Justiça
Os amigos RAP e Alvim, o contabilista e o agente. O terceiro dia do julgamento Anjos vs. Joana Marques
30 jun, 2025 - 21:26 • Diogo Camilo , Liliana Monteiro
Bruno Miguel Santos, contabilista da banda, admitiu que vídeo de Joana Marques aconteceu no ano de maior faturação dos Anjos, enquanto o agente da humorista revelou que contactou Nelson Rosado, mas não teve resposta. Ricardo Araújo Pereira concluiu: "se alguém tentar prejudicar o trabalho dos Anjos ou se alguém os ameaçar de morte, eles não ligam. Se alguém se rir deles, querem um milhão de euros".
Ao terceiro dia de julgamento do caso em que os Anjos pedem um milhão de euros de indemnização a Joana Marques, o clima continuou quente, com o contabilista e um empresário da banda a mostrarem números de faturação e testemunhas da humorista a mostrarem o seu lado.
Bruno Miguel Santos foi o primeiro a ser ouvido, seguindo-se o humorista Ricardo Araújo Pereira, o agente de Joana Marques, Miguel Isaac, e o radialista Fernando Alvim. O último a ser ouvido esta quarta-feira foi António José Pereira Gomes, representante legal da empresa Senhores do Ar.
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Uma nova sessão foi marcada para o dia 11 de julho, uma sexta-feira, na qual será ouvida a última testemunha requerida pelos Anjos - o vocalista dos The Black Mamba, Tatanka - e a própria Joana Marques, que pediu para falar, embora a defesa dos Anjos tenha apresentado um requerimento para travar o depoimento, alegando que violava o contraditório e o dever de igualdade.
“Se me chamar de cabra, não poderei fazer nada?”, perguntou advogada. RAP respondeu: “Não é humor”
À chegada ao Palácio da Justiça, Ricardo Araújo Pereira começou por dizer aos jornalistas que o motivo pelo qual o julgamento está a decorrer é o da “perspetiva segundo a qual o humor é uma agressão”. “Não é apenas uma agressão. É a pior das agressões”, disse.
Dentro do tribunal, o humorista indicou que o vídeo em causa “não comete qualquer ilícito” e que “a maneira como as pessoas o interpretam não é responsabilidade do humorista”, mas também houve tempo para falar sobre o hino nacional.
Ricardo Araújo Pereira lembrou que “toda a sátira presta homenagem ao elemento visado” e que o vídeo publicado por Joana Marques “pressupõe a existência de um vídeo original”: “Quando Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça fizeram o Hino Nacional, em princípio, não estavam a pensar em 'uou uou uou'. Não há mal nenhum nisso, é só porque faz contraste com aquilo que esperamos”, afirmou.
A defesa dos Anjos questionou também o criador dos Gato Fedorento sobre o encontro de humoristas com o Papa Francisco, no qual esteve com Joana Marques. Seguiu-se uma discussão sobre a interpretação das palavras do Santo Padre, sobre como “o humor não ofende e não humilha”.
Julgamento
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Ricardo Araújo Pereira indicou que “como o humor não é sério, não tem potência”, com a defesa dos Anjos a considerar que os “humoristas são impunes”.
“Gostava que me explicasse porque fala como se os humoristas fossem um Deus todo poderoso. Diz que são declarações não sérias. Por isso pergunto-lhe: se me chamar lá fora de cabra se não poderei fazer absolutamente nada?”, perguntou a advogada, com Ricardo Araújo Pereira a responder: “se baixar o vidro do carro e lhe chamar cabra, não é humor”, com a juíza a completar que “importa o contexto”.
A advogada quis depois mostrar que Ricardo Araújo Pereira “não é isento” enquanto testemunha, mas a juíza lembra que o humorista disse no início do depoimento ser “amigo e colega de trabalho” de Joana Marques. De seguida, a segunda advogada dos Anjos faz questões idênticas ao humorista e acusa-o de “manter sempre a personagem”.
À saída, Ricardo Araújo Pereira começou por se queixar do clima da sala: “O depoimento foi feito numa sauna, preferia depor num jacuzzi”, numa referência ao calor sentido no sexto piso do Palácio da Justiça.
E depois questionou: “Os autores [os Anjos] desta ação têm um documento da empresa que era responsável pela captação e transmissão do som a reconhecer falhas técnicas muito graves, mas eles não processam essa empresa. Têm provas da quantidade de pessoas que os ameaçaram de morte e eles não processam nenhuma dessas pessoas. A Joana fez uma piada e estamos no terceiro dia de julgamento. Conclusão: se alguém tentar prejudicar o trabalho dos Anjos ou se alguém os ameaçar de morte, eles não ligam. Se alguém se rir deles, querem um milhão de euros”.
