Reportagem Renascença

As três fugas iranianas de Lara, uma portuguesa entre duas guerras

16 jun, 2026 - 06:09 • José Pedro Frazão

Estuda Medicina Dentária em Teerão, nasceu nos Açores e é filha de pai libanês. Por três vezes, Lara teve de sair do Irão no espaço de oito meses, acabando retida por 25 dias no Iraque. Esta é a história de uma portuguesa, muçulmana xiita, bloqueada entre dois fogos. Os que ardem na terra onde estuda e no país a que também pertence.

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Nem sempre as coisas correm como planeamos. Na manhã de 28 de fevereiro, no mais explosivo amanhecer da capital, Lara acordou demasiado tarde para ir ao banco pagar as propinas da Universidade de Teerão. “Às 8h30 ou 9h00, começaram os bombardeamentos. Pegámos logo nas nossas coisas e, três horas depois, já estávamos num carro a caminho do Iraque”. Começava a terceira fuga iraniana de Lara Sabra, 20 anos, portuguesa com dupla nacionalidade libanesa, muçulmana, xiita.

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Tinha as malas prontas para fugir, apesar do exame da faculdade dali a três dias, que a tinha feito regressar a Teerão em ambiente de pré-guerra. “Toda a gente sabia que iria haver bombardeamentos naqueles dias”. Lara recorda que na noite anterior a internet foi cortada, enquanto a sua mãe Isabel, que vive no Congo, lhe telefonava com uma voz preocupada. Não era a primeira vez para ambas, assim mesmo, uma ao telefone e outra no terreno.

Lara chegou a Teerão em abril de 2024, em fuga de uma outra guerra depois de optar pelo caminho mais óbvio. Vinha do Líbano onde entrou em Medicina Dentária na BAU – a Universidade Árabe de Beirute.

“Vivia sozinha em Dahieh, um subúrbio do sul de Beirute, sobrevoado constantemente por aviões israelitas. Os meus pais ficaram preocupados e saí em março de 2024, antes do início dos bombardeamentos”. Um semestre, foi quanto durou a jornada académica de Lara na pátria do seu pai.

Seis meses depois, ali mesmo em Dahieh, seria assassinado Hassan Nasrallah. o líder do Hezbollah. A luso-libanesa seguiu então para o Irão e cumpriu tranquilamente o resto do ano inicial na TUMS – a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Teerão.

Estava a caloira a fechar o primeiro ano quando estalaram as bombas da praxe. No dia 14 de junho de 2025, Israel atacou alguns alvos na capital iraniana, incluindo o aeroporto internacional de Teerão. Mas no dia seguinte, aos ataques aéreos, juntaram-se carros armadilhados em zonas próximas de edifícios governamentais. Israel negou a autoria das explosões, mas as agências de informação noticiariam a alegada morte de cientistas nucleares iranianos. Um dos alvos situava-se junto à residência de estudantes masculinos da Faculdade de Ciências Médicas.

“Bombardearam a residência universitária onde estavam alguns dos nossos amigos. Alguns deles ficaram feridos. Foi aqui que tudo começou a ser mais angustiante para nós”, recorda Lara, que na altura estava alojada na residência feminina. A Universidade de Teerão deslocalizou os estudantes para sul da capital e fechou portas. Tinha chegado o momento de Lara fugir pela primeira vez de Teerão.

Lara juntou outros amigos libaneses e decidiu seguir em primeiro lugar para Resht, a seis horas de carro de Teerão, situada junto ao Mar Cáspio. Depois de pernoitarem num hotel, fizeram-se à estrada para uma longa viagem com destino à fronteira com o Iraque, de forma a chegar ao Líbano.

“Foi uma viagem muito perigosa. Havia bombardeamentos por toda a estrada até ao Iraque. Éramos sete pessoas em dois carros com condutor. A estrada atravessava as montanhas e era muito estreita. Vimos acidentes, dois ou três carros bateram mesmo à nossa frente”, conta Lara, recordando a angústia que até lhe tolheu o apetite durante as 18 horas da viagem.

Da fronteira de Mehran até Najaf, cidade santa xiita do Iraque, Lara e os amigos gastaram ainda mais quatro a cinco horas. Naquela cidade, o grupo de amigos seguiu de avião para Beirute onde Lara permaneceu por duas semanas, para lá dos 12 dias da guerra. A estudante luso-libanesa já não voltaria à residência feminina de Teerão. No arranque do segundo ano do curso, instalou-se num apartamento e prosseguiu os estudos.

