Reportagem
Trinta mil aquistas em oito meses. Termas também fazem bem à saúde de Chaves
01 out, 2025 - 08:00 • Olímpia Mairos
As Termas de Chaves estão a viver um ano histórico: entre janeiro e agosto de 2025 receberam mais de 30 mil aquistas, ultrapassando largamente os 13.600 registados em todo o ano de 2024. A procura crescente confirma a cidade como um polo de saúde e bem-estar e faz do termalismo o motor da economia local. A partir desta quarta-feira, o Estado passa a comparticipar os tratamentos termais com mais 15 euros, num total de 110 euros por utente.
Dulce Ribeiro, 79 anos, é de Santo Tirso e vem há 25 anos para as Termas de Chaves. Começou a fazer tratamentos por causa dos “problemas nos ossos” e, apesar do esforço financeiro que representa, sente que “faz bem ao corpo, aos ossos e à mente”.
“Fica caro, fica. Temos de pagar tudo: as termas, a estadia, as refeições. Mas vale bem a pena, porque passo o ano bem melhor”, conta à Renascença.
Dulce vem com o marido, José Leite, de 82 anos, que também não dispensa os tratamentos termais porque são “valiosos para os ossos e para a mente”. O casal faz tratamentos durante 13 dias e permanece alojado numa unidade hoteleira.
“São cerca de mil e quinhentos euros todos os anos”, diz José Leite, dando por bem empregue o investimento, porque “ajuda a passar um ano mais confortável”.
De todo o lado vêm termalistas à procura de respostas para atenuar os efeitos de várias doenças crónicas, como artrites, problemas respiratórios, de circulação ou de pele.
Manuela Matias, 56 anos, veio de Albufeira até Chaves à procura de solução para as “dores nos ossos”.
“Tenho artrite reumatoide e má circulação. Já tenho feito termas em São Pedro do Sul, mas decidi vir aqui a Chaves, apesar de ser muito longe, para ver se é melhor”, conta à Renascença.
A aquista, que veio de autocarro e está hospedada numa unidade hoteleira, assume que “o investimento é significativo”, mas realça que a qualidade de vida - neste caso, a saúde - “vale mais do que todos os sacrifícios”.
Também Maria Idalina, 73 anos, com osteoporose, está a fazer tratamento, pelo terceiro ano consecutivo, para “atenuar as dores ósseas, relaxar e acautelar o inverno”.
Já Leonardo Soares, 24 anos, veio de Rio Tinto simplesmente para relaxar, após a conclusão da licenciatura.
“Acumulei muito stress e vim aqui para relaxar os músculos, principalmente. Faço vichy, que é uma massagem enquanto estão a ocorrer jatos de água. E faço uma banheira, em que estou dentro de uma banheira com água muito quente e com pontos onde há certos jatos de água que estimulam certas áreas do corpo, o que acaba por relaxar e estimular a musculatura”, descreve à Renascença.
Veio por sete dias, mas já está a pensar em prolongar o tratamento para melhor se restabelecer e preparar-se para o mercado de trabalho.
Comparticipações: o que muda?
A partir desta quarta-feira, o Estado passa a comparticipar os tratamentos termais com mais 15 euros, num total de 110 euros por utente. No entanto, a medida está sujeita a condições: a prescrição tem de ser emitida por um médico do Serviço Nacional de Saúde.
De acordo com as novas regras, cada tratamento termal deve ter uma duração mínima de 12 dias e máxima de 21 dias e depende da prescrição do médico de medicina geral e familiar do utente no Serviço Nacional de Saúde (SNS), que tem a validade de um ano.
Para a aquista Dulce Ribeiro, “apesar de não ser muito é uma ajuda”.
Também Maria Idalina enaltece a medida e diz que “15 euros são 15 euros e dão para uma refeição”.
A comparticipação abrange o conjunto de atos e técnicas que compõem cada tratamento termal, nos termos do plano de tratamentos definido pelo médico hidrologista em estabelecimento termal, na sequência da prescrição do médico de família.
As comparticipações abrangem várias doenças, entre as quais artrite reumatoide, rinite, asma, urticárias, psoríase, diabetes, obesidade, insuficiência venosa, anemia e doenças neurológicas e psiquiátricas.
