11 dez, 2025 - 23:01 • João Pedro Quesado
Mudam-se os tempos, mudam-se as greves? Os números da CGTP e UGT, que falam em três milhões de trabalhadores em greve esta quinta-feira, apontam para um impacto maior que a greve geral de 27 de junho de 2013 — a última que tinha unido as duas centrais sindicais. Números diferentes, mas não muito.
Os três milhões estimados para a greve geral contra a reforma laboral proposta pelo Governo de Luís Montenegro representam à volta de 57% do número de trabalhadores em Portugal — 5,3 milhões de pessoas, segundo os números do INE relativos a outubro.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
Em 2013, a UGT falou de uma adesão de mais de 50% dos trabalhadores. Portugal tinha então pouco mais de 4,1 milhões de trabalhadores no ativo, colocando o número de grevistas acima dos dois milhões de pessoas.
Nesse ano, o Governo não deu números — era a segunda greve geral das duas centrais sindicais durante a governação de Pedro Passos Coelho, anos marcados por uma contestação social intensa e prolongada contra as medidas de austeridade. Os dados de adesão à greve na função pública surgiram quase duas semanas depois: 20,5% num universo de 309 mil trabalhadores que podiam fazer greve.
A greve geral de junho de 2013 fez-se sentir mais nos transportes públicos e na saúde — as escolas já estavam em período de férias, e o período dos exames nacionais já tinha sido afetado por greves dos professores.
Em 2025, transportes públicos, saúde e também educação foram os setores mais afetados. O setor privado, esse, continua a ser uma incógnita, e a maior fonte de números contraditórios — o ministro António Leitão Amaro afirmou que esta parecia mais “uma greve da função pública”. A CGTP publicou, durante a tarde, uma lista de 309 serviços públicos, e algumas empresas, encerrados, e refere ainda uma adesão de 100% em dezenas de empresas e serviços.
A greve geral de 2013 surgiu num contexto de uma taxa de desemprego em máximos históricos — 17,7% no primeiro trimestre de 2013 — e da continuação das más notícias sobre o desempenho da economia — o PIB dos primeiros três meses tinha caído 4% face ao mesmo período de 2012. Tudo acontecia depois do corte do subsídio de férias, do 13.º mês, e do “enorme aumento de impostos” de Vítor Gaspar.
Governo vs. sindicatos
Apesar de não dar números gerais, o Governo desval(...)
A paralisação que voltou a juntar UGT e CGTP, divorciadas há dois anos, foi incentivada por novas medidas do então Governo de coligação PSD/CDS. Passos Coelho anunciou, no início de maio desse ano, a subida da idade da reforma sem penalizações para os 66 anos (assim como o fim da bonificação do tempo de serviço a contar para a idade da reforma), a rescisão com 30 mil funcionários públicos, o aumento de descontos destes para a ADSE e a transição da função pública para as 40 horas semanais.
O dia foi marcado por confusão no aeroporto, com muitos passageiros sem informação sobre o que aconteceria ao seu voo. Entre as manifestações na rua, um grupo de mais de 200 pessoas tentaram cortar o acesso à Ponte 25 de Abril. E, dias depois da manifestação, Vítor Gaspar demitiu-se de ministro das Finanças, originando o episódio da demissão “irrevogável” que não o foi de Paulo Portas.
Em 2025, não se preveem demissões, ninguém tentou cortar o acesso à ponte 25 de Abril, nem o aeroporto se encheu de passageiros perdidos, apesar de mais de metade dos voos serem cancelados.
Greve geral
Num dia em que mais de metade dos voos previstos f(...)
Apesar disso, o habitual protesto dos sindicatos até à Assembleia da República acabou com distúrbios provocados por alguns manifestantes, que incendiaram cartazes e atiraram garrafas contra os agentes da PSP na escadaria. A polícia acabou por dispersar o protesto.
A greve geral de 2025 acontece enquanto a economia cresce de forma sucessiva — 2,4% no terceiro trimestre face ao mesmo período de 2024 — e o emprego está no completo oposto face a 2013: nunca houve tanta população empregada em Portugal e a taxa de desemprego é de 5,8%.
Os cortes também estão ao contrário: em vez de serem aplicados aos salários (que têm sido aumentados na função pública) e serviços, são aplicados às taxas de IRS.
Em comum estão alterações propostas à legislação laboral, para facilitar os despedimentos e flexibilizar os horários de trabalho. A reforma laboral proposta pelo Governo de Luís Montenegro, para alterar mais de 100 artigos nas leis do trabalho, fez CGTP e UGT juntarem-se de novo em protesto.