Energia

Cuba esgotou reservas de combustível. Apagões deixam 70% do país às escuras e provocam protestos em Havana

14 mai, 2026 - 15:48 • Olímpia Mairos , com Lusa e Reuters

Crise energética agrava-se com falta total de combustível, manifestações nas ruas e abertura de Havana para discutir ajuda dos Estados Unidos através da Igreja Católica.

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Cuba deverá registar esta quinta-feira o pior nível de cortes de energia da sua história recente, com cerca de 70% do território nacional sem eletricidade nas horas de maior consumo, segundo dados oficiais da União Elétrica (UNE).

A crise energética agravou-se nas últimas semanas devido à escassez extrema de combustível, num contexto marcado pelo endurecimento das sanções norte-americanas e pelo colapso das reservas de gasóleo e fuelóleo.

De acordo com a UNE, subordinada ao Ministério da Energia e Minas cubano, a capacidade de produção prevista para o pico de consumo é de apenas 976 megawatts (MW), muito abaixo da procura estimada de 3.150 MW. O défice energético deverá atingir os 2.174 MW, enquanto o impacto efetivo dos cortes poderá chegar aos 2.204 MW, obrigando a desligamentos massivos para evitar um apagão descontrolado.

A situação começou logo durante a madrugada, quando uma nova falha parcial da rede elétrica afetou sete das 15 províncias cubanas. “Às 6h09 ocorreu uma desconexão parcial da rede”, informou a UNE numa nota divulgada no portal oficial da empresa.

Governo admite rede elétrica “crítica”

O ministro cubano da Energia e Minas, Vicente de la O, reconheceu publicamente a gravidade da crise, admitindo que o país ficou sem reservas de combustível. “Não temos absolutamente nenhum combustível e absolutamente nenhum gasóleo”, declarou nos meios de comunicação estatais. “Não temos reservas.”

O governante admitiu ainda que a rede elétrica cubana entrou num estado “crítico” e explicou que o país continua a procurar fornecedores internacionais de combustível. No entanto, alertou que a subida dos preços do petróleo e do transporte marítimo, agravada pela guerra envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão, está a dificultar as importações. “Cuba está aberta a qualquer um que queira vender-nos combustível”, afirmou.

Por sua vez, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, afirmou esta quinta-feira que Havana está disponível para analisar a proposta de ajuda de 100 milhões de dólares apresentada pelos Estados Unidos.

“Estamos prontos para conhecer os detalhes da proposta e a forma como poderá ser aplicada”, escreveu o governante cubano na rede social X.

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, voltou na quarta-feira a defender a disponibilização de ajuda norte-americana a Cuba, mas sublinhou que o apoio deverá ser canalizado através da Igreja Católica, excluindo qualquer intervenção direta do Governo comunista cubano.

Protestos espalham-se por Havana

A deterioração da rede elétrica desencadeou uma onda de protestos em Havana, considerada a maior desde o agravamento da crise energética. Centenas de pessoas saíram às ruas em bairros periféricos da capital, bloqueando estradas com lixo incendiado, batendo panelas e exigindo o regresso da eletricidade.

“Liguem a eletricidade!” e “O povo unido jamais será vencido!” foram algumas das palavras de ordem entoadas pelos manifestantes.

Rodolfo Alonso, morador no bairro de Playa, explicou à Reuters que decidiu juntar-se aos protestos depois de passar mais de 40 horas consecutivas sem eletricidade.

“Vivo numa comunidade com muitas pessoas idosas, muitas delas acamadas. A nossa comida está a estragar-se”, afirmou o trabalhador estatal, acrescentando que os moradores apenas exigem algumas horas de energia por dia. “Começámos a bater panelas para ver se nos davam apenas três horas de eletricidade. É só isso que queremos. Isto não é um problema político.”

A agência Reuters relatou ainda que, em várias zonas da cidade, a eletricidade regressou pouco depois das manifestações, levando os residentes a festejar antes de dispersarem rapidamente. Apesar da forte presença policial, as autoridades mantiveram-se maioritariamente à margem, sem intervenções diretas.

Também Irailda Bravo, de 38 anos, participou numa manifestação em Marianao e descreveu o impacto do calor e dos cortes prolongados no quotidiano da população. “Sabemos que a situação no país é caótica. Mas temos filhos pequenos. Temos de trabalhar. Temos uma vida. Precisamos de descansar, e não conseguimos”, lamentou.

Embargo agrava crise energética

A crise energética cubana intensificou-se desde janeiro, quando o Presidente norte-americano Donald Trump endureceu as medidas contra Havana, ameaçando impor tarifas a países que forneçam combustível à ilha.

Segundo a Reuters, nem o México nem a Venezuela — historicamente os principais fornecedores de petróleo de Cuba — enviaram combustível para o país desde a nova ordem executiva norte-americana. Apenas um grande petroleiro russo entregou crude à ilha desde dezembro, proporcionando um alívio temporário.

As Nações Unidas têm criticado repetidamente o embargo imposto pelos Estados Unidos a Cuba, considerando que as sanções comprometem “o direito do povo cubano ao desenvolvimento” e afetam direitos fundamentais como o acesso à alimentação, saúde, educação, água e saneamento.

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