"Querem que eu seja deportada?" Imigrantes dormem na rua para obter documentos de legalização
21 mai, 2025 - 19:30 • Vasco Bertrand Franco , com redação
Com imigrantes de várias zonas do país, as longas filas de espera levam famílias a dormir na rua. O problema passou de Lisboa para o Porto. Ministério dos Negócios Estrangeiros diz esperar que a situação seja normalizada, a breve prazo.
Centenas de imigrantes têm passado as noites à porta da Direção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas, em Lisboa e no Porto, para tentar obter documentos necessários para o processo de legalização.
Aos serviços instalados na Rua do Rosário, no Porto, chegam pessoas de várias partes do país para conseguirem o certificado de registo criminal - documento essencial para darem início ao processo junto da Agência para a Imigração e Mobilidade (AIMA), necessário para legalizarem a sua situação em Portugal.
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O serviço funciona entre as 9h00 e as 16h00, mas há quem fique a dormir na rua para conseguir ser atendido no dia seguinte. Esta quarta-feira, a prioridade foi dada aos imigrantes do Nepal, mas muitos cidadãos angolanos, que já estavam na fila desde segunda-feira, acabaram por não ser atendidos.


"Querem que eu seja deportada?"
"A organização não é boa. Olha para a minha cara, nós estamos tão cansados. As pessoas estão a dormir aqui há três/quatro dias. Hoje é um bom dia para mim, porque a prioridade é o meu país. Estou muito feliz por isso", conta uma imigrante nepalesa.
Alguns imigrantes africanos mostram especial indignação e queixam-se de racismo e preconceito, por não estarem a ser atendidos. É o caso de Julião Gaspar, atleta profissional de andebol, que necessita do documento de residência para poder jogar. "Tenho um agendamento hoje na AIMA. Dois dias a dormir aqui na rua. As senhoras que atendem dizem que só podem atender nepaleses, africanos não. Eu encaro isso como racismo e preconceito", afirma.
O medo de serem deportados para o seu país é o que atormenta muitos dos imigrantes, que perdem dias de trabalho nas filas e não têm resposta por parte da instituição.
"Uma pessoa fica aqui a manhã toda. Perdi um dia de trabalho, um desconto no trabalho para ser atendido e duas vezes fecham. Querem que eu seja deportada? Eu acho que é racismo", partilha uma imigrante angolana.
No coração da cidade, a zona conhecida pelo Bairro das Artes tem vindo a perder a movimentação que a caracteriza, nas últimas semanas. Os negócios locais têm sido afetados pela grande afluência de imigrantes na rua. Os turistas veem a confusão e vão-se embora.
Carlos Mendonça, proprietário de uma das lojas da rua, tem sentido a quebra nas vendas, nas últimas semanas. Culpa as instituições: "é o Estado que nós temos depois de umas eleições. Depois queixam-se que há determinados partidos que sobem. As pessoas não têm outra hipótese a não ser votar de uma forma radical".
O proprietário conta ainda que à noite "chegam a estar crianças a dormir no chão".
De Lisboa para o Porto, a situação tem vindo a agravar-se. Nas redes sociais circulam vídeos das longas filas e da realidade desumana que muitas famílias imigrantes têm enfrentado.
"Vou ter de voltar amanhã, lá pelas 3h00 ou 4h00 da manhã"
Foram centenas de pessoas que esperaram grande parte do dia para serem atendidas na Direção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas, em Lisboa.
Rivaldo Silva, um estudante de 26 anos, foi um desses casos. O jovem apelida como “inadmissível” as longas horas de espera.
“O pessoal lá dentro tem de ser mais proativo ou então têm de contratar mais pessoal. Tem de haver mais senhas. Isso é inadmissível. Há crianças aqui. Não dão prioridade às senhoras que estão com as crianças”, desabafa Rivaldo.
Já sobre o horário dos serviços consulares, que estão abertos das 9h00 até às 12h00 e das 14h00 até às 15h00, o estudante diz que “é muito curto. É muita gente para um horário tão curto”.
Já a portuguesa Anabela Martelaria, de 46 anos, chegou por volta das 8h00 da manhã. Garante que quando chegou era o número 193.
“Estou cá há horas, ainda não almocei. Disseram-me que eventualmente poderia tratar do documento que necessito online, mas não é possível porque eu tenho urgência no documento, por isso então tenho mesmo de esperar. Vou ter de voltar amanhã mais cedo, lá pelas 3h00 ou 4h00 da manhã”, lamenta.
Os ânimos exaltaram-se quando foi anunciado que ninguém mais seria atendido até ao fim do dia.
Os três funcionários deste serviço decidiram estender o horário por mais uma hora. Segundo apurou a Renascença, conseguiram atender mais de 100 pessoas.
Todas as pessoas que não foram atendidas colocaram o nome numa lista, criada por um dos requerentes de documentos. À Renascença, o homem, que não se quis identificar, garantiu que “esta lista serve para que ninguém tenha de dormir aqui”.
“Estamos cá há dias e não podemos continuar nestas condições. Há pessoas que vêm de muito longe e não podem estar sempre a ir e a voltar. Há pessoas que estão a faltar ao trabalho”, relata.
A verdade é que, mesmo com estes esforços, algumas pessoas disseram à Renascença que, por mais bem-intencionada que a lista seja, “não sendo feitas por figuras de autoridade, não vai ter utilidade”.
“Por isso vou cá ficar a dormir para não perder o meu lugar”, disse uma das pessoas que estava na fila.
O cenário junto à Direção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas é algo caótico, com cartões no chão a fazerem de cama, muitas pessoas sentadas no chão com o olhar vazio e distante, os caixotes do lixo completamente cheios e muitas garrafas com urina, uma vez que ninguém quer abdicar do seu lugar na fila.








