Surto de hantavírus

Cronologia hantavírus: O que aconteceu no cruzeiro desde que saiu da Patagónia?

09 mai, 2026 - 11:00 • Ana Kotowicz

Navio saiu da Tierra del Fuego, a 20 de março. O destino era a Antártida, mas, depois disso, regressou à Argentina. É aí, em Ushuaia, que a história começa, a 1 de abril. Pelo caminho, há três mortos.

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Atualizado a 18 de maio


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A palavra surto começou a aparecer de mão dada com hantavírus. Havia três mortes confirmadas, todas de passageiros do cruzeiro Hondius. A 4 de maio, a notícia ganhou expressão na imprensa internacional — dia em que se soube que havia um português a bordo. Mas a história, e o pesadelo dos passageiros, começou vários dias antes, em abril.

Com a pandemia de Covid-19 fresca na memória, ouvir virologistas, ou mesmo o diretor geral da Organização Mundial de Saúde, dizer que não há risco de outra pandemia não é suficiente para tranquilizar toda a gente. Quem se esquece de Graça Freitas, então diretora-geral da Saúde, a afirmar que a Covid-19 não chegaria a Portugal?

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Os números podem tirar teimas. Algumas, pelo menos. As infeções por hantavírus são relativamente incomuns, têm uma taxa de letalidade de até 15% na Ásia e na Europa, e de até 50% nas Américas. Mesmo raras, todos os anos, garante a OMS, ocorrem entre 10 mil a mais de 100 mil infeções espalhadas pelo mundo, com maior concentração na Ásia e na Europa.

Os três casos do cruzeiro parecem assim insignificantes.

Só no continente europeu, há milhares de casos notificados todos os anos, principalmente nas regiões do norte e do centro, onde circula o vírus Puumala.

Voltemos então ao Hondius, da empresa Oceanwide Expeditions, que partiu da Argentina a 20 de março, rumo à Antártida. O que aconteceu naquele navio?


20 de março

  • O navio parte da Tierra del Fuego, Patagónia, na Argentina. O destino é a Antártida e do itinerário faz parte um regresso ao país sul-americano, a Ushuaia, uns dias mais à frente.

1 de abril

  • De regresso à Argentina, o cruzeiro sai definitivamente de Ushuaia, com 149 pessoas a bordo (tripulantes e passageiros) de 23 nacionalidades — entre elas um português. Vai atravessar o Atlântico Sul rumo às Ilhas Canárias, em Espanha. A rota prevê passar pela Antártida Continental, pelas Ilhas Malvinas (próximas da região da Patagónia) e por uma ilha, sua vizinha, a Geórgia do Sul (desabitada, há apenas cientistas na ilha). Continua pelo Oceano Atlântico Sul, passando pela ilha Nightingale (também desabitada) e por Tristão da Cunha, o arquipélago habitado mais remoto do mundo, parte do território ultramarino britânico.

6 de abril

  • Um homem de 60 anos, dos Países Baixos, adoece. Tem febre, diarreia, dor de cabeça e dor abdominal.

Primeira morte

11 de abril

  • O passageiro neerlandês (caso 1) morre depois de ter sofrido graves dificuldades respiratórias. O seu corpo é congelado e conservado a bordo.

22 de abril

  • Um cidadão suíço (caso 7) desembarca em Santa Helena e regressa ao país de origem via África do Sul e Qatar. Sente-se mal dias mais tarde, a 1 de maio, e avisa as autoridades de saúde. É internado na Suíça, onde se virá a confirmar que tem hantavírus.

24 de abril

  • O cruzeiro está atracado na ilha de Santa Helena, território ultramarino britânico, a cerca de 2.300 quilómetros da costa de Angola. Naquele dia, a viúva de 69 anos (caso 2) vai desembarcar para acompanhar o corpo do marido. A neerlandesa, que já sentia problemas gastrointestinais, viria a ser a segunda doente a quem, depois de morta, foi diagnosticado infeção por hantavírus.
  • De Santa Helena, a mulher pretende seguir para Amesterdão, na Países Baixos, via Joanesburgo, num voo da KLM.
  • Na mesma data, desembarcaram na ilha cerca de 40 passageiros, informação que só viria a ser conhecida a 7 de maio.
  • A bordo, um cidadão suíço (caso 3), queixa-se de problemas respiratórios e febre. Pensa-se em pneumonia.

