Hungria

Paulo Almeida Sande: “Péter Magyar terá de provar que não foi apenas uma espécie de estrela cadente"

09 mai, 2026 - 08:30 • André Rodrigues

Especialista em assuntos europeus analisa impacto da chegada de Péter Magyar ao poder, as expetativas em Budapeste, o reposicionamento da Hungria na União Europeia e as consequências para o apoio à Ucrânia. Num Dia da Europa marcado pelo debate sobre segurança, defesa e autonomia estratégica, Paulo Almeida Sande diz que “está tudo interligado”.

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Paulo Almeida Sande. “Péter Magyar terá de provar que não foi apenas um fenómeno momentâneo”
Ouça as declarações de Paulo Almeida Sande. Foto: Olivier Matthys/EPA

No dia em que Péter Magyar sucede, formalmente, a Viktor Orbán, a guerra na Ucrânia continua a pressionar a União Europeia a acelerar decisões sobre apoio militar, financiamento e segurança. Em declarações à Renascença, Paulo Almeida Sande, especialista em assuntos europeus considera que o “efeito Magyar” foi imediato, logo após a vitória. E acredita que o sucessor de Orbán, embora oriundo da mesma família política do antigo chefe do Governo, tenderá a normalizar as relações entre Budapeste e Bruxelas. Mas não poderá ignorar que existe uma série de questões internas. Que, provavelmente, serão prioritárias em detrimento da reconciliação com a União Europeia.

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Toma posse o sucessor de Viktor Orbán na Hungria. O que é que pode ser diferente a partir de agora, sendo que, por exemplo, na questão do apoio europeu à Ucrânia, os 90 mil milhões euros foram desbloqueados ainda antes do novo primeiro-ministro entrar em funções. É o efeito Magyar a funcionar?

Sim, sem dúvida. Houve uma mudança importante. Não diria radical, mas foi o início de uma nova realidade na relação entre a Hungria e a União Europeia.
Embora Viktor Orbán ainda estivesse no poder, a vitória de Magyar alterou imediatamente o contexto e tornou possível o apoio à Ucrânia, incluindo o tal empréstimo crucial de 90 mil milhões. Sem ele, a Ucrânia teria dificuldades acrescidas para continuar a resistir numa guerra que já dura há muito.

A partir de agora, entra-se numa nova fase. Magyar fez campanha com a ideia de que a Hungria pertence à União Europeia, que a bandeira europeia voltará ao Parlamento e que as relações com Bruxelas vão mudar. Ainda assim, no início terá de se concentrar também em questões internas, as que o levaram a ser eleito, e que não são necessariamente, ou, pelo menos de forma prioritária, as europeias.

O facto de vir do campo político de Orbán pode significar que, com o tempo, do ponto de vista europeu, Magyar fique abaixo das expetativas criadas no dia em que foi eleito?
O essencial aqui é uma questão de gestão de expetativas. As expetativas em torno de Péter Magyar são muito elevadas, em grande parte pelo contraste com Viktor Orbán. Magyar surgiu de uma posição discreta na política interna, depois de anos em Bruxelas, era casado com Judith Varga, uma figura proeminente do Fidesz. Ainda assim, conseguiu aquilo que muitos húngaros desejavam, mas não esperavam ver acontecer: substituir Orbán democraticamente.

Esse é o motor da vitória. Em muitos eleitores, a lógica foi sobretudo impedir a continuidade de Orbán. Magyar construiu a sua vitória com um conjunto de promessas em que a luta contra a corrupção surge em primeiro plano e, logo a seguir, a reposição de uma relação diferente com a Europa.

Mas a situação interna na Hungria é difícil, sobretudo do ponto de vista económico, e é aí que também se concentra a esperança de muitos húngaros.

A questão é perceber se, nos próximos anos, haverá uma inflexão e se Magyar regressará à sua matriz original: ele foi membro do Fidesz durante mais de 20 anos e conviveu com o sistema político de Orbán. Ao mesmo tempo, não tinha tido um papel de grande visibilidade até surgir como alternativa, sustentado por promessas e por expetativas muito fortes. A relação com a União Europeia será uma pedra de toque, mas as expetativas colocadas sobre ele passam sobretudo por questões internas: economia e relação com a Rússia. E a relação com a Rússia continuará a ser central.

Na minha opinião, Magyar não poderá adotar posições excessivamente maximalistas em vários dossiers, incluindo a relação com Moscovo e também a imigração. Vai ter de ajustar promessas e expetativas à realidade governativa. Resta ver se esse reajustamento não o empurra, mais à frente, para uma radicalização. De qualquer forma, as expetativas são elevadas e Péter Magyar terá de de provar que não foi apenas uma espécie de estrela cadente.

