Saúde

Hantavírus, norovírus e Covid-19. Porque é que os surtos se espalham tão depressa nos cruzeiros?

10 mai, 2026 - 08:00 • The Conversation/Reuters

O vírus que está a alertar o mundo terá tido início num cruzeiro, com pelo menos seis casos confirmados pela OMS e três mortes. Nas Bahamas, o “vírus dos vómitos” apanhou pelo menos 115 passageiros e membros da tripulação. Em fevereiro de 2020, um cruzeiro no Japão foi um dos primeiros focos de contágio do coronavírus.

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Os cruzeiros são vendidos como férias flutuantes, mas também são úteis para compreender a saúde pública. Os navios de cruzeiro são espaços cuidadosamente concebidos, onde muitas pessoas vivem, comem, relaxam e circulam pelas mesmas áreas partilhadas durante vários dias.

Com isso, mostram até que ponto uma doença se pode propagar facilmente, quando um grupo de pessoas está concentrado num único ambiente.

O hantavírus é o exemplo mais recente de um surto viral a bordo de um cruzeiro de luxo que partiu da Patagónia argentina, com seis casos confirmados até ao momento pela Organização Mundial de Saúde e mais dois prováveis, dos quais resultaram três mortes.

Numa escala menos perigosa, nas Bahamas, pelo menos 115 pessoas encontram-se infetadas com um norovírus e apresentam sintomas do vírus que provoca vómitos e diarreia.

Pode pensar-se num navio de cruzeiro como uma cidade temporária no mar. Tem restaurantes, teatros, elevadores, quartos, cozinhas e espaços interiores de convívio. É proveitoso a nível de conveniência, mas também significa que, quando uma infeção entra a bordo, pode espalhar-se pelo navio de formas difíceis de controlar.

Foi o que aconteceu em fevereiro de 2020, quando um surto de Covid-19 atingiu o Diamond Princess, no Japão, tornando-se num dos primeiros e maiores focos de contágio fora da China, onde a pandemia teve início. No espaço de poucos dias, 619 passageiros e tripulantes foram infetados, com cerca de 3.700 pessoas terem ficado em quarentena durante duas semanas.

Estudos vieram a concluir que as condições a bordo facilitaram a propagação do novo coronavírus, com medidas de saúde pública, como o isolamento e a quarentena, a terem evitado centenas de casos, ao mesmo tempo que foi avançado que uma resposta mais precoce teria limitado ainda mais o surto.

Norovírus, doença dos legionários e outros vírus

O norovírus — conhecido como o “vírus dos vómitos” — é a infeção mais frequentemente associada aos cruzeiros. Numa revisão de estudos anteriormente publicados, os investigadores identificaram 127 relatos de surtos de norovírus em navios de cruzeiro, muitos deles associados a alimentos contaminados, superfícies contaminadas e transmissão entre pessoas. Um relatório mais recente dos Estados Unidos demonstrou igualmente que o norovírus pode propagar-se muito rapidamente de pessoa para pessoa num navio de cruzeiro.

Isto ajuda a explicar porque é que embarcações como o Celebrity Mercury, o Explorer of the Seas e o Carnival Triumph tornaram-se nomes familiares em relatórios sobre surtos. Não são casos invulgares por razões especiais. São simplesmente ambientes onde as refeições partilhadas, o contacto próximo e a circulação frequente em áreas comuns permitiram que a infeção se espalhasse rapidamente.

O serviço de refeições desempenha um papel importante neste risco. Os buffets de self-service, os utensílios partilhados e o facto de muitas pessoas tocarem nas mesmas superfícies podem facilitar a propagação de infeções gastrointestinais. Se uma pessoa estiver infetada mas ainda não apresentar sintomas, poderá contaminar alimentos ou superfícies antes mesmo de perceber que está doente.

A própria configuração dos navios agrava o problema. Os passageiros passam muito tempo juntos em salas de refeições, bares, elevadores, corredores, teatros e zonas de spa. Os membros da tripulação também vivem e trabalham no mesmo ambiente, muitas vezes em alojamentos partilhados, o que facilita a propagação de doenças entre passageiros ou entre passageiros e tripulação.

