09 dez, 2025 - 07:00 • Fábio Monteiro , Catarina Santos , Lara Castro
Almeirim, 3 de maio. Estamos na Quinta da Feiteira para o 16.º Encontro dos Antigos Moradores de Porto Alexandre: os Kimbares.
Acompanhamos Lília e Suzete. São, a irmã mais velha, não veio por causa da morte ainda recente do marido, Arlindo. “Não consigo ir. Pela memória do meu marido. É a primeira vez que me vão ver e pronto. Eles sabem todos.”
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No quinto e último episódio do podcast “O Retorno das Três Irmãs”, da Renascença, cruzamo-nos com um pedaço de Porto Alexandre, congelado no tempo. Mais de 280 Kimbares – contando com filhos, netos e até bisnetos – lutam para manter o passado angolano vivo.
O primeiro encontro dos Kimbares – termo aplicado às populações angolanas que foram trabalhar para Porto Alexandre e que adotaram os hábitos dos colonos portugueses – aconteceu em 2007, em Portimão.
A ideia foi de Adélia Vaz, antiga professora de Desenho de Lília e Suzete. “Um dia lembrei-me assim: 'E se eu for convidar pessoas de lá para nos juntarmos aqui e fazermos um almoço?' E foi assim. Começaram as pessoas a aparecer, a aparecer... São 30, são 40, são 50. E eu para o senhor do restaurante: 'Olhe, devem ser 60.' Quando dei por mim, tinha 180. A partir daí, começou a festa dos Kimbares. Gostaram, vieram de todos os lados”, conta a professora.
Desde 2007, o encontro dos Kimbares percorreu o país. Para alguém como Célia Barreto, que apenas tinha dois anos quando saiu de Moçâmedes, é uma forma de estar em contacto com as suas raízes.
“O que eu me revejo em Angola não é o visual, porque não tenho. O que eu revejo em Angola — ser angolana, ser diferente — são as palavras, a educação, a união, que a minha avó Virgínia e o meu avô César nos incutiram. Porque são valores que nunca vai haver igual”, explica.
Walter Estrela também era muito pequeno quando saiu de Porto Alexandre. Tinha apenas sete anos. E hoje vem a estes encontros para acompanhar a mãe e manter viva a memória do pai — João Estrela, jogador de futebol que foi três vezes campeão de Angola e três vezes melhor jogador de Angola.
“As pessoas falam dele com carinho. Ele devia ser mesmo um grande jogador de futebol”, diz, orgulhoso. "Quando falam nele... eu gosto de acreditar que ele hoje está aí dentro."
Tanto Walter como o irmão Wilson seguiram as pisadas do pai. Foram jogadores de futebol em Portugal. Walter passou pelo Vitória de Guimarães, Académica, Gil Vicente e outros clubes. Mas o momento mais importante da sua carreira está ligado à terra onde nasceu. Em 1996, os irmãos Estrela foram convidados a representar a seleção de Angola na Taça das Nações Africanas, na África do Sul. “Significou um orgulho enorme.”
Em 2025, ainda há vidas que decorrem na sombra da (...)
O encontro dos Kimbares em Almeirim é organizado por Eurico e Maria do Sameiro. Ambos eram professores em Angola e já tinham mais de dez anos de serviço quando chegaram a Portugal, com duas filhas.
Passados 50 anos, a antiga professora já não reconhece muitos dos seus antigos alunos e alunas. “Algumas ficaram pelo nome, mas na maioria eu não as reconheço.” E também não é dada a grandes mergulhos no passado. Confessa mesmo à Renascença uma relação ambivalente com o encontro. “Não há futuro sem passado, sem dúvida, mas [é preciso] não viver sempre no passado. É preciso construir o presente para avançar e ter futuro.”
Eurico, o marido, partilha do mesmo pragmatismo. E pouco ou nada refere da sua vida em Angola. A resistência do casal em falar do passado teria ficado sem explicação, não fosse um pequeno acaso: a filha Eleanora ter vindo também ao encontro dos Kimbares – pela primeira vez.
Eleanora tem 47 anos e já nasceu em Portugal. Mais tarde, trabalhou em Angola durante sete anos como jurista. Ficou mesmo com nacionalidade angolana.
A filha reconhece que falar do passado deixa os pais desconfortáveis. Que a descolonização é tema tabu. Principalmente para o pai. Porquê? “No caso do meu pai foi particularmente dolorosa, porque a irmã mais nova do meu pai foi assassinada. Coisa que eu também só descobri com mais pormenores já trabalhava em Angola, com quase 30 anos.”


Arlete Trocado, 93 anos, é a mais velha dos Kimbares presentes no encontro. Veio de propósito da Póvoa de Varzim, com as filhas e netos, para matar saudades dos antigos vizinhos. E do país que continua a considerar seu. “Gosto de ver os conterrâneos, a família. Gosto de ver as pessoas que vieram connosco. A minha terra é sempre a mesma: Angola”, afirma.
Já Lídia Peleira, 90 anos, procura algo diferente. Diz que os encontros a ajudam a lidar com a frustração do exílio forçado da Ponte Aérea – que nunca passou. “Durante um tempo, uns dias... No meio do trabalho... A pessoa lembra-se de um episódio. Lembra-se de uma pessoa [que viu no encontro]. E aquilo alimenta. E desvanece a frustração.”
A memória move-se em vários sentidos. Para quem foi obrigado a partir, como Arlete e Lídia, mas também para quem lá ficou.
Gilberto Mamedes tem 73 anos e é um caso excecional entre os 280 Kimbares. Quando meio milhão de pessoas fugiam na Ponte Aérea de 1975, Gilberto ficou. Viveu sempre em Angola. E vem a Portugal, de propósito, para rever os antigos vizinhos.
“Enquanto houver gente desta nossa geração, que já não há muitos, é sempre um prazer estar aqui para conviver e para rever essa gente”, explica. "Aqui encontramos pessoas que viveram a nossa infância em Porto Alexandre, viveram connosco, cresceram connosco, jogaram à bola connosco, estudaram connosco — e às vezes chegámos aqui e encontramos pessoas que não vemos desde 75".
Este é o último episódio da série “O Retorno das Três Irmãs”.
Enquanto editávamos este podcast, a família Fernandes teve de enfrentar uma perda particularmente dolorosa. A irmã mais velha, São, morreu a 15 de setembro. Lília e Suzete perderam uma irmã – agora são duas, mas vão ser sempre as três irmãs. A elas em particular, e também a todos aqueles que conversaram connosco e nos confiaram a sua história, o nosso obrigado.
Este podcast narrativo foi escrito e editado pelos jornalistas Catarina Santos, Lara Castro e Fábio Monteiro. A imagem gráfica é de Rodrigo Machado e a sonorização de Beatriz Martel Garcia.
Este é um podcast Renascença com o apoio da TAP