Escola Artística do Conservatório de Música do Porto

Bons a música, bons a tudo. “Estes alunos não têm propriamente um botãozinho que desliga”

12 jul, 2024 - 00:00 • Isabel Pacheco

A Escola Artística do Conservatório de Música do Porto alcança o top do ranking do ensino público no terceiro ciclo. A Renascença foi tentar perceber o segredo da excelência dos alunos que optam pelo ensino da música.

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Ilustração: Salomé Esteves/RR

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Numa altura em que as escolas estão desertas, Pedro Blaadh está fechado numa das salas da Escola Artística do Conservatório de Música do Porto. Está a ensaiar, sem se importar que a maioria dos estudantes estejam a gozar as férias de verão.

“Férias? Isso na música, não existe”, confidencia Pedro, filho de uma violinista, e que garante que o violino foi, por isso, uma escolha natural. Apesar de ter outros interesses, a música saiu “sempre a ganhar”, admite o jovem. E, garante, o estudo da música faz a diferença na vida de qualquer um. No estudo da Matemática ou do Português, não é exceção.

“Vejo uma maior facilidade para certas áreas, não necessariamente todas. A música ajuda, dá um foco diferente. O foco de que precisamos para produzir algo bom com o nosso instrumento exige que também sejamos bons noutras coisas. Exige que sejamos capazes de tirar mais proveito, não só da música, como também de outras áreas”, explica-nos o futuro violinista.

Alexandre Correia, professor do Conservatório, concorda. Para o docente, a aprendizagem de um instrumento e o facto de os alunos “terem de gerir muito mais matérias” implica “uma capacidade acima da média de organização do trabalho diário”. Esse é “o segredo”, resume.

“Eles acabam por se tornar melhores alunos, não só no instrumento, mas também na escola, porque realmente estão sujeitos a muito mais matérias. Graças a essa pressão extra que o currículo lhes impõe conseguem ter melhores resultados também nas outras disciplinas”, diz o professor.

“É o que notamos aqui no nosso dia a dia”, remata.

À carga horária letiva de qualquer outro aluno, os estudantes do Conservatório de Música do Porto acrescentam o estudo do instrumento, que pode chegar a três horas diárias no ensino secundário. Mas para muitos há ainda o esforço de viagens diárias para as aulas, que começam às 8h15 da manhã no centro da cidade do Porto, depois de percorrerem dezenas de quilómetros.

“Há alunos do distrito de Viana do Castelo, da Póvoa de Varzim, Santa Maria da Feira, Aveiro. Temos alunos que vêm concorrer cá este ano e que vêm de Foz Côa”, conta Alexandre Correia, que reconhece que “requer realmente um espírito de sacrifício e vontade”.

Para o diretor do Conservatório do Porto, António Moreira Jorge, estamos perante um empenho “praticamente sem pausas, férias ou fins de semana”.

“Estes alunos não têm propriamente um botãozinho que desliga. Vamos interromper o piano, o clarinete, o saxofone e depois voltamos a tocar? Não. Há uma prática regular e continuada do instrumento, que é essencial. São alunos que levam o instrumento para férias ou que vão procurar um piano aqui e ali para poderem continuar a estudar”, argumenta o diretor. “É muito exigente e, a partir de determinado nível, não é para qualquer um. É preciso realmente uma capacidade de trabalho e uma motivação bastante elevadas.”

Segundo o responsável, são estes hábitos de estudo que se traduzem naturalmente em sucesso noutras disciplinas, mas sempre com a música como protagonista.

Moreira Jorge lembra que há benefícios do ensino da música no que toca à matemática, ao raciocínio e à motricidade, mas também “há a autodisciplina que lhes é incutida que, também, cria hábitos de estudo e capacidade de concentração”. Mas “a nossa música não é propriamente ao serviço das outras áreas, é música ao serviço da música”, ressalva. “Depois, para além disso, ainda têm bons resultados a Português e a Matemática”, brinca.

“Somos duas ou três escolas numa só”

Os bons resultados a Português e a Matemática nas provas do 9.º ano colocam o Conservatório do Porto no top do ensino público com uma média de 3,76, numa escala de 0 a 5 — uma meta alcançada pelos 61 alunos que terminam este ano letivo o ensino básico.

Mas nem todos os estudantes seguem necessariamente o ensino da música. Há quem opte, no secundário, pelo ensino em regime supletivo.

“Ainda existe algum receio e preocupação extra de um pai quando é confrontado com a opção do filho por um curso de música”, reconhece Moreira Jorge. “Para esses casos, temos o regime supletivo no secundário, que permite fazer dois cursos em simultâneo”, explica.

“E temos exemplos brilhantes”, aponta. “Neste momento, temos um aluno que está a terminar piano ao mais alto nível e a fazer, ao mesmo tempo, um outro curso que o vai conduzir, provavelmente, para o curso superior de Medicina.”

Com pouco mais de mil alunos, a escola artística do Porto permite o ensino da música em regime integrado ou articulado e, também, de forma supletiva. Ofertas do Conservatório que, apesar de não integrar nenhum agrupamento escolar, fazem da escola uma “realidade complexa”. Metade dos alunos optam pelo regime integrado.

“Temos uma escolinha do 1.º ciclo, o 2.º e o 3.º ciclos e o secundário com prevalência para o regime integrado. Temos várias realidades. Além da formação geral e da escolaridade obrigatória, temos a componente artística, que é realmente muito complexa. Portanto, digamos que somos duas ou três escolas numa só”, remata.

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  • MARIA VAN ZELLER DE
    13 jul, 2024 Matosinhos 00:05
    Concordo. Os alunos têm de ter uma muito maior organização diária para conseguirem atingir os objetivos que são necessários. Já no terceiro e quarto graus tinha de estudar duas horas por dia. Ora as 2 horas por dia não estão contempladas no horário diário do aluno, não sendo literalmente possível, com a alegada distância dos alunos que vêm de longe, Póvoa do Varzim e até de Ponte de Sor, estes provavelmente vão emigrar para cá. Não há tempo. A minha filha mora em Matosinhos Sul. O metro entre as esperas demora três quartos de hora a chegar à estação de Carolina Michaelis porque a linha do metro em Matosinhos foi desenhada à superfície, é lenta e tem um trajeto caótico, é um combóio porque o metro em Lisboa anda bem depressa, não há isto. A minha sai de casa às 7:15 para estar lá às 8:15. Acorda às seis e trinta para à pressa tomar o pequeno almoço, sair de casa, vestida e carregada com o pesado instrumento e pasta cheia de livros. Tem aulas toda a manhã todos os dias até às 13. Depois almoça na escola que partilha a cantina com o Rodrigues de Freitas e em que as filas e a violência também acontecem por ali. Tem 15 minutos depois de esperar 30 na fila. E depois 14:15 recomeça as aulas em três tardes por semana em que acaba às 17:00. Depois chega a casa lá para as vinte, come e dorme, mal e ainda por cima apanha as gripes que por aí andam aos montes. Não dourar a pílula porque se há um que é filho de violinista e estuda no conservatório nas férias os outros 500 não estão lá ne

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