Investigação
Tragédia nas Maldivas: o que se sabe sobre os cinco italianos que morreram em mergulho?
16 mai, 2026 - 22:45 • Catarina Magalhães
Depois de encontrarem a primeira vítima a 60 metros de profundidade, um mergulhador das equipas de socorro morreu este sábado ao tentar recuperar os corpos das outras quatro vítimas. As buscas continuam este domingo.
O que seria uma manhã tranquila de investigação nos mares do Oceano Índico acabou por se tornar uma tragédia.
Cinco cidadãos italianos morreram na quinta-feira durante uma atividade de mergulho nas Maldivas, com o objetivo de explorar as grutas subaquáticas "Alimathaa" da região.
Testemunhas e autoridades locais acreditam que os estudiosos nadaram a uma profundidade superior a 60 metros, avançou este sábado o jornal italiano "La Repubblica".
Porém, vários contornos deste episódio ainda estão por esclarecer: o que provocou a morte destes mergulhadores? Até que ponto respeitaram os avisos meteorológicos? Foram cumpridores das regras de segurança da ilha?
Apesar de algumas não terem (ainda) uma resposta, neste explicador esclarecemos como se deu pelo desaparecimento dos mergulhadores, se as Maldivas têm uma "lei sobre mergulho", até que ponto o proprietário do barco sabia do plano de mergulho e descrevemos também o perfil das vítimas.
Este é "o pior acidente de mergulho na história do país". Nos últimos seis anos, 112 turistas morreram nas Maldivas relacionados ao mergulho e a desportos aquáticos.
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Como se deu pelo desaparecimento dos cinco italianos?
Depois de rasgarem o mar com o navio safari "Duke of York", os investigadores decidiram conhecer uma caverna do mar durante a manhã de quinta-feira.
De fato vestido e oxigénio a circular nos pulmões, mergulhar já era algo natural à equipa. Estas operações não costumam demorar mais do que uma hora devido ao risco de ficarem sem oxigénio.
Cinco mergulhadores italianos morrem nas Maldivas
A tragédia aconteceu no atol de Vaavu, quando o gr(...)
O relógio bateu meio-dia e a equipa ainda não tinha regressado à superfície do atol de Vaavu – uma ilha em forma de anel.
A poucas centenas de metros do local, uma outra embarcação de recreio reparou e decidiu comunicar o desaparecimento dos mergulhadores à Guarda Costeira do país.
Existiam alertas meteorológicos para a zona?
As informações são, até agora, contraditórias. Por um lado, algumas testemunhas fincam-pé de que as condições do tempo eram favoráveis para o mergulho.
"Estávamos a poucas centenas de metros deles e a visibilidade era excelente", explicou a tripulação que alertou a situação para as autoridades locais.
Mas, segundo outras fontes locais, tinha sido declarado um alerta meteorológico para o dia que "terá sido ignorado".
Maldivas tem uma "lei sobre mergulho"?
Quando se pensa numa profundidade de 60 metros de água, pode ser algo não tão fácil de imaginar.
Se compararmos esta medida à altura de um edifício, o percurso percorrido a nado é equivalente a um prédio de 20 andares.
De acordo com a lei do arquipélago, o grupo mergulhou muito para além do limite recreativo, já que o máximo permitido é atingir uma profundidade de 30 metros, sem requerer uma autorização especial ou conhecer a área há, pelo menos, três meses.
Para ultrapassar este marco, os mergulhadores deveriam de ter sido acompanhados por um "mestre" das Maldivas até à gruta, lê-se no documento oficial.
Daí algumas fontes afirmarem que os mergulhadores "não respeitaram as normas de segurança".
Afinal, quem eram os cinco italianos mergulhadores?
Sobrevivente a um tsunami que destruiu dois terços das ilhas habitáveis das Maldivas, o professor de Biologia Marinha, Gianluca Benedetti, de 44 anos, era um colaborador e parceiro de projetos ambientais europeus e internacionais, como o "EU for Nature".
Responsável por coordenar o grupo, o corpo de Gianluca acabou por ser o primeiro a ser resgatado da gruta.
