Reportagem
Plano de drenagem. Como estão a ser construídos os "rios secos para evitar cheias" em Lisboa?
23 set, 2025 - 06:30 • João Cunha
É a maior obra de sempre levada a cabo por uma autarquia em Portugal. O Plano Geral de Drenagem de Lisboa visa proteger a cidade das cheias e inundações associadas a fenómenos extremos de chuva. A obra está atrasada e é certo que haverá derrapagens de orçamento, mas o coordenador de projeto acredita que poderá estar concluída até "fim de 2027".
PGDL. O que é? "Nunca ouvi falar, é a primeira vez" ; "Não tenho a mínima ideia"; "Não sei"; "PDG... L... Nunca ouvi falar nessa sigla"; "Assim de repente, não." Foram neste sentido todas as respostas ouvidas pela Renascença, junto de algumas dezenas de lisboetas.
Nova formulação da pergunta: então, e do Plano Geral de Drenagem de Lisboa, já ouviu falar? "Isso deve ser de esgotos, se não me engano, não?"; "Terá a ver com águas? Não sei"; "Deve ser alguma coisa hidráulica"; " São túneis para recolher as águas da chuva. São como rios secos, subterrâneos, para evitar cheias".
Num périplo pelas ruas da capital, encontrámos duas pessoas que sabiam para que serve o projeto que tem vindo a perfurar a cidade.
A obra arrancou em 2023, com a entrada em Campolide de uma tuneladora que atravessou o subsolo de locais como as avenidas da Liberdade e Almirante Reis, chegando agora a Santa Apolónia. Esta semana, a tuneladora está a ser transportada de Santa Apolónia até ao Beato, para daí abrir outro túnel, até Chelas.
"São dois túneis. O maior, que tem cerca de cinco quilómetros - dos quais 4.400 metros são efetivamente feitos por uma máquina, uma máquina tuneladora -, atravessa toda a cidade de Lisboa, desde a zona de Campolide até ao final, Santa Apolónia, junto ao rio. O segundo é um túnel de Chelas ao Beato, tem cerca de um quilómetro de extensão e também vai, de certa forma, ajudar a resolver os problemas da zona oriental", explica o engenheiro coordenador da equipa de projeto para o Plano Geral de Drenagem de Lisboa, José da Silva Ferreira.
Mas o plano não se resume aos túneis. “Há outras fases, há outros pormenores deste plano. O objetivo é, de facto, ajudar a combater as alterações, digamos, munir-nos de ferramentas para, de certa forma, aguentarmos as alterações climáticas - que já estão a acontecer -, e tem quatro objetivos principais".
O primeiro é tentar fazer o chamado controle na origem. Ou seja, onde aparecem as águas, "criando soluções para contê-las ou permitir a sua divergência e melhorar os aquíferos que existem na cidade de Lisboa".
O segundo é o chamado transvase de bacias, que é representado pelos túneis. O terceiro é fazer uma intervenção na rede de drenagem da cidade de Lisboa.
"A rede tem cerca de 1.700 quilómetros", dos quais "cerca de 10%" são rede conceptual — ou seja, há 170 quilómetros de rede que são, no fundo, os grandes coletores de esgotos existentes na cidade. "Algumas partes dessas redes têm, efetivamente, alguns problemas — ou por estrangulamento, ou por dificuldade de passagem, ou até pelo envelhecimento das nossas redes. Algumas delas muito, muito antigas e não têm tido, efetivamente, a conservação que deveriam ter."
O quarto aspeto é a melhoria do conhecimento. "Só conhecendo, efetivamente, o que nós temos e como aquilo comporta o que nós temos é que podemos melhorar sempre as nossas intervenções. Isso consubstancia-se em duas ações. Uma, a melhoria do cadastro com a sua digitalização. E a segunda a monitorização da própria rede. Ou seja, é tão importante sabermos por onde é que passa a água, como também qual a quantidade de água e como é que ela se comporta."
Por isso, vão ser instalados medidores de caudal e medidores de nível de forma a ajudar a rede existente a diversificar o seu escoamento.
"É aprender com aquilo que existe", explica o engenheiro José da Silva Ferreira, no sentido de poder atuar em tempo real, consoante a informação que é dada pelo sistema, e assim adaptar o comportamento da própria cidade em relação aos eventos pluviais extremos.
O coordenador sublinha que águas de esgotos ou águas pluviais entram em simultâneo no sistema, "porque Lisboa tem fundamentalmente um sistema unitário de drenagem".
Assim, "quando há um evento pluvial muito elevado, o que nós fazemos com o transvase de bacias é fazer o desvio desses caudais para os túneis".
Sendo um sistema unitário, não vai acabar por poluir o Tejo? José da Silva Ferreira garante que a questão não se coloca. "No início dos nossos túneis, temos bacias antipoluição. E essas bacias fazem um tratamento, por um lado, por decantação, e contêm os caudais, dentro de uma estimativa que temos da ordem do tempo de recorrência de três anos, e que são os mais poluentes."
