Educação
“Já não há empregos para a vida”. Escolher curso no 9.º ano é "difícil e muito cedo"
26 jun, 2025 - 06:00 • Salomé Esteves
Jovens de 14 e 15 anos têm de tomar uma escolha “difícil” sobre que rumo tomar no secundário porque é assim que o sistema funciona. Num mundo do trabalho em mudança, especialistas em Psicologia da Educação concordam que há espaço para mudar de ideias e que o autoconhecimento deve informar a escolha do percurso escolar.
Um adolescente de 14 anos não pode votar nem conduzir nem beber. Mas é expectável que tome a decisão de uma vida: que percurso tomar no ensino secundário?
Entre 15 e 20 de julho, milhares de alunos têm de matricular-se no 10.º ano, seja pelo ramo tradicional, pelo ensino profissional ou pelo artístico. Mas está um adolescente de 14 anos preparado para fazer essa escolha? E estará o sistema escolar português preparado para quem se mantém indeciso ou muda de ideias?
Raquel Raimundo, especialista em psicologia de Educação, é perentória: “É muito cedo para tomar esta decisão. Por isso é que é tão difícil na maioria das situações”. E a principal razão pela qual se colocam os alunos do 9.º nesta posição é “porque o sistema educativo assim está montado”.
Mas, esclarece Sofia Mendes, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia da Educação da Ordem dos Psicólogos Portugueses, esta é uma idade em que há “questões do domínio do autoconhecimento que, muitas vezes, estão subdesenvolvidas”.
“Estamos a falar de uma etapa onde eles estão a descobrir e a consolidar a sua identidade e mesmo a sua personalidade, que se encontra em grande desenvolvimento”, continua.
Para ambas as especialistas em Psicologia da Educação, o autoconhecimento é fundamental nesta idade e processo de decisão, “porque se eles se conhecerem bem a eles próprios, vai ser mais fácil depois tomarem uma decisão que tenha mais a ver consigo, com o seu perfil”, remata Raquel Raimundo.
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Numa altura em que projetar uma profissão traz ansiedade a filhos e pais, Raquel Raimundo acredita que é preciso “desconstruir” a decisão sobre o percurso a tomar no secundário e, sobretudo, “baixar a ansiedade”. Contudo, Sofia Mendes lembra que os possíveis futuros não são iguais para todos os jovens: “os jovens não têm todos as mesmas circunstâncias e não têm todos as mesmas oportunidades de se conhecerem a si e ao mundo que os rodeia”.
Mas nenhuma escolha é “determinista”, acrescenta Sofia Mendes. Apesar de o sistema educativo português obrigar os alunos a escolher um ramo do secundário no 9.º ano, também é flexível o suficiente para permitir trocas e mudanças de ideias nos anos seguintes, refletem as duas especialistas.
“Já não há empregos para a vida”
“É contraproducente eles estarem a escolher uma profissão”, defende Raquel Raimundo. Antes, os alunos do 9.º ano devem começar a traçar um “projeto de vida” que tem em conta interesses, aptidões e valores.
“Alguns jovens dão atenção à questão da remuneração”, enquanto outros querem “ter um trabalho que tenha variedade e diversidade, que seja estimulante do ponto de vista intelectual, que possa não ter turnos”, explica Raquel Raimundo. Já Sofia Mendes aponta que muitos jovens “valorizam muito a autonomia e a independência” num futuro emprego, ou até a possibilidade de terem maior visibilidade na esfera pública.
Raquel Raimundo sublinha que pode ser prejudicial para os alunos fixarem-se em profissões que podem extinguir-se ou “ser reconvertidas e não existir exatamente como as conhecemos” nos próximos anos.
O Fórum Económico Mundial (World Economic Forum) prevê que apenas 40% das competências profissionais necessárias em 2025 sejam valiosas no mercado de trabalho em 2030. Daqui a cinco anos - quando os alunos que agora decidem o ramo do 10.º ano pelo qual querem ingressar estiverem no ensino superior -, a organização estima que surjam cerca de 170 mil novos empregos, enquanto 92 mil podem desaparecer.
Agora, qualquer pessoa pode trocar de curso, aprender uma nova competência ou fazer uma reconversão de carreira: não só aos 15 anos, mas em qualquer ponto da vida ativa. Por isso, Raquel Raimundo acredita que tomar uma decisão passa por “ter um plano B ou C” em que “é natural mudar não só de emprego, como muitas vezes de profissão”.








