Reportagem nos incêndios

A estrada que pôs duas crianças órfãs e o fogo que levou memórias de infância. Em Seia, as chamas ainda são um trauma

14 ago, 2025 - 06:00 • Alexandre Abrantes Neves

Em Cide, os incêndios de 2017 trouxeram morte e uma ferida coletiva ainda por sarar. Em Coucedeira, as lições foram muitas e a população, agora, nem quer ouvir falar de sair de casa e largar tudo por causa do fogo. Esta é uma viagem aos medos e pesadelos do Portugal profundo, oito anos depois.

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A estrada que pôs duas crianças órfãs e o fogo que levou memórias de infância. Em Seia, as chamas ainda são um trauma - reportagem em Cide
Ouça aqui a reportagem da Renascença na aldeia de Cide. Foto: Paulo Cunha/EPA

A estrada não tem nome formal, mas isso não lhe tira importância nem memória. Quem passa por aqui acima e abaixo todos os dias e desenha a curva para Vide vai, provavelmente, a pensar nos afazeres do trabalho, que afastam para longe a história de quem aqui perdeu a vida. São os efeitos da passagem do tempo, mas que, rapidamente, são invertidos à mínima chama que apareça na encosta da aldeia de Cide, no concelho de Seia.

“Fiquei impressionada, a gente conhecia-se, éramos como família – vivíamos ao lado um dos outros. Ainda para mais, era um casal jovem, com duas crianças pequenas”. Rosa Correia nasceu em Cide, mas é emigrante em França. Lembra-se bem do dia, em outubro de 2017, em que soube que os vizinhos tinham morrido cercados pelas chamas na estrada, à beira de casa. “Quando há estas situações, ainda nos lembramos mais”, conta à Renascença.

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A aldeia fez o luto, mas não esquece. A própria dificuldade de Bruno Moura em falar do assunto autoexplica-se quando finalmente encontra palavras para resumir o que sente: “Tenho um bocado esse trauma ainda.”

Dessa altura, Bruno também não se esquece da noite de aflição, em que subiu a estrada à revelia das autoridades para mandar mais de três mil litros de água para um barracão, que conhecia desde criança e onde tinha guardado todo o material de construção civil do pai. Não conseguiu e só ali perdeu mais de cem mil euros em equipamento, que não estava protegido por seguros.

"O meu pai estava a começar os tratamentos contra um cancro, ele era um pouco friorento, então eu tinha juntado lenha para lhe dar alguma qualidade de vida. Mas pus a lenha ali… e pronto... Nunca se recupera, mas segue-se a vida”, recorda, com os olhos a fugir para a encosta em chamas para tentar controlar as lágrimas.

Em Cide, perto de duas dezenas de moradores recusaram-se a abandonar a aldeia e a descer para mais perto do rio Alvoco, no centro da freguesia de Vide e Cabeça. A razão? Proteger os bens a todo o custo. “Não há perigo ainda, anda lá longe. E, se o fogo cá chega, ninguém protege as nossas coisas”, defendia António, com as mãos na anca e o sobrolho franzido com a preocupação.

Apesar do medo, a família de Rosa escudou-se no facto de também decidiu ficar, à exceção da avó idosa que foi levada para o centro de dia por precaução. Para a filha, Micaela, esta é a primeira vez que está perto de “chamas tão grandes, tão fortes”. Assustam-na, relata-nos, ainda para mais porque a obrigam a “pensar rápido para perceber o que fazer”.

Por agora, a missão é ignorar o cansaço de uma noite em branco, continuar a fugir ao sono e permanecer alerta, para o caso de ser preciso fugir do pesadelo.

“Pronta, estou! As malas estão dentro do carro, já previmos isto. Fizemos as malas, para o caso de termos de ir embora. Não eram estas as férias [que esperava], não estava bem à espera que isto ardesse tudo”, confessou.

“Daqui não saio”

Depois de subir a estrada, agora é tempo de a descer. São várias curvas e contracurvas que há oito anos foram desenhadas pelas chamas e que agora acabam esvanecidas pelo fumo que começa no vale e que é arrastado por todo o lado pelo vento.

O sol, lá ao alto, quase a rebentar num laranja assustador (mas impressionante) é o ponto de luz mais forte, que funciona quase como a cereja no topo do bolo da encosta, pontuada por dezenas de focos de fogo. O calor é abrasador e pouco muda entre os diferentes lados da encosta.

Em Malhada de Cilhas, o único café é o ponto de encontro para cerca de uma dezena de populares que vivem na aldeia vizinha de Coucedeira e foram obrigados a subir o vale pelas autoridades. Aqui, povoação evacuada é, mais uma vez, sinónimo de más memórias.

“Sentimos um vazio. Mas a nossa vida e os animais são o mais importante. Em 2017, a minha casa ardeu. Ainda temos lá em baixo casas devolutas dessa altura”, relata à Renascença Eliete Casquiço, em biquinhos de pé e olhos apontados para o fundo do vale, a controlar se não chega nenhuma projeção à casa de férias que ali tem.

O habitual barulho e animação da esplanada é hoje substituído pelo tema do fogo – “Isto está cheio dele, já nem me apetece ir para o forno fazer o pão. Em Piódão, já há casas destruídas”, diz a mãe do proprietário do café, com as lágrimas já a escorrerem pela cara.

O desabafo é feito numa conversa telefónica que serve também para relatar a história do início do fogo: pelas cinco da manhã de quarta-feira, ouviu-se o início da trovoada seca e, nem uma hora depois, já cheirava a queimado e havia eucaliptos pintados a laranja.

A partir daí, foi pôr mãos à obra e recordar a lição que se conhece desde sempre: fechar as janelas, limpar os terrenos e regá-los. Alguma coisa ajuda, diz o proprietário Pedro Mendes, mas não há receitas mágicas.

“Regámos de manhã, mas isso não vale assim muito. Tem de ser minutos antes, ou meia hora, mas nós nunca sabemos quando vai chegar o fogo”, esclarece.

Para Pedro, o maior perigo das chamas – que vão avançando e recuando, ao sabor do vento – é atingirem as três dezenas de bilhas de gás que ali tem para venda. Por isso, a decisão está tomada: dali, não sai.

“A GNR chega às aldeias e diz ‘vamos evacuar’. Mas ninguém nos garante que vai ficar um carro de bombeiros à nossa porta, por melhor trabalho que eles façam. Por isso, nós, os mais novos, devemos ficar. Lutar pelo nosso património”. É a coragem envolvida em medo por ter a vida dependente de algo tão simples como o vento.

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