Vídeo de Joana Marques aconteceu no ano de maior faturação dos Anjos
Antes de Ricardo Araújo Pereira, falou o contabilista dos Anjos, o primeiro a depor esta segunda-feira.
Bruno Miguel Santos falou sobre os valores de faturação da banda no ano em que o vídeo foi divulgado e nos anos anteriores e posteriores. Em 2022, os Anjos faturaram cerca de 517 mil euros, um valor muito superior aos 105 mil euros de 2021 e 89 mil euros de 2020 - afetados pela pandemia da covid-19.
Em 2023, o grupo faturou cerca de 270 mil euros, quase metade do que faturou em 2022.
O advogado de Joana Marques questionou, então, o contabilista sobre alguma “explicação contabilística” para que o ano em que o vídeo em causa foi divulgado, ter sido “o ano de maior faturação”.
Bruno Miguel Santos disse “discordar completamente”, apontando que nos anos de pré-pandemia, a banda faturou 280 mil euros em 2018 e 402 mil euros em 2019 - ambos os valores são, no entanto, inferiores aos 517 mil euros de 2022.
O advogado da humorista questionou depois se, nos anos de 2022, 2023, 2024, a faturação teria sido “muito maior” sem o vídeo, com o contabilista a dizer que “sim” mas, quando questionado pela juíza, a negar ter realizado qualquer projeção sobre a matéria.
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Agente de Joana Marques contactou Nelson Rosado, mas não teve resposta
Antes da pausa para almoço, foi ouvido o agente de Joana Marques, Miguel Isaac, que confessou que não foi contactado por nenhum dos irmãos Rosado e que foi ele mesmo que tentou contactar a banda, mas que não recebeu resposta.
O agente disse ter tentado entrar em contacto com Nelson Rosado, mas que não teve resposta.
Questionado sobre o “vídeo manipulado” que Joana Marques terá usado durante um espetáculo ao vivo, Miguel Isaac garantiu que foi usado um “excerto da transmissão original” e não o publicado por Joana Marques nas redes sociais.
Vídeo dos Anjos “já ia bem lançado” antes da publicação de Joana Marques
Fernando Alvim, que também se apresentou como “amigo” de Joana Marques, afirmou que foi contactado por Nelson Rosado para retirar um vídeo exibido na gala “Monstros do Ano” em 2022, mas que na versão exibida “não há qualquer edição” como no vídeo publicado pela humorista.
O vídeo acabou retirado da plataforma a pedido de Nelson Rosado, com Fernando Alvim a considerar que “não viu mal nenhum” na exibição do vídeo. “Achei só que era um momento insólito”, afirmou.
A advogada dos Anjos questionou então o radialista sobre se não foi o vídeo publicado por Joana Marques a levar à nomeação da cerimónia. “Ele já ia muito bem lançado”, afirmou Alvim, levando a risos na audiência, referindo que já conhecia o vídeo antes da publicação da humorista, que aconteceu apenas no dia seguinte ao acontecimento.
Fernando Alvim afirma, de seguida, que o momento foi um “ato isolado numa carreira longa” e que o processo em causa “vem chamar a atenção para um momento que hoje em dia já ninguém se iria recordar”, indicando que Joana Marques fez um “exercício de humor” e que não imaginava que “aquele post originasse todo este processo”.
"Parece que os Anjos são o demónio", diz empresário
O último a ser ouvido esta segunda-feira foi António José Pereira Gomes, representante legal da empresa Senhores do Ar, outra das empresas que faz a gestão e produção dos concertos da banda.
Questionado sobre os prejuízos após a publicação do vídeo de Joana Marques, o empresário indicou que um concerto foi cancelado após uma aparição da humorista na televisão mas, quando questionado sobre valores, indicou que “não se fazem contas”.
“Quando se faz contas, o prejuízo é muito maior do que a perda de contratos”, afirmou, acrescentando que “o cachet justo” para os Anjos estava nos 25 mil euros e que hoje a banda está “5 mil euros abaixo”, referindo que só houve “um episódio negativo” que explique a quebra do período de crescimento da banda.
António José Pereira Gomes terminou o depoimento a criticar a comunicação social, para dizer que há “dois ou três órgãos que parece que estão focados no negativismo e que os Anjos são o demónio”.
No final da sessão, a defesa de Joana Marques fez um requerimento para que a humorista seja ouvida. A equipa de defesa dos Anjos pediu um indeferimento, mas a juíza considerou que o requerimento é “oportuno”. A próxima sessão ficou então marcada para o dia 11 de julho, com Tatanka a ser ouvido em primeiro lugar e, de seguida, Joana Marques.









