"No humor nada é sagrado". Terminou o julgamento Anjos vs. Joana Marques, que coloca à prova a liberdade de expressão
11 jul, 2025 - 19:25 • Tomás Anjinho Chagas
Cantores pedem mais de um milhão de euros de indemnização. Defesa de Joana Marques lembra que o vídeo foi "uma piada". Os limites da liberdade de expressão estiveram em debate. Defesa dos Anjos chegou a comparar Ricardo Araújo Pereira a Mário Machado. Agora é o tempo da juíza.
Quais são os limites à liberdade de expressão? A questão é colocada muitas vezes em abstrato e pretende provocar uma reflexão. Só que este verão passou do papel à prática no julgamento do caso Anjos vs. Joana Marques.
Os irmãos Nelson e Sérgio Rosado - os Anjos - colocaram Joana Marques em tribunal e exigem 1 milhão e 118 mil euros de indemnização à humorista por causa de um vídeo publicado em abril de 2022. O julgamento terminou esta sexta-feira, dia 11 de julho, e as alegações finais serviram para mostrar que há dois mundos distintos em choque.
"Destruição de carreira" vs "uma piada"
O mesmo vídeo é interpretado de formas diferentes. De um lado, a defesa dos Anjos insistiu numa indemnização e pede que o tribunal obrigue Joana Marques a eliminar o vídeo e a nunca mais o mencionar.
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“É o entorpecimento constante da verdade. O humor é um exercício nobre num Estado de Direito. Nós somos pró-humor, não nos venham dizer é que vale tudo", argumentou Natália Luís, uma das advogadas dos artistas.
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Do outro, os advogados de Joana Marques insistem que não há nada de ilegal que possa exigir uma indemnização.
"Isto é uma discussão moral. Vocês não gostaram da piada, mas ela não deixa de ser uma piada”, lamentou Elsa Seara, advogada de defesa da humorista, já nas alegações finais.
Comparação a Mário Machado
Com os irmãos Nélson e Sérgio Rosado em silêncio durante todo o último dia, a defesa dos cantores alegou que o vídeo em que os dois aparecem a cantar o hino levou a um ataque de movimentos "extremistas" nas redes sociais.
"Considera-se responsável pelos comentários? Nem equacionou que este tema se pode relacionar com a extrema-direita, pelo hino, podia tocar no nacionalismo?", perguntou Luciana Rosa Oliveira, durante esta sexta-feira de manhã, na altura de se dirigir a Joana Marques.
"Não estou a dizer que isso não existiu. Mas relacionado com a extrema-direita não me apercebi", respondeu Joana Marques. E mais à frente completou: "Eu sou responsável pelas coisas que faço, não pelos comentários”.
Mais tarde, Natália Luís comparou a intervenção de Ricardo Araújo Pereira - que foi chamado por Joana Marques para ser testemunha no processo - à forma como Mário Machado foi condenado por incitamento ao ódio.
O julgamento mediático e a "elite poderosa"
Na reta final do julgamento, as advogadas de defesa dos Anjos lamentaram a forma como foi mediatizado este processo, e sugeriram que Joana Marques consegue controlar o que se escreve na comunicação social, descrevendo a humorista como parte de uma "elite poderosa que controla o digital e os meios de comunicação social".
A advogada Luciana Rosa Oliveira fala em "desinformação constante" e acredita que quem esteve dentro da sala de audiências do Palácio da Justiça tem uma visão diferente do que se passou daquela que é relatada por todos os jornalistas presentes.
Em resposta, Elsa Seara, advogada de Joana Marques, respondeu que foi a pedido dos Anjos que o julgamento foi aberto e afirma que tentou travar isso.
"Eu até tentei ser amiga", ironizou, numa frase que fez estalar um riso coletivo nas dezenas de pessoas que estavam a assistir. A advogada não compreende a crítica e lamenta todo o desenrolar do processo.
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"No humor nada é sagrado"
A sessão desta sexta-feira, em que Joana Marques prestou depoimento no Palácio da Justiça, em Lisboa, também ficou marcada por uma declaração da juíza.
Perante várias perguntas da advogada dos Anjos, sobre o vídeo humorístico poder constituir uma "ofensa nacional" por colocar o hino em causa, a juíza sentiu a necessidade de intervir.
"No humor nada é sagrado, tudo é criticável", avisou a magistrada.
Agora, tudo está nas mãos da juíza, que deve ter uma sentença pronta depois das férias judiciais, entre setembro e outubro. Além dos impactos diretos para os visados, a decisão vai criar jurisprudência na matéria e adicionar um capítulo prático para as universidades estudarem os limites do humor.















