Saúde mental

Eduardo Carqueja. "O sofrimento não é um desperdício", mas "há pessoas que não se permitem sofrer"

09 abr, 2025 - 06:30 • André Rodrigues

Diretor do serviço de Psicologia da ULS São João diz que as pessoas passam a vida a fugir do sofrimento porque "não têm tempo para viverem a sua vida consigo próprias". Eduardo Carqueja lembra que o sofrimento não é uma fragilidade e "pode ser o primeiro passo para eu ser menos vulnerável".

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O psicólogo Eduardo Carqueja defende que o sofrimento pode ser o primeiro passo para superar a vulnerabilidade. Mas deve ser vivido e cuidado como uma experiência, em vez de ser tratado como uma doença.

Em entrevista à Renascença, este especialista reconhece que a vida é curta, mas o sofrimento é um intervalo que precisa de tempo para ser vivido. No luto, no desemprego, no divórcio e em todas as tensões e desafios que a vida coloca.

Se assim não for, Eduardo Carqueja alerta que o sofrimento psicológico persistente resvala para a doença física: “e isso é tremendo”.

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O sofrimento tem várias expressões para se manifestar. Mas como se define sofrimento no dicionário de saúde mental?

É uma experiência subjetiva que temos de ter sempre presente na subjetividade da experiência e da vivência que cada um assume e no impacto que tem, não só na dimensão do presente, mas também com experiências passadas e projeções futuras. No fundo, tem muito a ver com os recursos que temos, perante uma ameaça que nos surge.

Portanto, não é, necessariamente, uma expressão de fragilidade…

… Pelo contrário. Pode ser o primeiro passo para eu ser menos vulnerável ou ter estratégias para poder lidar melhor com a situação. Se eu tenho uma ameaça, se eu começo a avaliar essa ameaça e começo a ver que recursos é que eu tenho, se eu sinto que não tenho recursos efetivos, ou não tenho a perceção de que tenho recursos, vou entrar em sofrimento, porque sinto que não tenho capacidade para lidar com a ameaça.

Há ameaças que são completamente definitivas, que nos ameaçam a vida. E há ameaças transitórias, como quando, por exemplo, está a chover e eu tenho ou não tenho uma gabardina ou um guarda-chuva. Isso pode causar-me sofrimento com medo, por exemplo, de apanhar uma grande molha e de vir a desenvolver um resfriado e com tudo o que isso acontece.

Ou seja, de uma forma muito global, o sofrimento faz parte da vida, é uma dimensão ontológica do ser humano, enquanto existência que somos.

A nossa experiência é de várias dimensões que fazem parte da nossa existência. Seja ela mais de natureza física, que é traduzida muitas das vezes na dor, objetivada na dor.

Também podemos falar de sofrimento mais emocional, mais psicológico, que é onde o sofrimento vem sempre desaguar. Portanto, eu posso ter uma dor física, mas a minha experiência, a minha exteriorização do sofrimento, é sempre de cariz emocional.

Como nos casos em que as pessoas sofrem de dor crónica…

Exatamente. São pessoas que facilmente deprimem, porque têm uma dor. Mas, para além dessa dimensão, devemos ter em conta que há outras, nomeadamente as dimensões sociais, as dimensões relacionais que o sofrimento tem. Ou as dimensões existenciais, que são também, muitas das vezes, fonte de sofrimento. E até as dimensões espirituais.

Portanto, há um vasto leque de dimensões que nós podemos experienciar no sofrimento.

Por exemplo, na dimensão social, o isolamento pode fazer com que eu sofra, ou não, dependendo da condição. Se há uma condição em que eu quero estar isolado durante algum tempo, isso é bom para mim. É diferente quando eu sou obrigado a estar isolado e isso faz-me sofrer. Portanto, o sofrimento decorre da perceção que eu faço da ameaça que me é surgida e dos recursos que eu tenho. Por isso, é fundamental reforçar sempre a subjetividade do sofrimento e a integração do sofrimento nas nossas vidas.