A perspetiva é a de uma normalização, recolocando a Hungria no que Magyar considera ser a sua família natural: a Europa e a União Europeia

Que parceiro será Péter Magyar no Conselho Europeu, daqui para a frente?
Magyar terá de estabelecer uma relação o mais próxima possível com os principais parceiros europeus, procurando apoio sobretudo em países como a Alemanha — e também a Holanda — para recentrar a Hungria numa lógica europeia.

No curto prazo, uma prioridade será a questão dos fundos europeus, que ficaram bloqueados e que poderão ser desbloqueados. Veremos até que ponto consegue normalizar, de facto, a relação com a União Europeia.

A Hungria é um país complexo do ponto de vista geopolítico. Está no centro da Europa, mas com vizinhanças e equilíbrios exigentes. A relação com a Polónia e com parceiros do Leste será importante. E também será relevante perceber como se relacionará com Robert Fico, na Eslováquia, um dos líderes que tem assumido posições mais céticas quanto ao apoio à Ucrânia.

Acredito que Magyar tentará um equilíbrio transversal dentro da União Europeia: aproximar-se de países como a Alemanha e distanciar-se, pelo menos parcialmente, dos mais céticos sobre o apoio à Ucrânia e sobre a relação europeia com a Rússia. A perspetiva é a de uma normalização, recolocando a Hungria no que Magyar considera ser a sua família natural: a Europa e a União Europeia.

Uma Europa eficaz de segurança e defesa tem de ser um processo gradual, não acontece de um dia para o outro

Hoje, também, assinala-se o Dia da Europa. Que Europa é esta e para onde vai, num contexto geopolítico tenso — dentro e fora de portas — com a guerra na Ucrânia, a crise no Médio Oriente? A Europa está preparada para este tempo e para choques futuros?

Uma coisa é o que a Europa quer ser; outra é o que a Europa pode ser. Ou seja, há uma diferença entre aspiração e capacidade real. E isso está tudo interligado.
Neste momento, é claro que a Europa está a fazer um esforço grande. Quando falo de Europa, falo do continente no seu conjunto, incluindo o impacto da guerra na Ucrânia e também outras crises e tensões globais. Há um esforço europeu para contrariar o predomínio das grandes potências e preservar margem de manobra. E, no plano da União Europeia, esse esforço existe de forma muito visível.

O discurso dominante tende a sublinhar que “a Europa não está presente” ou “não consegue”. Eu não vejo isso assim: a Europa está presente, embora muitas vezes não tenha o papel que gostaria, nem seja sempre eficaz, e nem sempre seja chamada para negociações importantes — até pelo seu principal aliado, os Estados Unidos, que hoje parecem contar menos com a Europa. Isso obriga a Europa a agir por si e com os recursos de que dispõe.

E é importante lembrar que o orçamento da União Europeia é limitado. A UE está a fazer um esforço com os meios que tem e, em paralelo, os Estados-membros estão a investir mais, nomeadamente na indústria de defesa e segurança. Esse caminho já começou, apesar das dificuldades. Se é o caminho ideal e se permitirá à Europa manter relevância global e preservar prosperidade e bem-estar no futuro, não é certo. Há quem tema que a Europa se torne apenas um parque temático, um destino de museus e turismo. Eu espero que não. A Europa tem base, capacidades e pessoas para ser eficaz, e está a fazer um esforço nesse sentido.

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Mas e a segurança e a paz?

Sem segurança e paz não há liberdade. E sem liberdade não há segurança: as duas dimensões estão profundamente ligadas. A Europa tem de reforçar esse esforço.
Dou um exemplo: a Alemanha está a rearmar-se e isso pode torná-la a força convencional mais poderosa da Europa. A Europa precisa de pilares desse tipo, mas há também sensibilidades históricas, porque a Segunda Guerra Mundial não está assim tão distante no tempo. O que curou as relações no pós-guerra foi a integração e a aproximação entre povos antes inimigos. Isso é essencial preservar.

Construir uma Europa eficaz de segurança e defesa tem de ser um processo gradual, não acontece de um dia para o outro. E deve ser feito preservando a NATO tanto quanto possível, sem pôr em causa a relação transatlântica.

O caminho passa por cooperação, missões conjuntas, esforço conjunto e interoperabilidade: forças armadas capazes de operar em conjunto e de colocar as capacidades de cada país ao serviço de um objetivo comum. Esse é o desafio.

É um objetivo desejável. Não sei se será totalmente possível, mas espero que sim. Por nós e, sobretudo, pelos nossos descendentes.

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