Conta-se ainda professora de Ecologia Monica Montefalcone, de 52 anos, e a sua filha Giorgia Sommacal, com cerca de 20 anos, que também se dedicava a estudar Engenharia Biomédica enquanto aluna na mesma universidade onde a mãe lecionava.
Entre as outras vítimas com a vida dedicada ao mar, foram também identificadas a investigadora Muriel Oddenino, de 31 anos, e o biólogo marinho, Federico Gualtieri, de 31 anos.
Enquanto a maioria dos familiares preferem viver este momento de luto em silêncio, o viúvo de Monica ainda não compreende a morte da mulher, da filha e do resto da equipa.
"É estranho... a minha mulher já fez mais do que cinco mil mergulhos. Era uma especialista e uma pessoa extremamente rigorosa", recordou em entrevista ao mesmo jornal italiano, insistindo ainda que o coordenador Gianluca era "um excelente profissional".
"Às 11h00 ia à missa, às 19h30 jantava e ai de quem a atrasasse um único minuto. Deve ter sido o destino."
Talvez haja algum registo de uma máquina GoPro que explique o que aconteceu, acredita o viúvo de uma das vítimas.
O que pode ter, então, falhado neste mergulho se eram especialistas?
Até ao momento, os peritos envolvidos na investigação apontam para três hipóteses: os cinco italianos podem ter perdido a orientação no meio do oceano, graças à baixa visibilidade; à toxicidade do oxigénio dos cilindros à medida que desciam mais; ou pode ainda ter ficado algum investigador preso entre rochas e, no meio do pânico, podem ter ficado sem ar.
Contudo, ainda não se sabe se, antes de entrarem na água, verificaram a lista de prioridades: confirmar a profundidade máxima, a corrente, a visibilidade e a temperatura, por exemplo.
Que danos pode causar uma profundidade acima dos 50 metros?
Com a pressão das correntes, o oxigénio pode tornar-se tóxico numa profundidade acima dos 50 metros, principalmente, para o sistema nervoso.
Convulsões, perda de consciência e afogamento são as principais probabilidades de danos.
Há alguma câmara da equipa perdida no oceano?
"Talvez haja algum registo de uma máquina GoPro que explique o que aconteceu", acredita o viúvo de Monica, garantindo que era hábito da cientista registar visualmente certos fenómenos naturais para futuras investigações.
Não tinham uma corda de segurança ?
Esta expedição de mergulho exigiria protocolos de segurança avançados, como o uso do "fio de Ariadne" – uma corda lançada para o mar para marcar o caminho de volta.
No entanto, o uso desta corda de segurança neste dia trágico é ainda uma incógnita.
O proprietário do barco sabia do plano de mergulho?
"Mergulhos não planeados de 60 metros não teriam sido permitidos", esclareceu este sábado a advogada da operadora turística italiana Albatros Top Boat, em entrevista ao "La Repubblica".
A empresa afirmou que “não sabia” que o grupo planeava mergulhar para além dos 30 metros permitidos.
A advogada disse estar convencida de que o aluguer estava destinado a uma missão científica para recolha de amostras de coral em profundidades normais.
Após este episódio, as autoridades locais suspenderam temporariamente a licença da embarcação, enquanto decorre a investigação.
Alguém morreu ou ficou ferido nas operações de resgate dos corpos?
Entre os oito mergulhadores recrutados da Força Nacional de Defesa das Maldivas para encontrar os corpos das restantes vítimas, o sargento-ajudante Mohamed Mahudhee perdeu a consciência depois de um mergulho muito profundo.
Criando bolhas de gás no sangue e tecidos, o mergulhador não resistiu ao impacto e acabou por falecer num hospital próximo.
"O corajoso mergulhador perdeu a vida devido a uma situação súbita durante a operação", lamentou o Presidente das Maldivas, Mohamed Muizzu.
As buscas vão continuar?
A Guarda Costeira das Maldivas e as autoridades locais já garantiram que as buscas continuam este domingo.












