quem tema principalmente no que lhe respeita à questão energética, ao preço da energia.”
A energia surge como fator sensível, num país onde a política externa e as opções económicas têm sido frequentemente discutidas à luz do custo de vida e das dependências energéticas.
Por outro lado, a relação com a Ucrânia também entra na campanha e contribui para a fratura na sociedade húngara.
“De facto há essa rivalidade com a Ucrânia, até com alguns incidentes diplomáticos, a campanha também se tem jogado um pouco nesse campo… há uma divisão da população húngara”.
Mas em que proporção? “Depois de domingo veremos”.
Se Orbán perder, o que fica?
O cenário de alternância levanta também a questão do legado de Viktor Orbán. Evitando avaliações de mérito, João Miguel Henriques aponta mudanças estruturais no posicionamento internacional do país.
“A Hungria hoje é um país diferente do que era quando o primeiro-ministro assumiu o poder”.
Logo a seguir, defende-se: “vou abster-me aqui de fazer avaliações positivas ou negativas”.
Ainda assim, o diretor do Instituto Camões considera que Orbán “definiu uma posição da Hungria no plano internacional muito vincada: está recorrentemente nas bocas do mundo, apesar de ser um país de média dimensão… esse reconhecimento da Hungria no plano internacional, para o bem ou para o mal, será com certeza um legado.”
Entre os temas que os apoiantes de Orbán continuarão a valorizar, o diretor do Camões destaca áreas frequentemente associadas ao discurso do primeiro-ministro.
“Quem votou nele no passado, irá continuar a reconhecer-se nas suas posições. E isso tem a ver necessariamente com o controlo da imigração e com o apoio à família”, conclui.