Com a chuva, todos os arruamentos são limpos, e essa água que acaba no esgoto transporta a poluição dos carros, devido aos óleos que caem nas estradas.
"Essas partes poluentes são metidas nessas bacias antipoluição, onde são decantadas, e acabado o evento pluvial essas águas são levadas para as ETAR, que nós agora costumamos chamar de fábricas de água, no caso concreto de Alcântara e de Chelas."
Mas se o evento pluvial se prolongar mais do que o previsto, há sistemas filtradores, designados por tamisadores, "onde todos os sobrenadantes também são contidos, e a água, quando vai conduzida para os nossos túneis, já vai, obviamente, despoluída".
Trata-se de uma obra que terá um tempo de vida de um século. Mas para garantir essa longevidade, há que garantir a manutenção da mesma.
"É importante termos a instalação a funcionar durante o seu tempo de vida útil, mas este tempo de vida útil só pode ser, efetivamente, constatado se fizermos conservação e manutenção", sublinha o coordenador de toda a obra.
"Um fator muito importante nesta conservação e manutenção é o acesso ao túnel de pessoal e de máquinas que, preventivamente, fazem visitas e, se necessário, fazem intervenções para evitar que haja questões de perda de qualidade da própria instalação". Esta prevenção constante permitirá colmatar problemas com pequenas intervenções "e evita-se gastarem imenso dinheiro quando acontecem os problemas". Túneis que, sublinhe-se, estarão secos na maior parte do ano.
O potencial impacto ambiental acrescido
A dimensão desta obra urbana levou a que seja já considerada um estudo de caso: aprender com o que está a ser feito para poder replicar noutros locais onde exista a mesma necessidade, ainda para mais dando importância à parte ambiental.
Concretamente, na parte ambiental, aproveitam-se os túneis para transportar água reciclada nas estações de tratamento de águas residuais - que, não sendo potável, tem outras finalidades. Na soleira dos túneis está a ser colocada tubagem que vai distribuir pela cidade essa água reciclada - que é acessível quer na zona de Campolide, quer na Avenida da Liberdade, na Rua de Santa Marta, na Almirante Reis e também em Santa Apolónia, assim como em vários locais do túnel Chelas-Beato.
"Esta água estará acessível nestas zonas e pode ser utilizada para três coisas fundamentais. Por um lado, regar os nossos espaços verdes - que não faz qualquer sentido serem regados com água potável, como está a acontecer atualmente. Vai ser usada para a lavagem de pavimentos - que já se faz com recurso, muitas vezes, a água das próprias fábricas de água, mas temos que a transportar em tanques e, portanto, aumentamos a nossa pegada ecológica. Por fim, não menos importante, pode ser usada para reforçar a rede de combate de incêndios".
Ainda em termos ambientais, há uma outra solução ainda mais engenhosa: aproveitando a gravidade e a cota diferente a que está a zona de Campolide em relação á ETAR de Alcântara, pode vir a ser criada uma solução energética alternativa.
"É verdade. Aqui na bacia antipoluição estamos a construir uma zona que permite, num futuro muito breve, colocar tubagem dentro do Caneiro de Alcântara, que terá um caudal permanente e que permitirá a instalação de uma minicentral hidroelétrica. Com isso, será possível abastecer a própria central e diminuir em cerca de um terço os custos de funcionamento da mesma.", explica o engenheiro.
O projeto está a ser alvo de um estudo de viabilidade por parte das Águas do Tejo Atlântico.
Plano terá derrapagens financeiras e atrasos
Com o período de execução 2016-2030 e um investimento total de cerca de 250 milhões de euros, o Plano Geral de Drenagem de Lisboa está já sofrer atrasos. "Estamos atrasados, estamos, é verdade, e estamos atrasados por questões imprevisíveis", sustenta o engenheiro José da Silva Ferreira.
Em primeiro lugar, devido a alterações na legislação dos solos. "Trata-se de uma legislação publicada depois do início da obra, mas a que obviamente a Câmara vai (e tem estado a) obedecer e que corresponde a um sobre encargo - não só financeiro, mas também de atraso da obra, porque tivemos de fazer novas campanhas e sondagens ambientais e que nos provocaram também custos de transporte de terrenos, que embora não sejam efetivamente muito perigosos, têm tido um tratamento diferente", explica o coordenador.
Depois, há atrasos devido "ao riquíssimo património arqueológico que nós temos na cidade de Lisboa, que uma parte conhecíamos e fizemos sondagens nesse sentido - nomeadamente a zona da Muralha Fernandina, em Santa Apolónia -, mas outros que apareceram que eram perfeitamente desconhecidos, quer nossos, quer do próprio património cultural".
Quando aparecem achados arqueológicos que têm de ser analisados, avaliados e inventariados, cumprindo a legislação em vigor, a obra necessariamente atrasa.
E qual é o atraso neste momento? O coordenador da equipa de projeto assume o "objetivo ambicioso" de ter o túnel principal a funcionar "até no inverno de 2026" e que a obra possa terminar entre "meados de 2027 e fim de 2027".











