Escala Global

O reality-show de Trump está a cansar? “Trump foi criado para vencer, não para se perceber”

15 mai, 2026 - 09:00 • Alexandre Abrantes Neves , Rita Gonçalves (vídeo) , João Campelo (sonorização)

O especialista em comunicação Luís Paixão Martins aponta que o afastamento de aliados como Meloni mostra que as ideias de Trump estão a ficar impopulares na Europa. Sobre o estilo do presidente dos EUA, diz que Trump está mais interessado em "fazer televisão" do que em ser coerente e evitar contradições.

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Reality-show de Trump e da "estupidez natural" já cansa? “Trump foi criado para vencer, não para se perceber"
Reality-show de Trump e da "estupidez natural" já cansa? “Trump foi criado para vencer, não para se perceber"

Num dia a dizer que o fim da guerra no Médio Oriente está próximo, noutro a garantir que vai “destruir o Irão”. Donald Trump habituou o mundo a declarações contraditórias desde o início da guerra no Médio Oriente, mas a narrativa pode estar a cansar. E não só nos Estados Unidos, onde a popularidade baixou drasticamente nas últimas semanas.

“A Giorgia Meloni [primeira-ministra de Itália] é um bom exemplo. Era unha com carne, afastou-se completamente de Trump para tentar não ter um resultado tão mau”, afirma o especialista em comunicação, Luís Paixão Martins, no programa da RenascençaEscala Global”. “Não sei se é o fim, mas é uma inversão. No populismo de direita, há ali um crescimento e há uma fase de esvaziamento, e parece que estamos a assistir uma fase de esvaziamento”.

Na leitura deste antigo consultor, os números das sondagens e certas derrotas eleitorais (como a de Viktor Órban na Hungria) mostram que Donald Trump começa a ter problemas em algo crucial do seu projeto político: a atração das audiências, seja de que forma for.

“Até podemos fazer um balanço negativo da comunicação dele, para ele é irrelevante. Qual é a diferença entre um meio de comunicação social e um agente de comunicação? O meio de comunicação vive da audiência, não está preocupado com o controlo da narrativa. Um agente de comunicação está preocupado com o controle da narrativa: pode ter menos audiência, mas é importante que a perceção da audiência corresponda ao seu objetivo”.

E, para isto, Trump tornou “tudo em televisão”, incluindo na Sala Oval, onde a “luz, som, ambiente, maquilhagem” é semelhante a um ambiente televisivo. Depois, foi só ligar as câmaras e adaptar a mensagem à excentricidade do cenário.

Trump é um campeão do apelo à estupidez. Grande parte do que ele diz só pode ser percebido como sendo dirigido a pessoas que não estão a ser chamadas por questões de inteligência. Ele passa a vida, aliás, a denegrir os seus adversários com os QI's. Ele diz que é o presidente mais inteligente. Pois bem, não sei. Aliás, o próprio uso das palavras: ele tem um vocabulário de uma criança de 15 anos”, defende Paixão Martins.

Manuel Poêjo Torres alinha-se nesta leitura e acrescenta um ponto: o presidente dos Estados Unidos não sabe lidar com a derrota. Para este analista, Trump não está interessado em aproveitar a oportunidade de aumentar a “humildade” e a “ponderação” e de “rever a governação” trazidas pelos falhanços políticos.

Por isso, prevê “erros semelhantes” se Donald Trump não sair por cima do Médio Oriente e até uma postura mais totalitária. Quase como se o seu mandato e as vitórias republicanas fossem eternos e não dependessem do desempenho político.

“Donald Trump olha para a família real britânica com tanto carinho e de forma tão familiar que, certamente, a sua vitória máxima seria ser proclamado rei dos Estados Unidos da América”, aponta.

Irão ganhou com Trump "aldrabão"

Primeiro os “posts” com palavrões e pontuação sonante a ameaçar uma guerra, depois as publicações a dar conta dos últimos desenvolvimentos das negociações. Os fóruns diplomáticos foram ultrapassados pelas redes sociais? Poêjo Torres acredita que sim.

“Sempre foram, esta é só mais uma. O problema é que as redes sociais, associado a outro tipo de tecnologias, tornam-se difíceis de controlar. Estou-me a referir, claramente, à combinação de inteligência artificial com redes sociais. Ou à criação de ‘troll factories’”, alerta.

Neste novo jogo diplomático online, Paixão Martins assinala que é ainda mais fácil cada uma das partes fazer valer a sua verdade, mas considera que, para o público europeu, o Irão acabou a ganhar sem ter de fazer grande coisa. “Dávamos mais credibilidade porque Trump é um aldrabão”.

Já quanto à Europa, Paixão Martins lamenta que os 27 não tenham aproveitado para “emergir como uma grande alternativa” e tenham enveredado por posições díspares sobre o conflito – e onde Espanha foi o caso “mais marcante” e Portugal o “menos surpreendente”.

“O governo português é um ‘copycat’ dos interesses americanos. Também não temos um grande peso como país, às vezes temos algumas personalidades que se destacam, mas não é o caso atual: nem o Primeiro-Ministro, nem o Ministro dos Estados Estrangeiros tem qualquer peso internacional”.

China a vender robots como EUA vendiam filmes

Em 2023, e segundo números das próprias autoridades do país, terão sido apagadas mais de um milhão de publicações de redes sociais chinesas. As Nações Unidas têm condenado de forma sistemática os “atentados aos direitos humanos” por Pequim e até já falaram em “crimes contra a Humanidade”.

Paixão Martins vê no sistema de controlo da China uma forma de censura “muito curiosa”, pensada ao detalhe para se adaptar ao século XXI e não colocar em risco o progresso tecnológico do país.

Estive na China numa altura em que nós não podíamos googlar, mas podíamos ir ao ‘Sapo’. As grandes redes sociais, as grandes plataformas norte-americanas eliminaram-nas e criaram semelhantes chinesas”.

“Hoje em dia, no século XXI, o que é importante não é a comunicação, é a propagação. E o que é que eles fazem então? Fazem um filtro em que eliminam os temas que não lhes interessam, escolhem os que lhes interessam e mobilizam recursos, fábricas de botes, entidades digitais pró-oficiais”, adianta.

Tal como o Irão, também a China está a saber ler a outra face da moeda de Donald Trump – e aproveitar a discórdia sobre os Estados Unidos para se ir penetrando aos poucos na Europa.

“Vemos robôs assim, com carros ‘assado’, com pontes ‘acoloutro’, com casas ‘não sei o quê’. A China está hoje a vender o sonho chinês, usando os mecanismos das redes sociais, como os Estados Unidos venderam, usando os media tradicionais, o cinema, a televisão, há uns anos. Está a criar uma ideia de organização contra o caos americano”.

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