Que significado lhe damos? Dependendo das circunstâncias, é sempre importante avaliarmos o que é que a pessoa nos diz sobre o que está a acontecer com ela.

Independentemente das manifestações do sofrimento e das diferenças individuais de cada pessoa, é possível afirmar que, em regra, as pessoas aproveitam o intervalo que o sofrimento lhes proporciona para se tornarem melhores?

Depende do propósito ou da razão desse sofrimento, depende de como se interpreta esse sofrimento, depende da minha história de vida, depende da minha personalidade, depende da razão da minha existência, e isto vai condicionar a interpretação que eu faço desse mesmo sofrimento.

Há uma autora espanhola que escreve sobre a inutilidade do sofrimento, que o sofrimento é um desperdício e não serve para nada.

Concorda com essa visão?

Não. É demasiado redutora. O sofrimento não é um desperdício. Nós poderíamos ter um hospital sem dor, em que os analgésicos são competentíssimos e exterminam a dor das pessoas, mas nunca teremos um hospital sem sofrimento.

Mesmo no nascimento de um bebé há sofrimento e estamos a falar de uma coisa boa. Portanto, tem muito a ver com o propósito da experiência que eu tenho, da forma como eu reinterpreto o que me está a acontecer.

O sofrimento tem de ser cuidado, a dor tem de ser tratada. Às vezes, nós confundimos isto. Muitas das vezes tratamos o sofrimento como uma patologia e ele tem de ser cuidado como uma experiência. E quando nós descuidamos de cuidar o sofrimento, muitas das vezes é um vazio para a própria pessoa, porque não tem aqui a possibilidade de partilhar o sofrimento. Nunca pode ser transferido uma pessoa para a outra, mas pode ser acompanhado, pode ser experienciado em conjunto. E é esta possibilidade que, muitas das vezes, nós temos de transformarmo-nos em seres diferentes.

Por exemplo, quando falamos numa dimensão muito concreta da perda, como é o processo de luto, que não é possível alterar, como é que eu reajo? Quero viver como se não tivesse acontecido, ou quero encontrar formas de lidar com a nova situação? O problema é que, muitas vezes, as pessoas querem alterar a história.

Porquê? Não se preparam para isso durante a vida?

Não, porque o dia-a-dia das pessoas também não o permite. Nós vivemos muito, e cada vez mais, numa sociedade em que tudo é muito descartável. Insisto, o sofrimento tem de ser integrado, caso contrário eu não consigo experienciar a vida da forma que ela me surge.

Há pessoas que sofrem porque não se permitem sofrer. E então a causa do sofrimento é eu não ter de sofrer. Eu tenho de lidar com essa situação. Não tenho como fugir.

As pessoas sentem que a vida é demasiado curta para darem tempo ao sofrimento?

O problema é que, não só vivemos cada vez mais numa sociedade egoísta, como as pessoas também não têm tempo para viverem a sua vida consigo próprias. É um egoísmo que é muito curioso. Quanto tempo é que eu tenho para mim? Vou ao ginásio, faço atividade física? E, mais do que isso – e eu pergunto isso muitas vezes aqui no consultório –, quantas vezes é que as pessoas vão ao ginásio da mente? Quanto tempo tem para olhar para dentro de si mesmas, para verem a sua vida, para se rirem delas próprias, das patetices que fazem no dia-a-dia? Porque essa é uma forma que nós temos também de lidar com coisas que são completamente próprias da vida, das quais nós não podemos fugir e que nos fazem sofrer.

Isto implica aceitar a vida tal qual ela é, não numa dimensão de passividade, de braços cruzados, mas de não querer alterar o que é inalterável. E, por vezes, gastamos muito tempo a querer alterar o que não é possível de alterar. O dia de ontem não é possível de ser alterado, por mais que eu queira. E o que acontece é que nós, muitas das vezes, queremos alterar o dia de ontem, desperdiçamos o dia de hoje e não pensamos no dia de amanhã. Temos esta dificuldade de reinterpretar os acontecimentos. E, depois, o sofrimento também vem muito carregado de culpabilidade ou de raiva consigo ou com os outros.

