Eleições na Hungria
"Modelo Meloni” pode ganhar vantagem com a derrota de Orbán, defende Riccardo Marchi
13 abr, 2026 - 14:11 • André Rodrigues
Historiador que estuda fenómeno das direitas radicais na Europa considera que a saída de cena de Viktor Orbán pode não representar uma retração das direitas, mas uma afirmação europeia do modelo de governação seguido em Itália por Giorgia Meloni.
A vitória de Péter Magyar nas legislativas húngaras pôs fim a 16 anos de governo de Viktor Orbán e abriu uma nova fase política num país que se tornou, na última década e meia, um laboratório europeu do chamado “iliberalismo”.
Com uma participação histórica, próxima dos 80%, que deu uma ampla maioria ao partido Tisza, o eleitorado húngaro afastou o Fidesz do poder e entregou a Péter Magyar uma confortável margem de mais de dois terços no Parlamento para mudar o sistema que dominou a Hungria desde 2010.
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“Temos que partir da constatação que o Viktor Orbán é um ator iliberal, ao mesmo tempo do ponto de vista ideológico e do ponto de vista institucional”, começa por sublinhar na Renascença Riccardo Marchi, historiador que estuda o fenómeno das direitas radicais europeias.
Este especialista descreve o primeiro-ministro cessante na Hungria como um “iliberal ideológico” por ter sido uma referência para as direitas soberanistas europeias em temas como valores, imigração e identidade: “A centralidade da família tradicional, as políticas anti-imigração, a defesa da identidade da cultura cristã da Europa”.
“Como iliberal ideológico, o Viktor Orbán era uma referência para todos os partidos congéneres, para todos os partidos soberanistas”, acrescenta.
Mas Orbán foi também um “iliberal institucional”, por aquilo que Riccardo Marchi considera ser a erosão progressiva das instituições liberais e um processo de “blindagem do regime” ao longo do tempo.
“Quando eu falo de iliberal institucional, falo exatamente da disrupção das instituições da democracia liberal que ele protagonizou ao longo destes 16 anos, ou seja, todo o processo de blindagem do seu regime político”, explica.
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A ideia de “Estado iliberal” foi assumida publicamente pelo próprio Orbán num discurso de 2014, onde defendeu a construção de um modelo “não liberal” como alternativa à democracia liberal ocidental.
Para Marchi, as consequências da queda de Orbán são mais fortes no plano institucional do que no plano das ideias. E é aqui que Riccardo Marchi antecipa uma reconfiguração do modelo dos partidos soberanistas na Europa.
“O modelo institucional de Viktor Orbán demonstrou não ser viável, porque sofreu todas as pressões, principalmente por parte de Bruxelas, mas também todas as contradições internas com a espalhar-se da corrupção, com aquele sistema cleptocrático com base nas oligarcas locais”, refere.
A campanha e o contexto eleitoral foram marcados por desgaste económico, acusações de corrupção e crises políticas internas, incluindo o impacto do escândalo do indulto presidencial ligado a abuso de menores, que precipitou turbulência em 2024 e abriu espaço para a ascensão meteórica de Péter Magyar.
Com os resultados deste domingo, o Tisza supera a maioria de dois terços no parlamento com 199 assentos, enquanto o Fidesz cai para pouco mais de meia centena de lugares.
“Modelo Meloni” pode ganhar vantagem
Da leitura de Riccardo Marchi resulta uma hipótese: com Orbán fora do poder, a tendência poderá ser para uma afirmação de um modelo soberanista mais “compatível” com as regras da democracia liberal e mais “dialogante” com Bruxelas.
O “modelo Giorgia Meloni”, precisa Marchi.
“Possivelmente, o modelo de Giorgia Meloni irá destacar-se mais nos próximos anos, por ser um modelo onde um partido soberanista mantém o respeito das instituições das democracias liberais, mas também uma relação muito mais dialogante com as instituições de Bruxelas”, defende o especialista.
Nesse plano institucional, Riccardo Marchi acrescenta que Orbán nunca exportou o modelo para algumas das principais direitas europeias.
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Questionado, especificamente, sobre o efeito que o resultado eleitoral de Viktor pode ter no caso português, Riccardo Marchi afasta um cenário de travão ou de colapso do Chega e de André Ventura.
O especialista lembra que a saída de cena de Viktor Orbán “não foi uma derrota das ideias”, mas o resultado de crises conjunturais que se acumularam até tornarem o modelo de governação insustentável.
Apesar de o Chega pertencer à mesma família europeia onde se juntam partidos soberanistas, como é o caso do Fidesz de Orbán, o politólogo lembra que, em matéria internacional, a direita populista portuguesa não seguiu o padrão que tornou o caso húngaro particularmente controverso.
Marchi assinala um posicionamento historicamente pró-atlantista, com defesa da ligação aos Estados Unidos e uma linha de maior alinhamento com a União Europeia e com o apoio à Ucrânia.



Apesar de o Chega não ter experiência governativa em Portugal, Riccardo Marchi admite que o desfecho na Hungria pode funcionar como uma lição a ter em conta para o futuro.
“Pode ser um exemplo de como acelerar sobre posturas anti institucionais pode, no longo prazo, ser uma ameaça para a manutenção do partido no poder, principalmente pela resistência que pode criar a nível europeu”, explica.
E conclui: “Desse ponto de vista, André Ventura pode aprender qual é a estratégia melhor para lidar tanto com Bruxelas como com as instituições nacionais”.