A guerra dos 12 dias e as divergências com o Ocidente a propósito do programa nuclear iraniano foram deixando marcas em 2025. Lara e os colegas de Medicina foram requisitados para acompanhar a convalescença de feridos dos ataques de junho.

Enquanto isso, a moeda iraniana foi registando uma forte queda, agudizada no final do ano. A 28 de dezembro, os comerciantes do grande bazar de Teerão fecharam as portas em protesto contra as dificuldades económicas e o aumento do custo de vida.

“Concordo com as razões iniciais da manifestação porque pude testemunhar uma subida muito grande dos preços. Tudo era muito caro e havia razões para o descontentamento”, admite Lara Sabra. Os protestos ganharam tração um pouco por todo o país, associados a atos de grande violência nas semanas seguintes. Um número indeterminado, mas significativo de civis morreu em confronto com as autoridades, também alvo dos manifestantes em confrontos que atravessaram o país.

“Concordo com os protestos se forem pacíficos. Aquilo com que não concordo foi o que começou a acontecer. Começaram a matar pessoas, polícias. Enfim, iniciaram um massacre”, recorda a estudante portuguesa que alinha o seu relato com as alegações de interferência externa.

A versão de Lara coincide com a posição oficial do governo de Teerão. “Não foram os próprios iranianos a fazer isto. Isto foi liderado pelos EUA. Houve testemunhos de conversas com pessoas dos EUA e da Mossad. Enviavam-nos mensagens a dizer: 'Damos-vos dinheiro se fizerem isto ou aquilo.' Tudo isto foi um jogo liderado pelos EUA, porque o povo iraniano não é assim. São pessoas que amam o seu país”, assegura a luso-libanesa.

Não foram os próprios iranianos a fazer isto. Isto foi liderado pelos EUA

Em meados de janeiro, o agravamento dos confrontos começou a confinar Lara e os colegas em casa. “Não era seguro sair. Continuámos a estudar normalmente em casa, mas conseguíamos ouvir pessoas a gritar lá fora”. Começaram a chegar conselhos a favor de uma saída do Irão, enquanto a violência ganhava volume. “Muitas pessoas estavam a ser mortas. Quando saímos à rua, víamos sangue por todo o lado. Tudo estava a ser queimado. Ficámos um pouco assustados”, confessa Lara.

A internet começou a ser cortada. “E depois foi como se não houvesse Internet de todo. Não podíamos falar com ninguém. Não podíamos estudar. Não podíamos fazer nada. Então decidimos que devíamos partir”. Tinha chegado o momento de Lara avançar para a sua segunda fuga do Irão.

Mulheres em oração no Santuário do Imam Ali, em Najaf no Iraque
Mulheres em oração no Santuário do Imam Ali, em Najaf no Iraque
Orações no Santuário do Imam Ali em Najaf, Iraque. Fotos: Lara Sabra
Orações no Santuário do Imam Ali em Najaf, Iraque. Fotos: Lara Sabra
Orações no Santuário do Imam Ali em Najaf, no Iraque. Fotos: Lara Sabra
Orações no Santuário do Imam Ali em Najaf, no Iraque. Fotos: Lara Sabra

Fechadas as portas da embaixada libanesa em Teerão, um dos amigos de Lara, com passaporte francês, também tentou contactar a representação diplomática de França. Sem respostas, à distância, a mãe de Lara começou então a contactar a embaixada de Portugal em Teerão. André Oliveira, o encarregado de negócios português, foi o porto de abrigo de Lara.

“Precisava de internet para falar com os meus pais. O senhor André ligou-me do seu número iraniano – era possível de um número iraniano para outro. Fui então à embaixada de Portugal e ele ajudou-me imenso. Consegui falar com os meus pais”, recorda a luso-libanesa, que se fez acompanhar até à porta por dois amigos.

Todos queriam telefonar para casa, mas apenas Lara podia entrar na embaixada com o seu passaporte. “Então falei com o meu pai e disse-lhe para ligar a todos os pais dos meus amigos e dizer-lhes que estava tudo bem”.

Ao disponibilizar rede para fazer chamadas e aceder à Internet, a intervenção do diplomata André Oliveira foi decisiva também para os amigos de Lara. “Estava a ficar sem dinheiro e ele ajudou-me em tudo. Disse-me que tinha um voo para o Azerbaijão e que, se eu quisesse, ele podia ir comigo. E até se eu precisasse de um carro particular, ele podia arranjar-me um”.

