O filho que regressou, o irmão que ficou. Ouça o episódio 4 do podcast "O Retorno das Três Irmãs"

02 dez, 2025 - 07:00 • Redação

Em 2025, ainda há vidas que decorrem na sombra da Ponte Aérea. Filho de uma das irmãs Fernandes, Jorge cresce em Portugal a ouvir histórias de um país que nunca viu. Em 2011, emigra para Luanda e sofre um choque. Fernando e Norberto, dois irmãos de Benguela, separados pela independência de Angola, recordam o passado a partir de margens opostas.

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O filho que regressou, o irmão que ficou - Episódio 4

No quarto episódio do podcast da Renascença “O Retorno das Três Irmãs”, viajamos até Angola. É lá que hoje vive Jorge, filho de São, uma das irmãs Fernandes. E é também lá que vive Norberto Baptista, irmão de Fernando, um dos retornados que também ficou alojado no Hotel do Mar, em Sesimbra.

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Nascido em Portugal, Jorge carrega a herança emocional e histórica da família que fugiu, em 1975, na Ponte Aérea. Em 2011, durante a crise da troika, surgiu a oportunidade de ir trabalhar para Luanda. E não hesitou. “Foi ouro sobre azul. Ir conhecer a tão famosa Angola, que eu só tinha lembranças [das conversas] na sala de jantar, à mesa”, conta.

Jorge espera encontrar em Angola um sítio alegre, ser recebido como quem volta a casa, depois de muito tempo ausente. Mas, chegado a Luanda, de onde fugiu ainda na barriga da mãe, encontra apenas um vazio.

“Costumo dizer que das lembranças coloniais só ficou a cultura do chicote. Mais nada. As boas lembranças não são faladas porque não interessa, e o que foi mal feito está vincado. O que foi bem feito, o que foi deixado de cultural, de enriquecimento, ou já desapareceu ou não é valorizado. Portanto, eu acho que houve um apagão, um apagão do império português nas colónias”, explica.

Jorge demora muito tempo a perceber o porquê desse apagão. Apenas em 2016, quando leva os pais a Angola, encontra um desfecho. “Fecho o ciclo.” Tinham passado quarenta e um anos desde a fuga para a metrópole.

O irmão que ficou

Há 50 anos, separaram-se muitas famílias. Filhos que ficaram em Angola e viram os pais partir. Irmãos que se despediram e passaram a viver vidas paralelas, em continentes diferentes, e com perspetivas distintas do que foi a Ponte Aérea. Foi isso que aconteceu com Fernando e Norberto Baptista.

Quando se dá a Ponte Aérea, Fernando, com 18 anos, vem de avião via Luanda, com uma tia, e vai parar a Sesimbra. Norberto, com 22 anos, fica em Benguela a proteger as propriedades da família e acaba por fazer toda a sua vida em Angola.

“Nós tivemos uma educação extremamente religiosa e eu lembro-me, todos os dias à noite, quando o meu pai rezava o terço ou a minha mãe, havia sempre uma avé-maria contra o comunismo”, recorda Norberto.

Apesar da pequena diferença de idade, Norberto teve acesso, ainda antes da Ponte Aérea, ao preço do colonialismo português. Em 1973, vai trabalhar para a Junta Autónoma de Estradas, no Moxico, e depara-se diariamente com os custos da guerra.

“Uma das imagens que eu tenho, que não é muito agradável, era que o cemitério ficava depois das nossas instalações e via com muita frequência passar uma carrinha com um caixão lá em cima com a bandeira portuguesa.”

Após o 25 de Abril, Angola entra em convulsão e a independência começa a pairar no horizonte. Em julho de 1974, Norberto ainda é chamado a cumprir o serviço militar obrigatório por Portugal. “Fiz parte de um grupo de recrutas que não aceitou jurar a bandeira portuguesa. Achávamos que não fazia muito sentido, sendo nós cidadãos angolanos”, lembra.

O serviço militar de Norberto dura apenas sete meses. No arranque de 1975, a morar em Benguela, só vê gente acelerada a fazer as malas para fugir. “A gente olhava para o lado direito, via o vizinho a fazer caixotes. Olhava para o lado esquerdo, via o vizinho a fazer caixotes.”

Norberto nunca foge de Angola. Torna-se selecionador nacional da seleção angolana feminina de andebol e professor universitário. Consegue, a custo, manter a maior parte das propriedades da família. A casa onde vive agora foi construída pelo pai nos anos 60.

Não foi fácil para quem ficou. E não foi fácil para quem veio. Ou terá sido? Descubra no quarto episódio como se desenham as memórias, em diferentes perspectivas, do que aconteceu há 50 anos.

Todas as terças-feiras fica disponível um novo episódio do podcast “O Retorno das Três Irmãs”. O quinto episódio estreia-se a 9 de dezembro.

Este podcast narrativo foi escrito e editado pelos jornalistas Catarina Santos, Lara Castro e Fábio Monteiro. A imagem gráfica é de Rodrigo Machado e a sonorização de Beatriz Martel Garcia.


Este é um podcast Renascença com o apoio da TAP.

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  • Fernando Baptista
    02 dez, 2025 Amadora 16:15
    Muito obrigado por mais um episódio com muita qualidade a todos os níveis, produção, edição, locução, sonoplastia e montagem...parabéns a toda a equipa. Obrigado, mais uma vez

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