25 de abril

  • A viúva neerlandesa (caso 2), que já tinha viajado de avião de Santa Helena para Joanesburgo, tenta viajar num avião da KLM e sente-se cada vez pior. Não lhe permitem seguir para Amesterdão, mas chega a entrar no avião onde entra em contacto com uma comissária e uma passageira espanhola, entre outros. Desmaia no aeroporto de Joanesburgo e é hospitalizada na África do Sul.

Segunda morte

26 de abril

  • A viúva de 69 anos morre no hospital. O diagnóstico ainda demora alguns dias.
  • O cruzeiro atraca em Ascensão, outra ilha que é território ultramarino britânico.

27 de abril

  • O guia de expedição (caso 6) adoece no cruzeiro. Irá testar positivo a 6 de maio e será retirado do navio. Seguirá para os Países Baixos, assim com outros doentes. É tripulante, britânico e tem 56 anos.
  • Neste dia, o doente suíço (caso 3), que já apresentava sintomas há vários dias, é desembarcado na ilha da Ascenção para ser transferido para um hospital na África do Sul. Virá a testar positivo dias mais tarde.

28 de abril

  • Uma passageira alemã (caso 4) desenvolve sintomas de pneumonia a bordo do navio. Acabará por morrer passados quatro dias. O seu teste é feito post mortem e enviado para os Países Baixos, em conjunto com alguns doentes que serão retirados do navio via aérea (avião médico).

30 de abril

  • O médico de bordo (caso 5), neerlandês, apresenta sintomas. Irá testar positivo mais à frente e será internado nos Países Baixos. Tal como outros doentes, será retirado do cruzeiro via aérea (aviões médicos).

Terceira morte e primeira confirmação

2 de maio

  • Quatro dias depois dos primeiros sintomas, a alemã (caso 4) morre a bordo do navio. É a terceira vítima fatal. Seguirá no navio, já cadáver, até que este atracar nos Países Baixos, onde toda a embarcação será desinfetada.
  • O doente suíço (caso 3), que continua internado no hospital de Joanesburgo, é diagnosticado com infeção por hantavírus, estirpe dos Andes. É o primeiro diagnóstico oficial.
  • A OMS é oficialmente notificada.

3 de maio

  • Com a aproximação a Cabo Verde, o cruzeiro aproxima-se do final da viagem. A âncora é lançada perto da capital do país, Praia.
  • A bordo, três passageiros queixam-se de sintomas idênticos aos dos outros doentes: febre e problemas gastrointestinais.
  • Não há autorização para desembarcar passageiros, nem para transferir os doentes para unidades de saúde.
  • Cabo Verde envia equipas médicas a bordo e começam a ser feitas análises.
  • Fica agora a saber-se que o médico de bordo (caso 5), neerlandês, é um dos doentes.
  • O primeiro balanço da OMS fala em seis casos: três mortos e três suspeitos de infeção.

Segunda confirmação, um caso provável (paciente zero)

4 de maio

  • Confirma-se que a viúva (caso 2) morreu com hantavírus. O marido (caso 1) é considerado um caso provável, mas sem confirmação. Tudo indica que será o paciente zero, mas não foram feitos testes laboratoriais.
  • Cabo Verde continua a negar a entrada no porto por razões de segurança pública nacional.
  • Fala-se num possível desembarque nas Canárias, em Espanha, com a OMS a fazer um pedido formal: pede que se preste assistência aos doentes com base no "cumprimento do Direito Internacional e no espírito humanitário".

Terceira confirmação

5 de maio

  • Na África do Sul, o ministro da Saúde fala: o doente suíço (caso 3) contraiu o vírus dos Andes, a causa mais comum da síndrome pulmonar por hantavírus na América do Sul — e a única transmissível entre humanos.
  • Em Espanha, as Canárias não veem com bons olhos a chegada do navio, mas o Governo decide aceitar o pedido da OMS.
  • A viagem irá durar três dias.
  • A OMS começa a procurar os passageiros do voo da KLM onde a viúva neerlandesa chegou a entrar.
  • Na Suíça, o passageiro que desembarcou em Santa Helena, antes de todo os outros, está infetado. A sua mulher — que esteve no mesmo cruzeiro — não tem sintomas. Fica em autoisolamento.

