18 nov, 2025 - 07:30 • Redação
Neste segundo episódio do podcast "O Retorno das Três Irmãs", a família Fernandes inicia a fuga para a metrópole. Quase todos os vizinhos e conhecidos já partiram. Na manhã de 25 de outubro de 1975 — e depois de meses a tentar encontrar forma de permanecer em Angola —, dez membros da família estão na fila para entrar no cargueiro “Lobito”, que deverá ser o último barco a fazer a ligação entre Moçâmedes, no sul do país, e Luanda, onde esperam embarcar num dos muitos voos da Ponte Aérea.
Através dos relatos de São, Lília e Suzete, o ouvinte é convidado a fazer a viagem de um dia e meio num navio sobrelotado e sem condições mínimas de higiene. Quando chegam à capital angolana, vão passar dias a acumular fome e medo em horas de espera intermináveis, num quartel ainda controlado pelas forças militares portuguesas.
"As casas de banho sem condições nenhumas, né? Para nos lavarmos tínhamos que pegar numa lata de salsichas e ir buscar água da chuva", recorda São, a irmã mais velha.
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A matriarca da família tinha mandado as filhas comprar dezenas de pães para a viagem, mas a gestão das reservas complica-se à medida que o tempo passa. O cansaço vai entorpecendo a multidão. Já só querem sair de Luanda e deixar para trás o clima de guerra civil que cresce a cada dia.
Mas, quando finalmente chega a ordem para se dirigirem ao aeroporto, a confusão intensifica-se e a família é engolida num turbilhão de gente. "Os aviões iam chegando, iam carregando as pessoas... Não era por nomes, não tínhamos bilhetes: era por números. O avião tinha 700 lugares? 1,2, 3, 4... enchiam o avião... Não vai mais ninguém daqui...", conta Suzete, a irmã mais nova, que na altura tinha 14 anos.
Dentro dos aviões — da TAP e de outras companhias estrangeiras que participam no esforço de ajuda humanitária —, a receber milhares e milhares de pessoas que fugiam, estavam tripulações extenuadas, com um excedente de horas de voo para o qual ninguém as preparou. A assistente de bordo Filomena Cavaleiro tinha 25 anos e chegou a fazer 16 viagens Lisboa-Luanda seguidas, sem folgas. Gabriel Cavaleiro era co-piloto de um Boing 747 e passou três meses a dormir cerca de três horas por dia.
Ambos recordam episódios de tensão nos voos da Ponte Aérea — como o momento em que tripulantes comunistas terão tentado impedir a entrada de portugueses em fuga para salvar militantes do MPLA em Nova Lisboa (o atual Huambo). “O avião ia vazio, com a tripulação. Começámos a perceber que havia qualquer coisa estranha. Havia uma série de comissários [de bordo] que eram do PCP que sabiam o que é que ia acontecer. Eles estavam prontos a chegar a Nova Lisboa e recusar a entrada de portugueses. Queriam salvar os tipos do MPLA e deixar lá os portugueses”, assegura Gabriel Cavaleiro.
Na rota desse mesmo voo (que deveria fazer Lisboa – Huambo, Huambo – Luanda, Luanda – Lisboa), haverá ainda espaço para a invasão de um avião, famílias separadas, militares que não conseguem disparar contra uma multidão de desesperados e uma arma a bordo.
Há poucos registos do que se passou a dez mil pés de altitude, nas centenas de voos da Ponte Aérea. Juntamente com as três irmãs Fernandes, Gabriel e Filomena ajudam a reconstituir aqueles dias de permanente improviso.
Podcast Renascença
Cinco episódios, três protagonistas e uma memória (...)
Um novo episódio do podcast “O Retorno das Três Irmãs” fica disponível todas as terças-feiras, entre 11 de novembro e 9 de dezembro. O terceiro episódio estreia a 25 de novembro.
O podcast foi escrito e editado pelos jornalistas Catarina Santos, Lara Castro e Fábio Monteiro. A imagem gráfica é de Rodrigo Machado e a sonorização de Beatriz Martel Garcia.
Este é um podcast Renascença com o apoio da TAP.