Além de consulta e acompanhamento médico, o diploma define os atos e técnicas termais: hidropinia, técnicas de imersão, técnicas de duche, técnicas de vapor, técnicas especiais (aparelho respiratório, outras técnicas), e técnicas complementares.
Motor da economia flaviense
As Termas de Chaves são, efetivamente, um motor da economia regional, com impacto significativo nos setores hoteleiro e de restauração, atraindo um número crescente de aquistas e turistas que procuram tratamentos de saúde e bem-estar.
Rui Ribeiro, proprietário do Hotel Jardim das Caldas, assume que as termas são o motor do seu negócio.
“São o nosso motor, não só da nossa casa, mas da cidade, porque a cidade funciona em função das termas. A cidade não tem indústria, não tem… As termas é que dão o nome à cidade”, conta à Renascença.
Em época alta, a unidade hoteleira “enche por completo e aqui os clientes optam por estadia completa: dormida, pequeno-almoço, almoço e jantar”.
Aquistas e turistas vêm, maioritariamente, do Centro e Norte de Portugal, mas também da Galiza, do Sul e da zona de Lisboa. Fazem a diferença na faturação desta unidade, situada a poucos metros do complexo termal.
Também Ilda Lobo, do Restaurante Carvalho, nota um acréscimo de clientes provenientes das termas. O restaurante normalmente está cheio e, para assegurar a refeição, “o melhor mesmo é marcar”.
“As termas têm uma importância muito grande. Vêm pessoas de fora, de todo o lado — do Norte do país e também de Espanha — e dinamizam toda a cidade”, diz.
Por sua vez, Pedro Branco Teixeira, gerente do Hotel Petrus, destaca o peso que representa o termalismo na sua unidade.
“Por ano, cerca de 30% da ocupação é termal”, revela, admitindo que a localização privilegiada, mesmo junto ao complexo termal, é fator de atração e preferência.
Os termalistas “passam, mais ou menos, entre 10 e 12 dias a fazer o tratamento” e normalmente vêm duas vezes por ano. Os meses mais fortes são maio, junho e, depois, agosto, setembro e outubro.
“Claro que nós temos outros passantes e outros clientes, mas a faturação das termas para nós é muito importante”, nota Pedro Branco Teixeira, sublinhando que o termalista faz girar a economia.
“O termalista vem e leva batatas, cebolas, alfaces, compra nos nossos comércios. Portanto, é um rendimento também para o comércio de Chaves”, destaca.
O responsável entende, no entanto, que a autarquia devia investir mais nas termas, para aumentar a capacidade termal, e dá como sugestão a criação de piscinas ao ar livre para fruição dos habitantes locais.
“Deviam fazer uma pequena piscina termal ao ar livre para a população e a juventude de Chaves ir lá à noite. Em Espanha vê-se muito isso e há muitas mais coisas que se podem fazer nas termas. Na Itália há piscinas e piscinas ao ar livre termais que aqui se podia copiar, e isso era uma mais-valia para Chaves”, aponta.
Pedro Branco Teixeira frisa ainda que “os privados estão a investir muito em Chaves” e que há uma capacidade de turismo alta, que podia ser muito mais alta se houvesse algumas mudanças.
“Está a ser um ano fantástico”
De 1 de janeiro até 31 de agosto, passaram pelo balneário flaviense 30.271 pessoas, superando as 13.612 registadas em todo o ano de 2024. O bem-estar foi a área que mais evoluiu, com 28.041 aquistas, e a tendência é de crescimento nesse setor.
Em entrevista à Renascença, Brigite Gonçalves, administradora executiva das Termas de Chaves, refere que este “está a ser um ano fantástico, com números absolutamente históricos e com algumas novidades”.
Quais são as novidades?
As Termas de Chaves voltaram — pelo segundo ano consecutivo — a vencer o prémio 5 Estrelas Regiões, no segmento da saúde e bem-estar do termalismo. Além disso, no final de março foi inaugurada uma nova valência, única em Portugal continental: o Complexo Aquae Salutem.
Trata-se das primeiras piscinas termais ao ar livre do país. Mais do que piscinas, é um verdadeiro complexo, com cinco tanques dotados de hidrodinâmica, jacuzzis, jatos de água, labirinto sensorial, fonte de gelo, banho turco e sauna. Uma oferta diferenciada na área do bem-estar, cujo elemento distintivo é precisamente o facto de ser ao ar livre.
