A casa de Fernando ardeu quatro dias depois de ter sido renovada
14 jul, 2022 - 11:00 • Fábio Monteiro
Devido aos incêndios, só na terça-feira, pelo menos quatro casas de primeira habitação arderam na freguesia de Abiul, concelho de Pombal. O telhado da moradia de Fernando Agostinho foi consumido pelas chamas. Helena Sousa viu “fogo à frente, fogo atrás” e redemoinhos no ar, quando foi retirar a mãe de casa. Os animais de Carminda Lopes foram carbonizados
A casa de Fernando Agostinho, uma moradia na aldeia de Portela do Sobral, freguesia de Abiul, Pombal, tinha sido acabada de ser pintada e renovada na sexta-feira, 7 de julho. Na terça-feira, 12, num dos dias mais quentes que há registo em Portugal, ardeu. “Os trabalhadores saíram daqui com tudo pronto. Agora, é como está a ver”, diz o homem de 50 anos, enquanto aponta para o telhado abatido e carbonizado da habitação.
Entre os escombros, há muita roupa, páginas de livros e cadernos escolares que arderam. O desalento é visível na cara de Fernando. E o alívio por nada pior se ter sucedido também. As memórias de Pedrógão Grande ainda estão vivas – mesmo para aqueles que apenas assistiram à distância à tragédia de 2017.
Este ano, a freguesia de Abiul foi também marcada pelas chamas: nas últimas 24 horas, pelo menos quatro casas de primeira habitação arderam.
Enquanto Fernando conversa com a Renascença, a família e os vizinhos retiram da casa alguns bens e colocam-nos numa carrinha de caixa aberta. O prejuízo foi participado ao seguro, resta aguardar. “Uma vida de sacrifício, mais um crédito, mais uma despesa. E passado três dias está tudo assim”, diz Fernando, entre suspiros.
Tudo aconteceu de forma surpreendente e repentina. Durante a tarde, os filhos ligaram-lhe a avisar que havia focos de chamas nas proximidades. A princípio, pensou que, como a área em torno da casa estava limpa, “não pegava”. Mas algumas fagulhas terão entrado no telhado. Agora, “as paredes estão todas estaladas”, ameaçam ruir.
Rafaela Agostinho, 22 anos, mal viu um foco de chamas no quintal do vizinho procurou intervir. “Tentei puxar mangueiras à volta da casa, para tentar ir regando o quintal. Abri as torneiras todas e não havia uma pinga de água. Dei-me por vencida. Liguei aos bombeiros, liguei para o INEM. O que me disseram foi: ‘incêndios há em todo o lado’, e desligaram-me a chamada”, recorda.
Sem mais recursos ou soluções à mão, a jovem e o irmão fugiram, pelas 17 horas. Quando Fernando conseguiu chegar, duas horas mais tarde, a casa já estava em chamas. Mesmo assim, entrou em casa. “Entrou para tirar os carros da garagem, de forma a não haver um prejuízo maior”, conta Rafaela.
Nenhum bombeiro havia então chegado à aldeia, apesar de a jovem ter dado o alerta a meio da tarde. “Praticamente estava quase tudo queimado quando começaram a aparecer os bombeiros”, queixa-se Fernando.
Redemoinhos e animais queimados
Uns cinco quilómetros adiante de Portela do Sobral, fica Lagoa das Ceiras, outra localidade de Abiul. Além de carros carbonizados, há um pouco por todo o lado postes de eletricidade tombados e fios bamboleantes. Muitos anexos onde viviam animais arderam.
Helena Sousa segura uma mangueira nas mãos, rega o perímetro da casa da mãe; a mulher de 52 anos tem arranhões nos tornozelos. E descreve o viveu na terça-feira como um “cenário horrível”.
Quando veio tirar a mãe de casa, Helena deparou-se com um cenário dantesco. “A 100 metros daqui já não se conseguia avançar mais. Havia fogo à frente, fogo atrás, por todo o lado”, diz. “Levantou-se um vento forte e o fogo andava no ar, tipo redemoinho”, acrescenta.
E, mais uma vez, a capacidade de resposta dos bombeiros e sapadores florestais ficou aquém dos esperado. “Não havia um bombeiro, não havia uma gotinha de água nas torneiras”, conta. Segundo Helena, os bombeiros só chegaram à pequena localidade pelas 23 horas.
Carminda Lopes, 73 anos, tinha 13 ovelhas e outros tantos leitões – que morreram nas chamas. Na terça-feira, foi evacuada para Pombal. Mas assim que pode voltou para casa.
A idosa chora os animais: “Não me veio à ideia abrir a porta. Sinto-me irritada comigo. Mas não me veio à ideia. As ovelhas morreram todas.”
Vista para uma tragédia
Gilberto Mendes, funcionário da Vila de Abiul, aparece no meio da estrada da aldeia da Fontainhas; de ambos os lados, o chão fumega; há árvores ainda em brasa, a serem roídas pelas chamas.
Juntamente com alguns colegas, Gilberto anda a distribuir reservatórios de água de 250 litros porta a porta. “Ontem [o fogo] foi sempre a andar, grande ameaça mesmo. Arderam tratores, arderam carros”, conta.
O sol está a pique; o termómetro marca 39 graus e o IC18 – estrada que dá acesso a Ansião, localidade vizinha de Abiul – está cortado. Ao longe, vê-se uma cortina de fogo densa.
“A malta pede meios, mas não de pode estar em todo o lado”, diz Gilberto.