Quarta, quinta e sexta confirmações

6 de maio

  • duas pessoas a abandonar o navio. Há suspeitas de que estejam infetados, mas ainda não há garantias.
  • São transportados em aviões ambulâncias para os Países Baixos, um em estado grave e uma assintomática.
  • É um tripulante neerlandês (médico de bordo, caso 5) e uma passageira alemã (mais tarde o teste da mulher dará negativo, o dos homens positivo).
  • No mesmo dia, o guia da expedição (caso 6) testa positivo.
  • O teste post mortem da alemã (caso 4) está positivo.
  • A bordo, os passageiros ficam confinados nos seus camarotes, com turnos programados para passeios higiénicos no convés.
  • A ministra espanhola da Saúde garante que todos os passageiros que permanecem a bordo do Hondius estão sem sintomas.
  • Na Argentina procuram-se respostas. O governo quer perceber se foi no país que o primeiro casal a morrer foi infetado. Antes do cruzeiro, passearam pela Argentina, pelo Chile e pelo Uruguai numa viagem de observação de aves. Nos locais onde passaram há roedores potencialmente portadores de hantavírus.
  • Terão estado num aterro sanitário, conhecido como um local de peregrinação para observadores de aves. Evitado pelos moradores, é valorizado por quem procura avistar a caracará-de-garganta-branca, uma ave rara. As autoridades suspeitam que o casal inalou partículas de fezes de ratos-pigmeus-de-cauda-longa.

7 de maio

  • O guia da expedição (caso 6) é retirado do navio por via aérea e segue para os Países Baixos..
  • O Hondius parte finalmente de Cabo Verde para Espanha. Destino: porto de Granadilla de Abona, em Tenerife, a maior das ilhas do arquipélago das Canárias.
  • Uma comissária de bordo da KLM, neerlandesa, é internada num hospital de Amesterdão. Tem sintomas compatíveis com hantavírus e esteve em contacto com a viúva neerlandesa (caso 2) no avião que seguiria de Joanesburgo para Amesterdão. Acabará por testar negativo.
  • Sabe-se que o cruzeiro ficará ao largo de Tenerife, sem atracar, segundo as autoridades espanholas.
  • Os espanhóis serão colocados em quarentena no Hospital Militar Gómez Ulla, em Madrid. Os estrangeiros serão repatriados, desde que permaneçam sem sintomas.
  • Tedros ‌Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, dá a sua primeira conferência de imprensa desde o início do surto e fala em oito caso, entre suspeitas e confirmações. Admite que o número pode aumentar — “Ó período de incubação do vírus Andes pode chegar às seis semanas.” Apesar disso, garante que o mundo não está a “assistir ao início de uma nova epidemia ou pandemia”.

Seis casos confirmados oficialmente

8 de maio

  • A hospedeira da KLM não está infetada, anuncia a OMS.
  • Espanha anuncia que uma passageira do mesmo voo da KLM apresenta sintomas de hantavírus. A espanhola estava sentada duas filas atrás da viúva, que acabou por morrer da infeção. O contacto entre ambas foi breve, já que a viúva teve de abandonar o avião. Também este teste será negativo.
  • O Reino Unido também anuncia um novo caso suspeito: um passageiro britânico (caso 8) que desembarcou na ilha de Tristão da Cunha, Atlântico Sul. A OMS considera que este é um caso provável.
  • A OMS faz uma atualização: número de casos confirmados aumenta para seis, todos da estirpe Andes, transmissível entre seres humanos.

9 de maio

10 de maio

  • O navio MV Hondius atraca no porto de Granadilla de Abona, Tenerife, para desembarcar os 147 passageiros e membros da tripulação.
  • O desembarque e repatriamento dos passageiros acontece sem qualquer contacto com a população local das ilhas Canárias.
  • O doente britânico (caso 8), residente em Tristão da Cunha, recebe ajuda. Médicos britânicos são enviados de paraquedas para a ilha Tristão da Cunha. O residente é considerado pela OMS como um caso provável.
  • O Papa agradece às Canárias por permitir chegada de cruzeiro com hantavírus.
  • Um total de 94 passageiros de 19 nacionalidades desembarcaram do MV Hondius:
    - 14 cidadãos voam para Madrid;
    - 5 pessoas para França;
    - 4 pessoas são do Canadá;
    - 26 pessoas voam para os Países Baixos;
    - 2 pessoas seguem para a Irlanda;
    - 3 pessoas para a Turquia;
  • Para segunda-feira é esperado o desembarque de mais 24 pessoas: seis num voo para a Austrália; e 18 pessoas num voo para os Países Baixos;
  • Deverão ficar a bordo do MV Hondius 34 membros da tripulação, que seguirão para os Países Baixos, assim como o cadáver da passageira alemã (caso 4).