Lara não quis deixar os amigos libaneses e começou a desenhar uma rota de saída do Irão de novo rumo ao Líbano. “Ele ajudou-me mesmo muito. Deu-me várias sugestões que foram ótimas. Disse-me até que, se precisasse de um voo, poderia ajudar-me a reservar um voo”.

A 15 de Janeiro, em pleno caos de protestos e violência, Lara e os amigos apanharam um avião e saíram do Irão, rumo a Najaf, no Iraque. Devido ao agravamento da situação no Líbano, Lara seguiu de novo para casa dos pais, no Congo, também por via aérea.

A convulsão social abrandou nas ruas com o recolher obrigatório decretado a 15 de janeiro. Além dos protestos de ordem económica, os confrontos com as autoridades destaparam a longa lista de reivindicações sociais que ciclicamente vêm à superfície no Irão. É o caso dos direitos das mulheres e das penalizações a que estão sujeitas em caso de violação de preceitos sobre vestuário nos espaços públicos.

“Acho que todas as mulheres deviam ser livres para usar o que quiserem”, afirma Lara, muçulmana xiita nascida nos Açores. “Mas como estão no Irão, que é um país religioso, as mulheres devem respeitar isso mesmo”. A estudante portuguesa insiste que as mulheres não são obrigadas a cobrir totalmente o corpo no Irão. “Quando se vai ao Irão e se vê como as pessoas vivem, percebe-se que as mulheres são, na verdade, livres. Podem vestir o que quiserem. Podem conduzir carros. Podem trabalhar”.

A repressão pública sobre as mulheres iranianas a propósito do vestuário tem ciclos mais e menos agudos. Lara contrapõe que em Teerão há mais liberdade neste domínio. “Podem ser livres e vestir o que quiserem. Algumas mulheres nem sequer usam hijab (lenço que cobre cabelo e pescoço) e ninguém as incomoda. Mas no Irão, em alguns locais como por exemplo, em Qom – uma cidade religiosa – elas devem usar roupas mais recatadas”.

Números divulgados pela Amnistia Internacional e outras organizações não-governamentais apontam para a execução de 48 mulheres em 2025, um número recorde nos últimos 20 anos e um aumento de 55% face a 2024.

Com sinais de acalmia, Lara acabou por voltar a Teerão em fevereiro. Os protestos tinham deixado as ruas e centravam-se nalguns campus universitários. A portuguesa tinha um exame presencial muito importante no início de março e regressou à capital do Irão mesmo sabendo dos riscos de uma possível intervenção militar contra o regime.

Deixara de ter o apoio presencial do encarregado de negócios de Portugal, mas André Oliveira foi contactando a mãe de Lara com frequência, para acompanhar a compatriota à distância. Na véspera do bombardeamento de 28 de fevereiro, o diplomata voltou a telefonar a Isabel Sabra que depois transmitiu as preocupações à sua filha em Teerão.

A terceira fuga de Lara começou logo quando as bombas israelo-americanas caíram naquele sábado sob Teerão, matando o líder supremo iraniano. A casa de Lara em Teerão não fica longe da residência de Ali Khamenei. “Estava toda a gente nas ruas. Nem sequer conseguíamos encontrar um táxi. Por um lado, estava tudo fechado. Por outro, havia muita gente por todo o lado”.

Lara recorda-se de percorrer a lista dos muitos motoristas que contactou em junho de 2025 aquando da guerra dos 12 dias com Israel. “Finalmente conseguimos contactar um motorista que estava disponível. Então ele levou-nos para o Iraque. Éramos apenas três pessoas, eu e dois amigos meus numa espécie de carrinha”. Para trás deixou Rico, o seu gato e muita roupa nos armários do seu apartamento.

A viagem para a fronteira foi de novo marcada por bombardeamentos ao longo da rota. Lara recorda-se de passar por uma esquadra de polícia totalmente destruída antes de chegar à fronteira. Além da tensão, houve uma notícia que ficou na memória de Lara por essas horas. “Quando chegámos à fronteira, anunciaram que o líder supremo tinha sido morto. Foi aí que começámos a ouvir pessoas a gritar, a chorar por toda a parte na fronteira”.