E esta conjugação, que começa a acoplar-se à experiência, com mais emoções, muitas das vezes vistas de forma muito negativa, impede-me de eu integrar em mim um acontecimento que me fez sofrer.

A culpa sequestra as pessoas?

Sim, a culpa deixa as pessoas sequestradas, deslocadas de si próprias. Para uma justificação que, na cabeça destas pessoas, naturalmente tem lógica.

Por exemplo, no tempo da Covid, muitas pessoas que vinham trazer os familiares ao serviço de urgência, ao hospital – e que depois acabavam por morrer – essas pessoas sentiam-se as culpadas de terem sido elas a levar as pessoas ao hospital, porque se não as tivessem trazido, as pessoas não ficavam neste processo que acabou por acontecer.

Quando colocámos estas pessoas nesse momento, nesse tempo, nesse espaço e nessa decisão, há uma certeza: a de que essa foi a decisão melhor que tomaram. Só que, muitas das vezes, o que nós fazemos é querer alterar a história de algo que é impossível de ser alterado, que é encontrar uma razão para que eu pudesse ir atrás para retificar o que aconteceu. Mas como isso é completamente impossível.

Por isso, na maior parte das vezes, as culpas são infundadas. As pessoas falam como se fossem encontrar nelas as culpas do próprio acontecimento.

E mesmo que a culpa seja nossa, o que é que muda? Não muda nada e só vai acrescentar mais sofrimento.

Sente que, de uma maneira geral, as pessoas estão disponíveis, têm vontade, para dizer que precisam de ajuda para lidar de uma forma mais saudável com esses sentimentos? Ou isto ainda é um tabu?

Se calhar, há razões que impedem que sofrimento não deixe de ser tabu. Porque há preconceitos. Por exemplo, quando alguém justifica no seu corpo alguma razão para ser atendido – pode ser uma dor de cabeça, uma dor de estômago, falta de ar ou outra manifestação física – nós fazemos o efeito placebo que retira a dor. Mas, na verdade, esta pessoa está a falar de sofrimento, não está a falar de dor. Esse é o problema. A dor justificada no corpo é atendida. O sofrimento vivido na minha experiência de vida não é tido em conta.

O círculo torna-se vicioso? Porque este sofrimento psicológico, se persistente, resvala para doença física…

Claro! E isto é um problema da nossa sociedade. As pessoas que sofrem têm de ter acesso facilitado a ajuda, nomeadamente psicológica. Isso não acontece.

Quando é que estas pessoas têm acesso a ajuda psicológica? Quando já estão doentes, quando apresentam uma psicopatologia. E isto é tremendo.

Ainda há fatores culturais que todos nós conhecemos: o homem não chora, o homem aguenta tudo, o homem é forte, versus a mulher que é uma fraquinha, que está sempre a choramingar, que não aguenta nada. Tudo isto ainda existe na nossa sociedade.

E acaba por influenciar decisões políticas. Instala-se a ideia de que, se não tem uma doença, porquê que vai ter acompanhamento? Porque não consegue lidar sozinha com o sofrimento? Então não vale a pena.

O que acontece é que as pessoas também, elas mesmas, sabendo que não têm como, ou a quem recorrer, também se inibem de se apresentar como pessoas que sofrem.

E isso leva a que, em processos mais evolutivos do sofrimento que passa à doença, as pessoas não têm como esconder. E aqui temos as doenças do foro mental, que são tremendas, muitas delas de origem em base no sofrimento. E que não têm de ser exclusivamente sofrimento psicológico.

Muitas das vezes, são sofrimentos de origem existencial, de dimensões, de contextos relacionais.

Como é que isso se trabalha?