Sétima confirmação e uma suspeita

11 de maio

  • Novo caso confirmado: trata-se de uma passageira francesa (caso 9) do cruzeiro. A bordo, os sintomas foram considerados apenas ansiedade, mas acabou por testar positivo.
  • Também um dos 17 norte-americanos retirados do navio testou positivo, apesar de não apresentar sintomas, disseram as autoridades de saúde dos Estados Unidos. No entanto, há dúvidas sobre a credibilidade do teste.
  • Um passageiro espanhol (caso 10) testa positivo num teste provisório.
  • Doze funcionários de um hospital dos Países Baixos foram colocados em quarentena. Os procedimentos, ao recolher sangue e urina de passageiros do cruzeiro, não foram seguidos corretamente, anunciou o centro hospitalar universitário Radboud.

Oitava confirmação

12 de maio

  • O passageiro espanhol (caso 10) está infetado com hantavírus, confirmam os resultados definitivos, anunciou o Ministério da Saúde de Espanha. Os outros 13 espanhóis estão negativos. Todos estão em quarentena num hospital militar.
  • Um italiano que viajou na KLM, no mesmo voo que a viúva dos Países Baixos (caso 2) está em isolamento. Segundo o Governo, todos os passageiros que estiveram naquele voo estão em isolamento e serão testados. A diferença? Inicialmente, a imprensa avançava que este italiano tinha sintomas e estava internado, o que foi desmentido pelo Governo.
  • Diretor da OMS dá conferência de imprensa em Espanha, ao lado de Pedro Sánchez, chefe de Governo. Segundo a OMS, há 9 casos confirmados e dois prováveis.
  • Passageiro norte-americano que tinha testado positivo, afinal não está infetado. Os testes foram repetidos duas vezes.

Oito confirmados, um inconclusivo e dois prováveis

13 de maio

  • Novo balanço da OMS: até 13 de maio, foram relatados 11 casos no total (oito confirmados, um inconclusivo -- caso 11 -- e dois prováveis), incluindo três óbitos (dois confirmados e um provável).

14 de maio

  • Estados Unidos monitorizam 41 pessoas por suspeita de hantavírus.
  • Em conferência de imprensa, o CDC indicou que se tratam de passageiros do navio MV Hondius onde começou o surto ou de voos onde também seguia, pelo menos, um caso positivo e sintomático. O organismo insiste que, "até à data, nenhum caso de hantavírus foi confirmado nos Estados Unidos".

Nona confirmação

16 de maio

  • Um cidadão canadiano (caso 12) testou positivo para hantavírus depois de abandonar o Hondius, anunciaram as autoridades da província da Colúmbia Britânica, no Canadá.
  • O doente, natural do Yukon, realizou testes num hospital em Victoria, na ilha de Vancouver, após desenvolver sintomas ligeiros. Segundo as autoridades de saúde, está estável.
  • A bordo viajavam quatro canadianos — dois casais, um do Yukon e outro da Colúmbia Britânica — que estão agora em isolamento na ilha de Vancouver.

18 de maio

  • Cruzeiro chega aos Países Baixos e será desinfetado em Roterdão (entre 19 e 22 de maio). Neerlandeses poderão fazer quarentena em casa, estrangeiros ficam em cabines no porto.
  • Depois de vários passageiros terem sido retirados em escalas anteriores, havia ainda 27 pessoas a bordo — 25 tripulantes, um médico e uma enfermeira. Estes dois estiveram sempre protegidos depois de entrar a bordo e não farão quarentena.
  • Há 23 cabines, uma espécie de pequenas casas, onde os tripulantes ficarão. Estão mobiladas para serem "o mais aconchegante possível".
  • A alemã (caso 3) que morreu com hantavírus a bordo do cruzeiro Hondius vai ser cremada nos Países Baixos. O corpo, que ficou sempre no navio, é retirado por uma agência funerária especializada e será transportado para Schiphol, para um crematório. As cinzas serão entregues à família.
  • DGS afasta risco em Portugal. A 12 de maio, a operação de repatriamento de cidadãos canadianos, a partir de Tenerife para o Canadá, envolveu uma aeronave com 12 tripulantes portugueses. Um dos canadianos testou positivo a 16 de maio, mas “terá iniciado sintomas apenas no dia 14 de maio de 2026” , quatro dias depois da realização do voo de repatriamento, ocorrido a 10 de maio.
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