Fruto desta novidade, tem-se registado um número crescente de termalistas e visitantes. Todos os segmentos estão em crescimento: não só o novo complexo tem atraído muita gente, como também as duas áreas clássicas do balneário — terapêutica e spa/bem-estar — registam procura cada vez maior.
Em 2024, ao longo de todo o ano, receberam-se 13.600 aquistas. Já em 2025, até 31 de agosto, as visitas ultrapassaram as 30.000. É uma diferença avassaladora, um crescimento muito grande, que nos deixa, por um lado, muito contentes e orgulhosos; mas, por outro, também nos responsabiliza a prestar um serviço cada vez melhor, com qualidade, excelência e, sempre que possível, inovação.
O recorde atingido deriva muito do novo complexo?
Mais de 20.000 visitas foram, de facto, ao Aquae Salutem. Contudo, a análise estatística mostra que muitos aquistas complementam a experiência: fazem os seus 12 ou 15 dias de tratamento termal, mas não deixam de visitar o novo espaço. Outros vêm especificamente para conhecer o Aquae Salutem e acabam por experimentar também massagens ou outras valências das Termas de Chaves. O crescimento, portanto, é combinado e transversal aos diferentes segmentos.
30.000 termalistas é um número excelente. Há condições para continuar a crescer?
Não queremos ficar por aqui. Sempre que consigamos crescer mantendo a qualidade, esse será o caminho.
Abril beneficiou do fator novidade e da Semana Santa, período de grande impacto em Espanha, quando os espanhóis viajam e procuram novos destinos. Já agosto, mês tradicional de férias e de regresso da diáspora, voltou a impulsionar a procura.
O desafio é gerir o excesso de procura: Tivemos dias em que as pessoas chegaram sem reservas e tivemos de lhes dizer que já não era possível para esse dia. É frustrante para quem viaja quilómetros e não consegue entrar, mas é fundamental garantir qualidade para quem cá está.
Queria deixar também esta mensagem de que nem sempre, nem todos os dias, conseguimos receber toda a gente para garantir a qualidade a quem cá está. As termas não são parques de diversões, uma piscina termal não é uma piscina comum e, portanto, este é um espaço lúdico, sem dúvida que sim, mas um espaço lúdico que é termal, que é de saúde e que é de bem-estar e, isso, implica que tenhamos algum cuidado.
Deixo, por isso, este alerta: sobretudo em períodos festivos ou fins de semana, aconselhamos as pessoas a que nos contactem antes e deixem a reserva feita por diferentes meios. Temos loja online, site, e-mail, telefone e redes sociais. Podem contactar-nos e efetuar o pedido de reserva. Essa é, sim, a garantia de que, quando aqui chegarem, terão o complexo — ou qualquer outro serviço desejado — ao seu dispor, com qualidade.
Qual é o impacto económico e de criação de emprego?
As Termas de Chaves são um importante motor da economia regional, não apenas pela restauração e hotelaria, mas também pela criação de postos de trabalho.
Mais procura significa mais serviços, e isso implica mais trabalhadores. É uma satisfação contribuir para o emprego e para a economia familiar.
Atualmente, as termas empregam cerca de 80 pessoas. A equipa é diversificada: integra trabalhadoras experientes — já menos disponíveis para funções físicas exigentes, mas agora com papéis de apoio e receção — e jovens formados em termalismo, manutenção e vigilância. É uma equipa eclética, com diversidade etária, de género e de formações, o que muito nos orgulha.
Qual é o próximo projeto?
Entre as novidades, está o lançamento de novos produtos da linha de dermocosmética, já com clientes fidelizados em Portugal e no estrangeiro. O desenvolvimento conta com apoio científico da Universidade Católica e do Aquavalor.
Outro projeto, financiado pelo Turismo de Portugal, pretende conciliar termalismo, campismo e aventura. A ideia é integrar numa única plataforma serviços como massagens, estadias no parque de campismo da Quinta do Rebentão, passeios de bicicleta elétrica na ecovia, arborismo e até visitas ao balneário pedagógico de Vidago.
Queremos criar pacotes que agreguem estas experiências, para que quem vem a Chaves possa reservar tudo num só espaço.