Por exemplo, quando eu sofro por causa de uma separação, como é que eu integro em mim? Tenho capacidade, tenho estrutura emocional e psicológica para lidar com este fim desta relação, ou não? Se eu tenho, eu vou resolver isto de uma forma adequada, e naturalmente o sofrimento vai ser integrado para experiências futuras. Mas eu posso não ter, eu posso não ter tido essa aprendizagem, posso não ter instrumentos em mim para lidar com as perdas. E como é que eu vou lidar com isto? Vou aumentar o sofrimento de uma forma não ajustada e vou utilizar estratégias para esbater o sofrimento.

É aí que entra o álcool, porque desliga a pessoa deste foco de consciência.

Quando eu dou conta, já estou dependente do álcool. E fico com dois problemas.

Por outro lado, há situações que emergem com muita objetividade, que necessitam de ter acompanhamento, de ser cuidadas. Cuidar o sofrimento é caminhar em conjunto com a pessoa que sofre. E estas são razões que muitas das vezes não são tidas em conta.

Depois, há outra coisa que acontece muito no nível laboral, que é termos alguém que é capaz de fazer sempre tudo, que está sempre disponível para tudo, que aguenta tudo, que é uma pessoa fantástica. Só que, em algum dia da sua vida, essa pessoa poderá dizer que não aguenta mais, que não é capaz, que precisa de parar, que precisa de ajuda.

O que é que normalmente acontece quando estas pessoas dizem isto? Há sempre uma voz que diz, ‘mas tu sempre aguentaste tudo… porque é que não aguentas agora?... é só mais esta!’ Isso é extremamente penoso para a pessoa, porque essa pessoa precisa mesmo de ajuda. E, muitas vezes, o que acontece é que essas pessoas são empurradas para um precipício, que, infelizmente, muitas das vezes, leva a suicídios.

Por um lado, há as expetativas das próprias pessoas, há as expectativas do grupo onde elas estão inseridas, e como elas não querem defraudar o grupo, o que vai acontecer é que elas preferem desaparecer, porque perdem o propósito, não se sentem entendidas, não se sentem acolhidas naquilo que são.

Existe hoje algum tipo de sofrimento que seja mais frequente nos dias que correm? Fala-se muito da ansiedade, dos ataques de pânico, das fobias, das depressões…

É difícil converter uma experiência subjetiva em algo tão objetivo. Por exemplo, no caso da ansiedade, eu tenho ansiedade por razões do sofrimento, ou sofro porque tenho ansiedade numa dimensão mais psicopatológica? É importante, antes de mais, perceber do que estamos a falar quando falamos de ansiedade.

Por isso, quando temos alguém que nos chega e que nos diz que está a sofrer porque está muito ansioso, ou está muito ansioso e o faz sofrer, é importante percebemos quem é esta pessoa, mais do que o rótulo que ela traz ou que lhe vamos colocar a seguir.

Estou ansioso porquê? Porque estou à espera de uma herança de um milhão de euros que nunca mais chega? Ou estou ansioso, porque estou à espera do resultado de um exame que me pode dar um diagnóstico de algo que eu não quero e que pode pôr a minha vida em risco?

São situações muito diferentes e é isto que nós temos de desmontar.

Se eu vou querer resolver a ansiedade, eu posso dar uns ansiolíticos, mas não estou a atender à pessoa especificamente na sua problemática.

Daí que seja importante um diagnóstico, mas, antes disso, é importante eu avaliar muito bem quem é a pessoa que efetivamente está a sofrer.

Só partindo da pessoa é que tenho de fazer a análise deste sofrimento, porque há vários fatores que vão ter interferência, direta e indireta, na experiência do sofrimento.

E o sofrimento é uma experiência única, subjetiva, não possível de passar de um para o outro, e tem de se ter muito cuidado quando a generalizamos e a globalizamos em querer igualizar, ou criar aqui uma igualdade avaliativa do sofrimento das pessoas.

