Estudos da FMUP

A apneia do sono ou a epilepsia têm relação com a doença mental? "Há um risco maior"

16 out, 2025 - 07:30 • Miguel Marques Ribeiro

Investigadores portugueses alertam para o “subdiagnóstico” da doença mental em Portugal e apelam para o reforço dos recursos disponíveis.

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Doenças relativamente comuns, como a apneia do sono, a epilepsia ou a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) podem estar associadas a uma “elevada prevalência das perturbações psiquiátricas”, conclui um conjunto de estudos desenvolvidos pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), que analisou milhares de internamentos ocorridos em hospitais públicos portugueses entre 2008 a 2015.

Gonçalo Santos debruçou-se sobre a DPOC, uma doença que atinge 14% dos portugueses acima dos 45 anos e é a terceira mais mortal a nível mundial.

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O consumo em excesso de tabaco ou a exposição a poluentes no ar provoca o equivalente a um “desabamento do pulmão”, explica o médico da FMUP, o que pode provocar sensação de falta de ar, bronquite crónica, enfisema pulmonar e tosse com expetoração.

Aquilo que se passa em Portugal é sempre a lógica de correr atrás do prejuízo - Gonçalo Santos

A pesquisa “avaliou retrospetivamente mais de 66 mil internamentos de pessoas acima dos 40 anos por DPOC”, explica um comunicado da FMUP.

Os resultados mostram que dois em cada cinco doentes tinham também uma ou mais perturbações psiquiátricas, incluindo ansiedade, neuroses e abuso de substâncias.

A “calamidade” da (falta) de tratamento da doença mental

Este resultado é relevante num país que continua a desvalorizar a saúde mental, explica o médico e investigador: “Aquilo que se passa em Portugal é sempre a lógica de correr atrás do prejuízo”.

Falta "investimento alocado à prevenção", o que tem impacto na deteção atempada destes problemas: "Estamos a falar de um significativo subdiagnóstico do ponto de vista da patologia psiquiátrica".

As consequências estão à vista: “Ao nível da doença psiquiátrica, Portugal é uma calamidade”, refere Gonçalo Santos.

Distinção entre saúde física e mental é “antiquada”

Perante estas descobertas, o psiquiatra e também investigador da FMUP, Manuel Gonçalves-Pinho, sublinha que a distinção entre doença física e mental se tornou “antiquada”.

Uma doença bipolar ou uma esquizofrenia tem impacto nos internamentos para outras doenças como infarto ou AVC - Manuel Gonçalves-Pinho

“No fundo, existe um substrato biológico, muitas vezes para o surgimento da doença mental”, afirma, destacando ainda a existência de fatores contextuais. E o reverso também é verdadeiro: "uma doença bipolar ou uma esquizofrenia tem impacto depois nos internamentos para outras doenças como infarto ou AVC”.

Ou seja, há um “surgimento [que] é partilhado”, uma “correlação” entre os problemas de saúde de base fisiológica e os de origem emocional ou comportamental.

Epilepsia: quando falha a "arquitetura elétrica cerebral"

Gonçalves-Pinho tem-se debruçado sobretudo sobre as doenças do foro neurológico, de que fazem parte aquelas que afetam o funcionamento do cérebro, como a epilepsia, a demência ou a amnésia.

O estudo realizado pela FMUP, e publicado na Acta Médica Portuguesa, passou a pente fino mais de 290 mil internamentos de maiores de 18 anos, em hospitais nacionais públicos, por doenças neurológicas. “80 mil tinham também um diagnóstico de doença psiquiátrica”, sublinha o médico.

No fundo, existe um substrato biológico, muitas vezes para o surgimento da doença mental - Manuel Gonçalves-Pinho

Esta correlação é particularmente grave na epilepsia. “Cerca de 40% dos doentes internados por crises de epilepsia apresentavam doenças psiquiátricas”, sublinha a FMUP.

Descrita como uma “desregulação daquilo que é a arquitetura elétrica cerebral”, a epilepsia surge associada “a perturbações do uso do álcool e também das perturbações do humor, da depressão, por exemplo, que acaba por ser relativamente frequente nesta população”, explica Manuel Gonçalves Pinho.

Apneia do sono relacionada com a ansiedade e doença bipolar

O grupo de investigadores da FMUP debruçou-se ainda sobre a síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS). Em seis milhões de hospitalizações registadas entre 2008 e 2015, 36 mil têm origem neste problema que provoca sono agitado, despertares noturnos recorrentes, dificuldade de concentração e irritabilidade, entre outros sintomas.

Estes doentes podem valorizar mais os sintomas sem que esses sintomas sejam necessariamente mais graves - Gonçalo Santos

De acordo com Daniel Nora, autor do estudo publicado no Psychiatric Quarterly, citado no comunicado da FMUP, “os doentes internados com diagnóstico de apneia do sono têm um risco maior de sofrerem também de ansiedade, doença bipolar, consumo abusivo de álcool e comportamentos suicidas”.

Assim, tudo indica que existe uma relação de bidirecionalidade entre os sintomas psiquiátricos e a apneia do sono. Os dois “têm em comum mecanismos biológicos e fatores de risco como obesidade, hábitos tabágicos, abuso de álcool e abuso de substâncias sedativas/opioides, sendo preciso ter em atenção esta sobreposição em contexto clínico”, esclarece Ana Rita Ferreira, que também assina este estudo.

Necessidade de melhorar os diagnósticos

Quando a uma doença mental se associam outras patologias, existe “um risco de internamento mais prolongado e até de morte”.

Por exemplo, “pode fazer com que a maneira como nós vivenciamos a doença seja diferente. Por vezes, estes doentes podem valorizar mais os sintomas sem que esses sintomas sejam necessariamente mais graves.”, sublinha Gonçalo Santos.

O meu diretor de serviço diz sempre que nós temos que fazer omeletes sem ovos - Gonçalo Santos

Manuel Gonçalves-Pinho espera que as conclusões destes estudos permitam melhorar os procedimentos de diagnóstico, de forma a “encaminhar os doentes, quando necessário, para as consultas de psiquiatria ou até iniciarem tratamento para as doenças mentais que possam surgir”.

Até porque a prática clínica em geral precisa de estar mais atenta aos problemas do foro psiquiátrico, que têm um "impacto significativo na qualidade de vida dos doentes”.

Um prato de omelete sem ovos

As conclusões destas pesquisas podem assim ajudar a afinar os procedimentos de diagnóstico e de encaminhamento destas doenças dentro do sistema de saúde. Estas expetativas chocam, no entanto, com a realidade no terreno.

“O meu diretor de serviço diz sempre que nós temos que fazer omeletes sem ovos. E a verdade é mesmo essa”, lamenta Gonçalo Santos.

O “menu” que os vários governos sucessivos têm servido aos seus doentes e à sua população “é um prato de omeletes sem ovos”, uma forma metafórica de dizer que os recursos disponíveis para tratar a doença mental, em Portugal, “são realmente limitados”.

Para este especialista, é fundamental que “a saúde mental seja uma realidade concreta” e não apenas um “cartaz político”.

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