07 abr, 2025 - 22:00 • Alexandre Abrantes Neves , Lara Castro (edição vídeo)
Pulseira amarela é sinónimo de apenas uma hora de espera. Consultas de especialidade são marcadas rapidamente. Para os casos agudos, o tempo para ser visto por um especialista até costuma ser inferior a 24 horas. O cenário parece um sonho para quem frequenta o Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas é bem real e está à distância de um voo de três horas.
“Aqui, em Munique, há muitos hospitais. Sei que há vários serviços que têm camas fechadas por falta de médicos e enfermeiros, mas o nível de resposta não se compara a Portugal”, conta, à Renascença, Margarida Huskic, emigrada há 12 anos na Alemanha.
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As mudanças entre o sistema de saúde alemão e português são do dia para a noite, com poucas greves, urgências raramente fechadas e uma grande articulação entre público e privado. “Aqui toda a gente tem direito a um seguro. Cada pessoa pode optar pela seguradora que quer, mas os preços descontados diretamente do ordenado são iguais. É um mundo completamente diferente”, aponta.
O modelo é replicado em vários países da Europa, incluindo nos Países Baixos, onde a qualidade dos cuidados também é classificada positivamente por quem lá trabalha. “Da minha experiência, o SNS é cruel. Aqui não”, aponta Filipe dos Santos, recém-enfermeiro a trabalhar numa unidade de cuidados continuados em Heemstede, a oeste de Amesterdão.
Lá, raramente falha o material para os tratamentos, há máquinas para movimentar ou levantar os doentes e o rácio de enfermeiros por paciente é bem menor do que em Portugal. “Ronda os cinco doentes por enfermeiro. Existe uma logística em que a população acaba também por sair beneficiada porque os cuidados são muito melhores”, assinala.
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Quanto ao avanço técnico, não há dúvidas, mas a atenção dada aos doentes já divide os enfermeiros portugueses que decidiram recomeçar a vida nos Países Baixos. “Em Portugal, com 13 enfermeiros e 40 doentes, toda a gente tomava banho todos os dias. Aqui, com cinco ou seis enfermeiros, os doentes tomam banho uma vez por semana. Nos outros dias, são lavados com toalhitas”.
Em pouco mais de um ano, André Alves, enfermeiro de 24 anos num lar de idosos, já teve várias experiências que o fizeram torcer o nariz nos hospitais dos Países Baixos. A última foi há um par de meses, quando ficou doente durante quatro semanas.
Dá-me tempo para eu sair do trabalho e ainda ir ao ginásio ou ir ter com os amigos ou ir jantar a qualquer lado. Em Portugal, seria impensável
“A médica disse-me: ‘Sente que vai morrer até segunda-feira? Se acha que não morre até segunda-feira vai ter que esperar para ir ao médico de família’. Eles não têm filas de espera no hospital, porque também não atendem quase doentes nenhuns no hospital”, aponta.
Segundo a Ordem dos Enfermeiros, há 30.990 enfermeiros portugueses emigrados atualmente e, só no último ano, foram 1.574 os profissionais que saíram do país. Na altura da Troika, Manuel Castro seguiu a vaga e também fez as malas rumo ao Reino Unido.
Quando chegou a Londres em 2013, e já fora as despesas que tinha de pagar para a sua alimentação e alojamento, conseguia enviar para a família os mesmos 1.500 líquidos que ganhava no Sistema Nacional de Saúde. 12 anos depois, o salário está perto de triplicar – e sem ter de acumular dois e três trabalhos, como fazia em Portugal.
“Dá-me tempo para eu sair do trabalho e ainda ir ao ginásio ou ir ter com os amigos ou ir jantar a qualquer lado. Consigo chegar a casa e fazer o jantar para mim e para a minha parceira, e conseguimos estar sentados à mesa às oito da noite a jantar. Em Portugal, seria impensável”, justifica.
Apesar das melhores condições em comparação com o SNS português, o Reino Unido já não é o oásis que foi em tempos para os profissionais de saúde. Há mais filas de espera do que no passado, os salários são mais baixos e os profissionais também começam a escassear. A culpa, atribui Manuel Castro, é da passagem do tempo e das decisões dos últimos anos.
Se o meu filho estivesse doente e eu faltasse, havia uma pressão enorme. Sentíamo-nos extremamente mal, porque achávamos que estávamos a pôr alguém em risco. Em Londres, não há esta pressão
“O Reino Unido, à semelhança de Portugal, começa a ter uma população muito envelhecida. A natalidade não é, nem de perto nem de longe, suficiente para cobrir as necessidades da população ativa. Desde o Brexit – e acho que Inglaterra já se apercebeu que deu um tiro no pé – que é difícil ir buscar enfermeiros a Portugal, a Espanha e a Itália, porque as pessoas sabem que há mais dificuldades”, assinala.
Além dos salários e da conciliação entre vida profissional e pessoal, há também outros fatores que fazem os enfermeiros recusar um regresso a Portugal.
Para Filipe dos Santos, o esforço em aprender neerlandês foi tanto que agora prefere construir uma carreira e vida nos Países Baixos. André Alves prevê uma progressão na carreira mais acelerada fora de Portugal e não esconde que também é atraído pelos prémios de 750 euros por cada colega que traz para a empresa onde trabalha.
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No caso de Margarida Huskic, é a família que já construiu em Munique que a impede de regressar a Lisboa. Mas não só.
“Se eu quiser fazer um mestrado ou pós-graduação, temos ajudas. Se eu quisesse tirar a especialização de anestesia, que dura cerca de dois anos num hospital, o serviço pagaria por completo essa formação”, adianta.
O regresso a Portugal é muito desejado por Manuel Castro, mas deve ficar adiado até à reforma. Em parte, porque os salários portugueses não correspondem às expectativas que construiu nos últimos 12 anos em Londres, mas também porque não quer voltar a sentir-se infeliz no trabalho.
“Se o meu filho estivesse doente e eu faltasse, havia uma pressão enorme. Sentíamo-nos extremamente mal, porque achávamos que estávamos a pôr alguém em risco. Aqui não há esta pressão”, recorda. E, por isso, prefere esperar e arrecadar um bom pé-de-meia, até poder matar definitivamente todas as saudades dos quatro filhos que deixou no Porto.