Isso é mais complexo nos adultos, nas crianças, ou é transversal a todas as idades?

É transversal a todas as idades, claro. Por exemplo, uma criança que tem de fazer uma prova no segundo ano e que é desafiadora, pode ficar com sofrimento, porque sente que não está preparada para responder, ou porque tem muita pressão no contexto familiar, ou porque tem muita pressão dos amigos, ou pressão dele próprio, para que consiga ter o máximo, para ter tudo certo.

Como pode fazer sofrer alguém com 90 anos que está a viver uma situação de doença, ou coisa do género.

Portanto, é transversal a todas as idades, porque tudo isso tem a ver com a forma como eu simbolizo a situação que me provoca o desconforto.

Uma vez, como é que eu reinterpreto isto? Imagine que eu hoje tinha combinado com a minha namorada que iria passar uma parte da tarde a ver o mar, o sol. Mas, depois, não está sol, está chuva.

Onde é que eu coloco o ónus do interesse da situação? No tempo, ou na relação com a pessoa com quem eu quero estar? Muitas vezes, o que nós fazemos é o contrário, achamos que a vida foi ingrata, porque tínhamos preparado tudo para estar sol e estar com a namorada.

E depois sofremos. E isso é um problema, porque as pessoas gastam muito do seu tempo a lidar com o problema, a criar mais problemas, e não a encontrar a solução.

Porquê? Porque não aceitam a situação tal qual ela é. E isto não é passividade, não é conformismo. É apenas perceber que não dá para alterar a história.

O perfecionismo é o maior inimigo?

Sim. E nós temos essa dificuldade, porque sentimos que temos de ter tudo sob controlo, tudo conforme tínhamos planeado.

A pandemia veio trazer-nos um olhar diferente em que o controlo sobre a natureza e sobre outras dimensões ficou muito reduzido.

Só que, mais uma vez, não conseguimos aprender disso. Continuamos a viver situações de muito egoísmo, de muita pressa, de querer viver com muita pressa, porque pode vir a outra pandemia.

Esse risco já foi identificado e os especialistas alertam que uma futura pandemia vai ser mais rápida e socialmente mais disruptiva. O que é que isto nos diz sobre a sociedade que seremos no futuro… daqui por 10 anos, por exemplo?

Não vamos ser uma sociedade muito diferente do que já somos. Vamos manter este padrão de alguma instabilidade. Vamos ser uma sociedade mais descaracterizada. Com isto não estou a dizer que vai ser pior, mas vai ser mais descaracterizada.

Basta pensar na Inteligência Artificial. Como é que eu posso conseguir ganhos, através de estruturas de conhecimento para me facilitar a vida? O mesmo com o telemóvel, que foi criado para poder rapidamente comunicarmos. Hoje, o telemóvel é um empecilho, porque nos apanha em qualquer sítio. E raramente é para telefonar. É mais para os emails, o WhatsApp. Já que estamos no telemóvel, temos acesso e podemos dar resposta.

Estes instrumentos foram criados para nos dar tempo, só que, depois, porque temos estes instrumentos, utilizamo-los para outros fins.

A Inteligência Artificial pode vir muito nessa dimensão. É algo que pode ajudar-nos, mas pode complicar quando criamos algumas ideias. Por exemplo, na minha área, há um estudo que sugere que a psicoterapia pode ser feita através da Inteligência Artificial, dentro de um quadro equivalente a uma psicoterapia mais tradicional.

Qual é a sua perspetiva?

Tenho dúvidas. Há quem defenda que, se calhar, os psicólogos daqui por uns anos vão deixar de existir, como outras profissões. Eu continuo a achar que é uma tontice se nós humanos, nós psicólogos, deixarmos que isso aconteça.Há pouco dizia que o ontem não dá para alterar e que só podemos acautelar o futuro. Isso remete-me para a educação das futuras gerações. Que educadores somos neste quadro tão volátil, com tanta incerteza, com tantos desafios?

