Tecnologia

Sabia que o seu carro pode estar a espiá-lo? Veículos modernos recolhem dados sobre a sua vida e condução

14 mai, 2026 - 15:34 • Olímpia Mairos

Especialistas alertam que automóveis ligados à internet podem recolher localização, hábitos de condução, expressões faciais e até informações usadas por seguradoras para calcular prémios.

A+ / A-

Os automóveis modernos estão a recolher uma quantidade crescente de dados pessoais dos condutores, numa realidade que está a gerar preocupações entre especialistas em privacidade e defesa do consumidor, segundo um artigo de investigação publicado pela BBC.

Dos percursos realizados à forma como cada pessoa conduz, passando por travagens bruscas, velocidade, utilização do cinto de segurança e até expressões faciais, os carros ligados à internet funcionam como autênticos computadores sobre rodas.

Um relatório da Mozilla, organização responsável pelo navegador Firefox, citado pela estação de televisão britânica, analisou as políticas de privacidade de 25 fabricantes automóveis e concluiu que os veículos são atualmente “a pior categoria de produtos em matéria de privacidade”.

Segundo o estudo, muitas marcas reservam-se o direito de recolher dados pessoais como nome, idade, peso, localização, hábitos de condução, informações financeiras e até tendências comportamentais.

Alguns modelos incluem câmaras e sensores no interior do habitáculo capazes de monitorizar movimentos dos olhos, sinais de fadiga e expressões faciais do condutor. A maioria dos veículos recentes possui também ligação permanente à internet, permitindo o envio contínuo dessas informações para servidores das fabricantes.

“Basicamente, significa que a sua vida pode ser recriada quase segundo a segundo”, afirmou Darrell West, à BBC.

Seguradoras usam dados para calcular prémios

Parte destes dados pode ser utilizada por seguradoras para ajustar os preços dos seguros automóveis. Algumas empresas recorrem a sistemas de telemetria que analisam a forma como cada pessoa conduz, avaliando acelerações, travagens, horários de circulação e distâncias percorridas.

Especialistas alertam que condutores considerados de maior risco podem acabar por pagar prémios de seguro mais elevados com base nesses registos.

Nos Estados Unidos, autoridades federais chegaram a investigar a General Motors por alegada venda de dados de localização sem consentimento dos utilizadores.

Segundo a investigação, empresas intermediárias de dados teriam recebido informações detalhadas sobre deslocações realizadas pelos condutores, incluindo rotas e horários frequentes.

“Estão a usar toda a informação recolhida sobre si para fazer inferências sobre quem é, qual o seu perfil psicológico ou até quais são as suas crenças”, alertou Jen Caltrider.

Novas tecnologias podem aumentar recolha de informação

Os especialistas receiam ainda que a recolha de dados aumente nos próximos anos com a introdução de novas tecnologias de segurança obrigatórias.

A legislação norte-americana prevê que os novos veículos passem a integrar sistemas capazes de detetar fadiga, distração ou consumo de álcool através de câmaras infravermelhas e sensores biométricos.

Embora o objetivo seja reforçar a segurança rodoviária e reduzir acidentes, organizações de defesa da privacidade alertam para a ausência de regras claras sobre a utilização e armazenamento desses dados.

Para os especialistas, o problema não está apenas na recolha de informação, mas também na falta de transparência sobre quem pode aceder aos dados e para que fins são utilizados.

Consumidores podem limitar partilha de dados

Apesar das preocupações, existem algumas medidas que podem ajudar os condutores a proteger a privacidade.

Os especialistas aconselham os utilizadores a reverem as definições de privacidade dos veículos e das aplicações associadas ao automóvel, desativando opções de partilha de dados sempre que possível.

Outra recomendação passa por evitar programas de monitorização das seguradoras que prometem descontos em troca da recolha contínua de informações sobre a condução.

Na União Europeia, os consumidores têm ainda o direito de pedir acesso aos dados recolhidos pelas empresas, solicitar a eliminação dessas informações e impedir a sua partilha com terceiros.

Ainda assim, os analistas consideram que a responsabilidade não deve recair apenas sobre os utilizadores. À BBC, Jen Caltrider defendeu que a falta de controlo sobre os dados pessoais continua a favorecer as empresas tecnológicas e fabricantes automóveis.

Enquanto não formos donos dos nossos próprios dados e as empresas não tiverem de pedir autorização clara para os usar, este problema só vai continuar a piorar”, concluiu.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Vídeos em destaque