Exclusivo Renascença/SIC
Durão Barroso: "Europa cometeu um erro ao deixar de falar com a Rússia"
21 mai, 2026 - 21:00 • José Pedro Frazão
Na Europa volta a falar-se do diálogo com a Rússia para pôr fim à guerra na Ucrânia. Em entrevista à Renascença e à SIC, Durão Barroso defende que a Europa deve falar diretamente com Vladimir Putin, sem os Estados Unidos como intermediários. O antigo presidente da Comissão Europeia recusa que se façam negócios com a paz.
Durão Barroso regressou a Estrasburgo para a entrega da Ordem Europeia do Mérito ao antigo Presidente da República Cavaco Silva. Numa entrevista conjunta Renascença/SIC, à margem da cerimónia, o antigo presidente da Comissão Europeia abordou a possibilidade de a Europa negociar diretamente com a Rússia e recusou aligeirar a exigência nos critérios para a adesão da Ucrânia à União Europeia.
Na Europa ouve-se hoje que chegou o tempo de conversar com a Rússia em relação à guerra na Ucrânia. Qual seria o formato seria ideal dessa conversa?
Sempre disse que devíamos ter mantido conversações com a Rússia, incluindo com o Presidente Putin. Conheço-o bem, foi o líder fora da União Europeia com quem me encontrei mais vezes quando estava em funções [como presidente da Comissão Europeia].
Obviamente que discordo em absoluto [da invasão da Ucrânia]. Putin cometeu um erro estratégico com gravíssimas proporções para a própria Rússia e para nós todos na Europa. Mas penso que é precisamente com os adversários – e com quem nós não concordamos – que devemos falar. Esse é o objetivo da diplomacia, falar com quem não estamos de acordo.
Na altura, tive a ocasião de falar com alguns líderes europeus e recordo que, quando o Presidente Macron manteve um certo contacto com a Rússia e foi criticado, eu disse-lhe que devia continuar.
É algo natural, visto que temos um conflito no centro da Europa. Se olharmos do ponto de vista geográfico, a Ucrânia está numa posição muito central. Os europeus têm uma opinião sobre isso e devem transmiti-la claramente.
Sempre disse que devíamos ter mantido conversações com a Rússia, incluindo com o Presidente Putin
Com um enviado especial, com um mediador?
Não vou agora entrar nessas questões. São mais técnicas de diplomacia. Há várias hipóteses.
Faz mais sentido haver um mediador ou devem avançar os líderes?
Não vou entrar nessa especulação. O que interessa é que a Europa, diretamente, não precisa de intermediários para falar com a Rússia. Não faz sentido. Nem os americanos querem fazer esse papel. Não são aqueles dois senhores [Kuchner e Witkoff] que vão lá de vez em quando – à Rússia, ao Médio Oriente e também ao Paquistão – que vão falar em nosso nome.
Nós, europeus, temos de falar com quem nos interessa falar. Em primeiro lugar, com a Ucrânia, um país europeu, que tem a legítima inspiração de se juntar a nós na União Europeia, e que eu, aliás, apoio. Temos de falar com os nossos amigos e parceiros ucranianos. Mas temos também de manter um diálogo exigente com a Rússia, explicando à Rússia os custos...
O que interessa é que a Europa, diretamente, não precisa de intermediários para falar com a Rússia
Exclusivo Renascença/SIC
Durão Barroso: "Qualquer outro Governo" defenderia atual aliança entre Portugal e EUA
O antigo presidente da Comissão Europeia recusa a (...)
O quanto antes?
Já o devíamos ter feito. Não devíamos ter deixado de falar com a Rússia. Foi um erro deixarmos de falar com a Rússia.
Compreendo porque é que isso aconteceu. Houve uma tal indignação, que havia quem pensasse – provavelmente ainda há – que estar a falar com a Rússia era dar uma "recompensa" ao agressor. Compreendo a posição que levou essa decisão. Mas não estou de acordo com ela. É precisamente em momentos como este, que é preciso manter os canais de contato e de informação. É isso que faz a diplomacia - falar muitas vezes com quem discordamos profundamente, como é o caso.
Penso que vai chegar esse momento. Aliás, todos sabem que não pode haver um acordo de paz na Ucrânia, nem que seja apenas de cessar-fogo, sem a intervenção da Europa. Um dos pontos essenciais em jogo é precisamente a futura adesão da Ucrânia à União Europeia. Portanto, a União Europeia é absolutamente inevitável nisto.
Houve a ideia, em certa altura, de que talvez fosse melhor não estar a dar essa recompensa política ou diplomática ao Kremlin e ao Presidente Putin. Não penso que fosse assim uma tão grande recompensa. É importante mantermos o nosso apoio muito claro à Ucrânia, mas também os pontos de diálogo.
Esse diálogo pode incluir o retomar do circuito de energia entre a Europa e a Rússia que tem vindo a ser desmantelado?
Não se devem confundir as questões económicas, políticas ou da paz. A ideia, que às vezes aparece em alguns setores, sobretudo noutros países, de fazer negócios à custa da paz, não me parece...
As sessões são sobretudo económicas.
Não, precisamente não é na ideia de termos qualquer vantagem com isso. É exatamente ao contrário. É impormos um custo ao agressor. Isso justifica-se. É uma posição que tem uma racionalidade política para a paz, para forçar a outra parte a aceitar que a sua agressão tem um custo.
Não se devem confundir as questões económicas, políticas ou da paz
Antecipa que a Europa possa voltar a comprar gás russo em breve?
Não. E o melhor é estarmos preparados para vivermos sem gás russo. Praticamente já não há compras de gás russo. São muito limitadas. Aliás, Portugal não tem nenhum gás da Rússia, tanto quanto sei.
Sabe o que é um grande alargamento, com 10 países a entrarem ao mesmo tempo. É possível voltar a fazê-lo e incluir a Ucrânia nesse pacote?
Eu não disse que deviam entrar 10 agora ao mesmo tempo. Acho que a Ucrânia merece estar na União Europeia, interessa-nos tê-la na União Europeia. É uma das maiores potências militares da Europa. Talvez mesmo a mais forte potência de segurança e defesa da Europa.
Será necessário flexibilizar critérios?
Não, respeitando os critérios. Pode haver formas transitórias, criativas, com imaginação. Pode, por exemplo, desde já e mesmo sem direito a voto, convidar-se a Ucrânia para reuniões do Conselho Europeu, como às vezes acontece. Ou até ter alguém convidado na Comissão Europeia.
Mas defendo que a União Europeia não deve baixar os seus níveis. Penso que seria um erro fazê-lo. Temos ao mesmo tempo de dar sinais concretos à Ucrânia de que isto não é uma promessa vaga, é real e que vai-se realizar.
Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus.