Temos de ter em conta que, hoje, quem é educado está quase ao mesmo nível de quem educa em termos de acesso à informação, em termos de estímulos. Ou seja, atualmente, há crianças que dominam melhor a informação, as redes sociais, do que os próprios pais, porque têm um acesso mais rápido à globalização do que aquilo que nós tentamos não deixar que aconteça em casa.

Curiosamente, isto tem muito a ver também com o uso dos telemóveis nas escolas. Por vezes, caímos numa discussão de Sim ou Não.

Às vezes, quando são publicitadas situações gravadas em telemóveis de alunos, de violência entre eles – em alguns casos, violência muito intensa, que a todos nos devem vergonhar –dou conta de mim mesmo a pensar que, se isto não tivesse sido filmado, não se sabia.

O simples facto de isso acontecer, de haver alunos mais preocupados em filmar cenas de pancadaria entre pares do que em tentar acalmar os ânimos, não é, em si mesmo, ainda mais preocupante?

Claro que é. E eu não estou a defender que se venha publicitar isto. Mas temos de ter muito cuidado, e a comunicação social sabe muito bem que o não é falado não existe.

Mas, com isto, o que eu quero dizer é que nem tudo é mau e nem tudo é bom.

Claro que o facto de as crianças filmarem cenas de pancadaria para partilhar nas redes e divertirem-se é de um egoísmo muito grande.

Mas a responsabilidade é dessas crianças, ou do exemplo que falha em casa?

Todos somos implicados naquilo que fazemos. Dependendo do nosso grau de maturidade, da responsabilidade, todos temos esta responsabilidade acrescida. Não é por eu ser pequeno, ter 10 ou 12 ou 15 anos, que não posso ser responsável por uma atitude.

A questão é como é que eu depois lido com essa responsabilidade, como é que eu vou dizer a esta criança que pode e deve fazer de forma diferente.

Só que, em muitos casos, há pessoas que quase que não são educadoras dos seus filhos, porque o tempo que estão com eles é muito reduzido, quase se resume ao jantar e ao deitar.

E isso é algo que me desafia imenso na minha humanidade: ver pessoas com crianças ao colo, nas paragens dos autocarros às oito da noite, à espera do transporte para casa, que vão chegar a casa tardíssimo, se calhar ainda vão ter de fazer o jantar, dar banho aos meninos, preparar o dia seguinte para sair de casa às seis da manhã do outro dia. Isto é algo que nos sufoca e também é sofrimento.

Que vida é que eu tenho? Para que é que eu vivo? Se eu não encontro um sentido para a minha vida, eu estou em sofrimento.

Se acabamos percecionando a nossa vida como esse lugar de menos dignidade, estamos necessariamente a transferir esse exemplo para os nossos filhos? Ou tem esperança de que a nova geração tenha, ela própria, um comportamento perante a vida, diferente da dos pais?

Não sendo um Velho do Restelo, penso que temos de ter a noção de seremos responsáveis por uma geração, aparentemente, ainda mais egoísta do que a nossa.

E com isto não estou a dizer que isso é mau. Hoje os jovens entram num local de trabalho, sentem que não estão confortáveis, mudam, com tudo o que isto acarreta de instabilidade. Se eu não estou bem aqui, vou se calhar encontrar uma estabilidade em Madrid, ou em Paris, ou em Londres, e cada vez mais eu tenho esta possibilidade.

Isto faz desenraizar esta dimensão das famílias ditas tradicionais.

E depois temos outro problema: ficámos até mais tarde em casa dos pais, mas depois continuamos a achar que faz falta a chamada a família tradicional, em que havia avós, pais, a viver todos no mesmo sítio.

E, depois, queremos que os filhos saiam de casa, porque eles têm de ir.

Portanto, há uma procura de algo que ainda não está definido. O importante é nós sermos capazes de nos ajustarmos nestes tempos de uma forma que proteja aquilo que somos, enquanto pessoas.

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