Violência doméstica
“Já foi pior"? APAV alerta para “subida” de casos, oposição critica política de “perceções” de Montenegro
26 nov, 2024 - 01:31 • Fábio Monteiro , Lara Castro
Palavras do primeiro-ministro foram recebidas com indignação. Pedro Nuno Santos acusa Montenegro de “falta de sensibilidade, empatia e respeito pelas vítimas”.Em declarações à Renascença, Daniel Cotrim, da APAV, afirma que os dados que são públicos “representam aquilo que as pessoas mostram".
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, afirmou, na segunda-feira, que o problema da violência doméstica em Portugal “já foi pior” e que o aumento de casos é um efeito do aumento de denúncias.
“Não quero chocar ninguém, mas tenho a consciência que o aumento a que assistimos nos últimos anos não significa um aumento real, significa um aumento do conhecimento”, disse.
Em declarações à Renascença, Daniel Cotrim, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), contraria a tese de Montenegro. Os dados que são públicos “representam aquilo que as pessoas mostram, aquilo que as pessoas nos permitem saber”.
O técnico da APAV estima que, apesar do aumento de sensibilização para o tema, o número de casos seja “muito superior” ao conhecido.
“Portugal já esteve bem pior em relação à violência doméstica. Estivemos bem pior no sentido em que não conhecíamos a realidade. Portanto, neste momento, nós temos uma outra visão da realidade, e que é uma visão que não pelo estacionamento dos números da violência doméstica, ou para uma diminuição, mas para uma subida. É isso que nós temos assistido”, afirma .
Entre 2019 e 2023, de acordo com dados compilados pela Renascença, o número de denúncias por violência doméstica em Portugal rondou as 30 mil por ano.
Chuva de críticas
As palavras do primeiro-ministro foram recebidas com indignação por vários atores políticos. Numa publicação na rede social “X”, Pedro Nuno Santos acusou Montenegro de “falta de sensibilidade, empatia e respeito pelas vítimas”.
“O cidadão Luís Montenegro tem o direito de achar coisas, mas a um Primeiro-ministro exige-se menos ligeireza e mais respeito pelos factos, especialmente quando falamos de violência exercida sobre mulheres”, frisou o secretário-geral do PS.
Também no “X”, as irmãs Mortágua, do Bloco de Esquerda, manifestarem-se contra a afirmação do primeiro-ministro.
Joana Mortágua escreveu: “Se o primeiro-ministro se preocupasse mais com os números e menos com as perceções que agradam à extrema-direita, percebia que o maior e mais profundo fator de crime violento em Portugal é o machismo e não a imigração ou a pertença étnico-racial das comunidades.”
Por sua vez, Mariana Mortágua apontou: “Montenegro, que ordena operações para aumentar a “perceção” de segurança, tem a “perceção” de que a violência contra mulheres não aumentou (apenas as queixas). Menos perceções e mais factos aconselhariam o PM a levar mais a sério o maior problema de segurança interna - este.”
Só este ano, entre janeiro e setembro, 344 mulheres foram violadas em Portugal, revelou a Polícia Judiciária na segunda-feira.