Najaf foi de novo o destino de Lara e os seus amigos no Iraque. Naquela cidade “conservadora”, na expressão da luso-libanesa, alguns amigos acolheram o pequeno grupo em fuga do Irão, enquanto acompanhavam à distância a jornada de uma colega que ficou no Irão, por falta de passaporte para sair do país.

Ao longo dos dias seguintes, a amiga que ficou para trás fugiria consecutivamente das bombas, de Teerão para a cidade santa de Qom – congénere de Najaf como epicentro da fé xiita – e depois de comboio até Mashad de onde partiria para a Turquia.

No Iraque, Lara começou a estudar rotas de saída, mas o caminho rapidamente se estreitou. Naquelas horas o Hezbollah começou a disparar misseis e foguetes a partir do Líbano contra Israel, retaliando pela ofensiva contra o Irão.

O bairro do sul de Beirute, onde a família Sabra tem casa, voltou a ser bombardeado. “Desta vez, não podia ir para Líbano. As pessoas diziam-nos: 'Não venham, a guerra está muito intensa desta vez'”. Lara estava agora bloqueada entre dois países em guerra, numa região com espaço aéreo fechado, num Iraque cada vez mais instável.

A partir do Congo, a mãe de Lara tentava mobilizar apoio consular para a filha. A 2 de março, escreveu um email ao Gabinete de Emergência Consular a pedir alternativas para uma possível evacuação via Istambul na Turquia. Lara estava num país sem embaixada portuguesa e por isso o caso foi encaminhado para a Embaixada de Portugal em Abu Dhabi, cuja secção consular abrange o Iraque.

A situação complicava-se também nos Emirados Árabes Unidos, devido a ataques de retaliação iraniana e fecho do espaço aéreo. A representação diplomática portuguesa pediu então dados de identificação e contactos à mãe de Lara Sabra, cada vez mais inquieta com a situação da filha.

À medida que o Iraque ia ficando cada vez mais explosivo sobretudo no Norte, Isabel Sabra ia multiplicando pedidos de ajuda quase diários, por escrito, solicitando uma retirada terrestre da filha num quadro de grande tensão. Se Lara quisesse sair pela Turquia, teria sempre de passar pelo Curdistão de onde emergia outra frente de conflito. Curdos e iranianos começaram a atacar-se mutuamente num país onde existem bases norte-americanas, também alvo de ofensivas iranianas.

“As pessoas diziam-nos que a estrada para Istambul não era segura e que devíamos esperar. E que talvez o aeroporto pudesse reabrir. Por isso, ficámos à espera”. A espera de Lara duraria quase um mês.

Encruzilhada no Iraque

Os ataques ao Irão aconteceram no coração do Ramadão. Najaf vivia em pleno o jejum diurno da fé muçulmana, que não foi fácil também para a xiita Lara Sabra. “A comida em Najaf e no Iraque não é como a que costumamos comer. Eles comem muito arroz e comida não muito saudável. Não estávamos habituados a isso”. Foram 15 dias em que Lara andou a tentar encontrar comida adequada aos seus hábitos na cidade santa iraquiana.

Ao jejum da fé muçulmana, juntou-se o medo de não conseguir sair do Iraque. “Estávamos preocupados. Será que o aeroporto iria abrir? Deveríamos ir para a Turquia? Não sabíamos exatamente o que fazer”. Lara tinha três opções para regressar ao Congo, incluindo esperar a abertura do aeroporto em Najaf. Como esta se foi dissipando, sobraram duas alternativas terrestres.

“Surgiu uma hipótese de irmos de carro para o Azerbaijão ou para a Arménia”. Lara e os amigos rejeitaram o cenário quando entenderam que a única opção de regressar ao Líbano – e ao Congo, no caso de Lara – passava por Istambul. “A outra opção era ir para a Turquia de carro. Era a mais provável. Mas as pessoas aconselhavam-nos a não ir, porque talvez houvesse bombardeamentos na estrada. Os lugares por onde íamos passar não são realmente seguros. Tínhamos de passar por Erbil, no Curdistão e ir para Mossul, onde, naquela altura, havia atentados”.

Isabel Sabra ainda recebeu emails da embaixada portuguesa em Abu Dhabi a pedir detalhes sobre o “plano e o percurso previsto para a saída” de Lara do Iraque. No dia 13 de março, a mãe de Lara começou a desesperar com as respostas que obtinha quando pedia ajuda para o percurso até à fronteira com a Turquia. “A minha filha não tem qualquer plano de saída. Não há voos de Bagdad nem de Najaf. Daí fazermos apelo ao serviço consular de Portugal”, respondeu Isabel, por escrito.

