Entrevista Renascença
"Temos de ajudar as pessoas com a redução dos preços da energia”, diz primeiro-ministro do Luxemburgo
08 jun, 2026 - 23:10 • Tomás Anjinho Chagas (enviado ao Luxemburgo)
Luc Frieden elogia integração da comunidade portuguesa e avisa que é "muito maior do que os números indicam". O chefe do Governo luxemburguês (centro-direita) aponta a redução dos preços da energia como uma das medidas a tomar perante a escalada dos preços e comenta a estabilidade política que assegurou ao fazer uma coligação com o adversário que derrotou: "Sempre que possível, um governo maioritário é preferível”.
O primeiro-ministro do Luxemburgo, Luc Frieden, afirma que a comunidade portuguesa no país é “muito maior do que os números indicam”.
Em entrevista à Renascença, durante a visita oficial de António José Seguro ao Luxemburgo, o chefe de Governo do país com o maior PIB per capita do mundo elogia a integração dos portugueses na sociedade.
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"Ficamos felizes por serem pessoas que amam o nosso país, que continuam a amar Portugal", afirma Luc Frieden.
O democrata-cristão venceu as eleições em 2023 e, sem maioria no Parlamento, convidou o principal opositor para um Governo de coligação. Nesta entrevista afirma que é sempre “preferível” ter maioria no Parlamento e vinca que a democracia “também exige respeito pela oposição”.
Sobre a escalada de preços na energia, o primeiro-ministro do Luxemburgo vinca que é preciso “ajudar as pessoas e as empresas” e aconselha os países europeus em apostar na redução dos preços.
Pode ouvir esta entrevista (dobrada em português) ou ler na íntegra mais abaixo.



Os portugueses representam aqui mais de 10% da população. Sendo primeiro-ministro deles, o que significa a visita do Presidente e primeiro-ministro de Portugal?
Os portugueses fazem parte da sociedade luxemburguesa. A visita do Presidente da República Portuguesa, acompanhado pelo Primeiro-Ministro, é uma grande alegria para nós e para eles. Portugal não é apenas um país parceiro, é um amigo. Os portugueses são luxemburgueses e, no fundo, os luxemburgueses também são portugueses. Para nós, é como uma família que se reúne.
Aqui no Luxemburgo, as eleições para o Parlamento português foram ganhas pelo partido de direita radical, o Chega. Tem receio que os eleitores portugueses votem na ADR [partido semelhante no Luxemburgo] nas próximas eleições?
É-me muito difícil avaliar a escolha dos eleitores portugueses e não podemos interferir na política interna de Portugal. O que nos importa é que Portugal seja um país pró-europeu, que seja uma democracia funcional. Creio que, pelo que tenho ouvido nos conselhos europeus através do Primeiro-Ministro, é esta escolha pró-europeia, esta escolha de reforçar as relações entre o Luxemburgo e Portugal, que nos interessa. Não creio que a escolha eleitoral dos portugueses no Luxemburgo indique uma escolha contrária.
Na última semana, o Governo do Luxemburgo chegou a acordo com os sindicatos para um acordo laboral. Em Portugal estamos há mais de um ano em negociações. Tem algum conselho para o primeiro-ministro português?
A situação geopolítica e económica internacional é muito difícil. Todos os governos da Europa, e a nível mundial, enfrentam dois grandes desafios: a inflação crescente e o aumento dos preços da energia, ambos como resultado da guerra no Médio Oriente e na Ucrânia. Cada país precisa de encontrar uma solução.
É claro que precisamos de ajudar as empresas e as pessoas. O que fizemos foi tentar conter a inflação, manter ou estabilizar os preços da energia e proteger os postos de trabalho. Assim, através do orçamento do Estado, tentamos apoiar tanto as pessoas como as empresas, e talvez estes sejam caminhos que outros governos possam explorar. Tal como nós, inspirámo-nos em medidas implementadas no estrangeiro, como a redução dos preços da energia.
