Tempo
"Sempre que Portugal não teve hora de verão, a experiência foi abandonada passados uns anos"
25 out, 2025 - 08:30 • Diogo Camilo
O antigo diretor do Observatório Astronómico de Lisboa defende que o cenário ideal para Portugal deve incluir uma mudança de hora, mas a acontecer em setembro - e não em outubro. Rui Agostinho lembra que os períodos em que Portugal não adotou a "hora de verão" não correram bem, com o nascer do sol às 5 horas da manhã no verão.
Numa altura em que o fim da mudança de hora volta a estar em cima na mesa, e no dia antes dos ponteiros do relógio atrasarem uma hora, o antigo diretor do Observatório Astronómico de Lisboa defende que a "melhor alternativa" para Portugal deve ser o atual horário de inverno como base, por "estar mais próximo do horário solar", mas com o fim do tradicional "horário de verão" em setembro - e não em outubro.
À Renascença, Rui Agostinho afirma que a saída do "horário de verão" no final de outubro é "muito complicada e explica porquê.
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"Neste momento às sete da manhã ainda está escuro no céu. Estamos a ter em outubro aquilo que mais ou menos depois teremos novamente em dezembro. O amanhecer é extremamente tardio, muito tardio mesmo, e sente-se muito a transição do horário de sexta-feira para o horário de segunda-feira", diz, referindo que, se a mesma acontecer em setembro é "mais pacífica" devido à temperatura.
O professor do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa lembra ainda que Portugal já passou por situações em que adotou o fuso horário da Europa Central, com Lisboa a ter a mesma hora de Madrid, Paris ou Berlim, e que as experiências nunca correram bem.
"A história da experiência do povo português é de que, quando passaram por um regime sem hora de verão, essa experiência foi abandonada passado uns anos. Muitas vezes passados dois ou três anos", afirma Rui Agostinho, doutorado em Astronomia, defendendo a mudança de hora "para proporcionar a luz do sol" que esteja "associada a uma hora de relógio em que as pessoas têm atividade".
Quando Portugal não mudou a hora
A história das mudanças de hora começam no início do século XX quando, no virar do ano de 1911 para 1912, Portugal deixou o Meridiano de Lisboa e adotou como convenção o Meridiano de Greenwich. Como resultado, todos os relógios do país tiveram de ser adiantados em 36 minutos e 44 segundos - a distância temporal entre as duas cidades.
Com a Primeira Guerra Mundial, adotou-se o horário de verão como medida para a poupança de energia, exceto em alguns anos da década de 20 e 30.
Em 1966, o Presidente da República, Américo Thomaz, decide deixar o horário de verão de vez, defendendo a existência de “uma hora única durante todo o ano". Durante dez anos, até 1976, Portugal teve o mesmo horário da Europa Central, com um desfasamento de 2 horas e 36 minutos para o seu horário solar natural no verão - e de 1 hora e 36 minutos de desfasamento no inverno.
Este foi o maior período de Portugal num horário diferente. O segundo maior aconteceu entre 1992 e 1996, quando o governo de Cavaco Silva também fez com que Portugal Continental adotasse o fuso horário de Espanha, França ou Alemanha.
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Na prática, a mudança levou a que o amanhecer acontecesse apenas depois das 9h00 da manhã no inverno e o pôr do sol no verão depois das 22h00.
"O sol, nestas semanas à volta da transição do ano, nasce perto das nove da manhã. Isto cria problemas tremendos, porque as pessoas adultas obrigam-se a levantar, tomam uns cafés, mas as crianças não podem nem devem beber café. Faltando a luz solar natural, o corpo não acorda", afirma Rui Agostinho, indicando que o cenário verifica-se desde o início de novembro até janeiro, ao mesmo tempo que se verificam "noites mais longas e mais frias".
O regresso ao fuso horário atual aconteceu já em 1996, no governo de António Guterres.
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Benefícios da mudança da hora "justificam bastante" os riscos
O investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa entende também que o regime atual, com mudança de hora no verão, é o mais adequado e explica o porquê.
"Se Portugal não fizer a transição para o horário de verão, teremos o sol a nascer às 5h00 da manhã no final de junho e durante o mês de julho. Qual é a percentagem da população portuguesa que se levanta a essa hora para depois estar na escola às 8h00 horas ou abrir lojas às 9h00? Só acorda e inicia a atividade a essa hora quem é mesmo obrigado a isso", sublinha.
O doutorado em Astronomia aponta que, sem "hora de verão", iriam perder-se "horas de sol" que desapareceriam do final da tarde.
"Se não existir uma mudança para a hora de verão, toda essa atividade anda uma hora para trás. Ou seja, sol a pôr-se às 20h00 desaparece do céu", afirma, referindo que os benefícios "justificam bastante" os potenciais riscos, como um aumento de cansaço ou outros problemas de saúde e da ocorrência de mais acidentes nas primeiras semanas após a mudança da hora.
A mudança para a hora de inverno acontece este domingo, com os relógios a atrasarem uma hora às 2h00 da madrugada, altura em que passarão a ser 1h00 em Portugal Continental e na Madeira. Nos Açores, os relógios atrasam à mesma hora: as 1h00 em Ponta Delgada vão passar para as 0h00.