A ventilação desempenha igualmente um papel crucial. Os navios de cruzeiro não são espaços totalmente fechados, mas dependem fortemente de áreas interiores onde muitas pessoas permanecem durante longos períodos. Estudos sobre a qualidade do ar em cruzeiros mostraram que as doenças se podem espalhar mais facilmente em espaços sobrelotados e fechados, como cabines, restaurantes e zonas de entretenimento, sobretudo quando os sistemas de ventilação não são adequados. A circulação suficiente de ar fresco, os filtros especializados e as tecnologias de purificação do ar são fatores importantes para manter os passageiros em segurança.

A doença dos legionários — uma infeção pulmonar grave causada por bactérias — evidencia um tipo diferente de risco. Ao contrário de outras infeções, normalmente não se transmite diretamente entre pessoas. Em vez disso, a infeção pode ocorrer através da inalação de pequenas gotículas provenientes de sistemas de água contaminados, jacuzzis ou chuveiros.

Um surto amplamente divulgado entre passageiros de cruzeiros foi associado a um spa com hidromassagem, e relatórios recentes dos Centers for Disease Control and Prevention descreveram outros surtos de doença dos legionários relacionados com sistemas de água a bordo de navios.

A idade também é um fator relevante. As férias em cruzeiro são particularmente populares entre pessoas mais velhas, e muitos passageiros têm doenças crónicas que tornam as infeções mais graves. Uma gastroenterite num cruzeiro pode provocar desidratação, enquanto uma infeção respiratória pode evoluir para pneumonia ou exigir internamento hospitalar.

Embora os navios de cruzeiro disponham de instalações médicas, estas são limitadas quando comparadas com hospitais em terra. Foram concebidas para prestar primeiros socorros, tratamentos básicos e cuidados de curta duração, e não para gerir surtos de rápida propagação em larga escala. É por isso que a saúde pública a bordo depende tanto da deteção precoce, do isolamento rápido e de práticas rigorosas de limpeza.

Outras infeções, como vírus respiratórios — incluindo a gripe —, podem propagar-se nos mesmos ambientes interiores sobrelotados, enquanto as infeções gastrointestinais disseminam-se através dos alimentos, das mãos e das superfícies partilhadas.

A Covid-19 e a gripe aproveitam os espaços fechados e as multidões.

O norovírus propaga-se facilmente através de buffets e superfícies contaminadas. A doença dos legionários afeta os sistemas de água, que são difíceis de esterilizar completamente nos navios.

Os surtos de hantavírus — uma doença respiratória grave transmitida por roedores — são raros em embarcações. Ainda assim, como demonstram notícias recentes sobre mortes no MV Hondius, os microrganismos encontram muito mais facilidade em espalhar-se em espaços confinados.

Como reduzir o risco

Para os viajantes, a melhor proteção começa antes do embarque. É aconselhável verificar se a empresa de cruzeiros dispõe de políticas claras de comunicação de doenças, limpeza e isolamento. Também é importante garantir que as vacinas de rotina estão atualizadas.

No caso de idosos, grávidas ou pessoas com problemas de saúde, recomenda-se uma consulta prévia com o médico de família antes da viagem. Além disso, o seguro de viagem deve cobrir eventuais interrupções relacionadas com doença.

Já a bordo, lavar frequentemente as mãos com água e sabão é a medida mais eficaz para prevenir infeções gastrointestinais como o norovírus. O desinfetante de mãos pode ajudar, mas não substitui a lavagem adequada. Caso surjam sintomas, a opção mais segura é evitar buffets e espaços partilhados com muita gente, bem como comunicar rapidamente a situação, em vez de tentar continuar as atividades normalmente.

As empresas de cruzeiros melhoraram os sistemas de higiene e resposta a surtos ao longo do tempo, e muitas viagens decorrem sem incidentes. No entanto, a própria estrutura das viagens de cruzeiro continua a criar o mesmo desafio: muitas pessoas a partilhar as mesmas refeições, o mesmo ar, os mesmos sistemas de água e os mesmos espaços comuns.

É por isso que os surtos continuam a surgir e porque os navios de cruzeiro permanecem um exemplo claro de como a saúde pública é influenciada tanto pelo desenho dos espaços como pelos próprios microrganismos.

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