Com o passar dos dias, o plano passou a ser tão óbvio como perigoso. Chegar a Istambul tornou-se o objetivo central para Lara e os amigos ao fim de 20 dias bloqueados em Najaf. “Nos últimos quatro ou cinco dias, estávamos um pouco ‘stressados’ com a opção que escolhemos, com a decisão que tomámos. Estávamos confiantes, mas quando alguém está sempre a dizer-te: 'não vás por aí, não vás por aí', e depois tomas a decisão de ir, começamos a achar que não é uma boa opção”.

Najaf, por ser cidade santa xiita, era uma zona segura. Caminhando para Norte, a situação mudava de feição. Durante a segunda quinzena de março, Bagdad foi alvo de vários ataques com drones iranianos, mas isso acabou por não demover Lara e os seus dois amigos. A 27 de Março, conduzidos por um motorista até à fronteira, arrancaram para uma jornada de carro que durou cerca de oito horas até à fronteira de Ibrahim Khalil.

Do céu não pingou qualquer míssil ou drone e negras eram outras nuvens. “Havia um tornado ou algo do género a aproximar-se. Por isso, choveu intensamente durante todo o trajeto. A chuva era muito forte e começou a nevar um pouco. Nas primeiras duas ou três horas, foi um pouco perigoso”.

Demoraram seis horas a passar uma fronteira congestionada de veículos pesados e fizeram 80 quilómetros até Sirnak, no Curdistão turco, onde pernoitaram num hotel antes de voarem para Istambul. Chegados à grande cidade do Bósforo, os amigos de Lara seguiram para o Líbano e a luso-libanesa apanhou um avião finalmente para casa, em Kinshasa, no Congo, onde vivem os seus pais.

"No Irão, quando digo que sou de Portugal, as pessoas ficam curiosas"

Em Beirute ou Teerão, Lara Sabra costuma assumir-se como orgulhosa compatriota de Cristiano Ronaldo. “Portugal é o país mais bonito. Adoro tudo em Portugal. Os portugueses são diferentes das pessoas de outros países”, diz esta nativa de São Miguel dos Açores, com domínio escasso da língua portuguesa. “No Irão, quando digo que sou de Portugal, as pessoas ficam curiosas. Perguntam se é um país agradável e o que temos lá. E mesmo quando estou no Líbano e digo que sou portuguesa, os libaneses gostam de fazer mais perguntas e saber mais sobre Portugal, porque veem que é um país agradável”.

O futuro académico ainda é incerto para Lara Sabra e voga ao sabor dos desenvolvimentos no Irão e no Líbano. A violência e a guerra foram impondo as suas curvas ao seu roteiro académico em ambos os países. Nos últimos dois meses, a retórica e a realidade foram confundindo os planos da família Sabra, onde até a hipótese de estudar em Portugal tem sido debatida.

Já o Líbano não parece ser solução para a jovem Lara, apesar de lá viverem os seus amigos e uma parte da família. “A situação é mesmo má no Líbano. Na verdade, o governo libanês é inútil. Não ajuda ninguém. Há pessoas a dormir nas ruas por terem abandonado as suas casas”, denuncia a luso-libanesa, que conta que a sua casa no bairro xiita de Beirute acabou por ser seriamente danificada pelos bombardeamentos israelitas.

"Vou voltar ao Irão em breve"

Em abril, Lara ainda procurava contactar a universidade em Teerão para ter acesso a documentos caso quisesse continuar os estudos noutro país.

Na primavera, a cabeça ainda estava em Teerão: “se a situação estiver boa, talvez volte”. E ainda está, agora a meio de junho. “Não pretendo mudar de curso, de universidade nem de país de estudos. Vou voltar ao Irão em breve para continuar os meus estudos, porque me sinto em casa lá e já me habituei a viver em Teerão”, confessa a partir de Kinshasa.

O segundo de seis anos de curso de medicina dentária está concluído e os exames de março foram remarcados para julho. Lara acredita que a situação está agora mais estável. “Alguns dos meus amigos já voltaram para o Irão e tudo está normal lá, por isso acho que vou voltar muito em breve”.

É onde tem tudo o que neste momento mais quer – uma casa, os amigos, as suas roupas e o seu gato Rico, que tem estado nas mãos de quem bem cuida dele enquanto a tormenta persiste.

Até à próxima fuga?

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