Referiu os preços da energia. A União Europeia pode dar uma resposta conjunta e tentar, por exemplo, limitar os preços da energia para controlar a inflação?
A Europa pode certamente definir as orientações. Tenho de elogiar a Europa por também estar a planear medidas de apoio às empresas.
Os apoios do Estado podem ser estruturados temporariamente de forma ligeiramente diferente. Isto também se aplica aos agricultores, que também estão a sofrer com os preços dos fertilizantes. A Europa pode fornecer orientações, mas as medidas fiscais e orçamentais devem ser tomadas a nível nacional.
Aqui no Luxemburgo conseguiu formar maioria no Parlamento ao vencer eleições, mas também ao integrar o seu adversário derrotado no Governo [Xavier Bettel, antigo primeiro-ministro, é agora Ministro dos Negócios Estrangeiros]. É uma solução melhor do que governar sem maioria no Parlamento?
Creio que é sempre mais fácil ter uma maioria no Parlamento do que um governo minoritário. O Luxemburgo tem uma tradição de governos de coligação. Creio que, sempre que possível, um governo maioritário é obviamente preferível.
Orgulho-me de liderar um governo unido em torno de princípios sólidos e com uma maioria consistente no Parlamento, mas esta é também a escolha dos eleitores. Em 2023, os eleitores votaram claramente por uma coligação entre o partido que dirijo e o partido dos liberais do vice-primeiro-ministro.
Em Portugal não temos maiorias parlamentares desde 2024. O primeiro-ministro do Luxemburgo aconselha Luís Montenegro a tentar maioria no Parlamento para suportar o Governo?
Cada situação política é diferente. Recentemente foram formados governos minoritários noutros países europeus, como nos Países Baixos - um país geograficamente próximo de nós -, ou na Dinamarca, onde tem sido difícil formar um governo maioritário.
São tempos difíceis para a democracia. No entanto, a democracia é a garantia da liberdade, da liberdade de expressão, a voz de todos deve ser ouvida, mas a democracia também exige respeito pela oposição e cooperação.
Quando o mundo se encontra numa situação tão difícil, nós, países europeus, devemos manter-nos fiéis aos nossos valores, nomeadamente, aos valores da democracia e da liberdade, é essa a força da Europa.
Acredito que Portugal compreende verdadeiramente o significado da democracia, os portugueses bateram-se pela democracia, lutaram por se tornarem membros da União Europeia, têm uma democracia funcional, é um país pró-europeu e um amigo tão próximo do Luxemburgo.
Falou há pouco dos números dos portugueses no Luxemburgo, de facto, a população luxemburguesa tem hoje um número muito elevado de portugueses. 25% dos luxemburgueses com dupla nacionalidade têm nacionalidade portuguesa. Com a introdução da dupla nacionalidade, há cerca de 20 anos, muitos portugueses já se tornaram luxemburgueses. A comunidade portuguesa no Luxemburgo é muito maior do que os números indicam. Ficamos felizes por serem pessoas que amam o nosso país, que continuam a amar Portugal e que abraçam a democracia europeia.
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Estamos mais perto de ver soldados portugueses e luxemburgueses destacados no terreno nos próximos anos, devido às guerras a que estamos a assistir na Europa?
A situação geopolítica exige que trabalhemos em conjunto. No Luxemburgo, as Forças Armadas são compostas por voluntários nacionais e outros que aqui habitam e que vêm de outros países da União Europeia.
Acho que antes do exército europeu precisamos de trabalhar muito mais em conjunto, porque juntos somos mais fortes. Cada exército por si só é fraco face aos desafios que enfrentamos no mundo, e por isso a cooperação é fundamental para a Europa e para a sua segurança.
Nota: esta entrevista foi concedida em francês e as perguntas foram feitas em francês. O texto resulta de uma tradução literal das palavras do primeiro-ministro do Luxemburgo, Luc Frieden.














