12 dez, 2025 - 02:32 • Alexandre Abrantes Neves
Jogo do gato e do rato. Durante praticamente três horas, quando o Corpo de Intervenção da Polícia de Segurança Pública (PSP) descia a escadaria da Assembleia da República (AR), os manifestantes afastavam-se, sob gritos de indignação como “cobardes”, “vocês têm de estar connosco” ou “para quê isso?”. Assim que a PSP voltava a subir, os distúrbios regressavam à zona das grades, com garrafas de vidro arremessadas contra os degraus e caixotes do lixo e cartazes queimados.
A situação fez, até, os manifestantes alterarem os cânticos contra a reforma laboral defendida pelo Governo: a cada saco do lixo incendiado, ouvia-se que “o pacote [laboral] cheira mal”.
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As atenções no Largo de São Bento estavam todas viradas para a banda sonora que saía do sistema de som dos manifestantes (desde os Wham! até Madonna) e, claro, para estes jovens desordeiros – o membro mais velho do grupo acabou a subir a escadaria logo ao início e a ser levado pela polícia. Atrás deles e da nuvem de fumo que se erguia de quando em vez, desenhou-se uma linha de segurança, que isolava as restantes pessoas que ali protestavam – e que só era quebrada quando as fogueiras improvisadas precisavam de mais lenha ou lixo.
“Não o fiz [atos de vandalismo], mas respeito a forma de cada um se manifestar. Se escalar, eu vou-me embora. Mas acho que as pessoas estão revoltadas – acho que é isso que as pessoas querem manifestar, de uma maneira ou de outra. E é por isso que também está a acontecer algum vandalismo, mas acho que faz parte”, considerou Joana Faria, de 30 anos e assistente de bordo e que participou na greve.
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Joana já não ficou para assistir aos momentos de maior tensão, nomeadamente quando a polícia disparou balas de borracha e utilizou gás lacrimogéneo para tentar dispersar os manifestantes que não largavam o fogo junto às grades. Não resultou. “Venham cá, venham cá, vamos ver”, gritava um dos grevistas, já de boca tapada, para evitar o muito fumo e cinzas que pairavam.
À medida que a noite caía e que o frio era cada vez maior, também as pessoas envolvidas nos distúrbios foram abandonando o largo em frente ao Parlamento e, pelas oito e meia da noite, só resistiam cerca de uma dezena de jovens. Mas os gritos, os pequenos focos de incêndio e as investidas contra a polícia continuavam. Foi nesse momento que o Corpo de Intervenção da PSP deu literalmente meia-volta, contornou a escadaria e fechou o largo.
“Deixem-nos bazar em paz”, gritava um encapuzado. “Não estamos a fazer nada”, criticava uma jovem que ali estava desde as quatro da tarde. “Estão a ser assim, porquê?”, atirava outro manifestante, enquanto tentava pegar no saco com os pertences.
Em menos de um minuto, os gritos soavam cada vez mais ao fundo, à medida que os bastões e escudos da PSP montavam um cordão de segurança e empurravam aqueles jovens para as travessas e escadas transversais ao largo.
Já eram praticamente nove da noite quando os três últimos manifestantes desistiram de atirar pedras da calçada e petardos contra a polícia, que ainda respondeu com mais tiros de borracha. O resultado seria conhecido um quarto de hora depois, num comunicado emitido pela PSP: seis pessoas detidas por resistência e coação sobre funcionário ou ofensa à integridade física qualificada e outras duas identificadas.
À frente do Parlamento, e já depois da saída do corpo de intervenção da PSP, restavam apenas vestígios do que ali se tinha passado: caixotes do lixo em cinzas e com pequenas chamas a serem apagadas por bombeiros, tinta na escadaria e no chão e um cartaz do PAN vandalizado, onde se lia “Prisão para quem rouba o povo. Pides morrem na rua”.
Mas antes dos distúrbios, as ruas da baixa lisboeta até ao Parlamento assistiram (e ficarem entupidas) com uma manifestação ordeira, calma – e até pedagógica.
“Os constrangimentos não são maiores do que aqueles que serão gerados pela aprovação desse pacote laboral. Um dia sem aula é para elas perceberem que as professoras precisam estar bem pagas, a escola precisa estar com estrutura para poder bem recebê-las. Se isso não acontece, a aula não funciona, a escola fica precária, a professora fica precária”.
Maída Zenum veio até à manifestação que arrancou da praça do Rossio com as duas filhas, de dois e seis anos, para lhes ensinar que “vivemos em sociedade e que estamos a passar uma crise”. É socióloga e trabalha, neste momento, como bibliotecária num centro de investigação, a recibos verdes. “Preciso de condições para as minhas filhas poderem ir para a escola e eu ir trabalhar. Com esse pacote laboral, é impossível”, lamenta.
Carlos Serra vai uns metros bem atrás e não ouve esta história, mas tem muito a ver com ela. É bolseiro de investigação e vive numa antítese: apesar de todas as qualificações superiores que lhe exigiram e ainda exigem, nunca se conseguiu libertar dos vínculos precários das bolsas científicas.
“Este contrato laboral, tanto quanto sei, não prevê quaisquer medidas que venham a alterar esse regime. Será um futuro bom para os empregadores, para os patrões, não para os trabalhadores. De todo”, criticou.
Entre as ruas lisboetas, mal havia espaço para colocar os pés. Levantar a cabeça e rodá-la era um exercício de ver sindicatos de todas as profissões e mais alguma, vindos de todas as regiões do país e que formavam uma mancha de várias cores, do branco ao vermelho.
Pacote laboral
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A descer a Calçada do Combro, damos de caras com Cristina Louro. Quase em cima do passeio, está integrada no desfile, mas vai protestando de forma mais discreta com outras duas amigas.
Tem 66 anos, é assistente dentária e aderiu à greve por querer mandar “abaixo o pacote laboral”. O tom é muito crítico em relação ao governo e rapidamente socorre-se das adjetivações para tentar provar o ponto: as medidas são “um retrocesso brutal”, que “não parecem do século XXI” e que mostram como está “tudo muito mal”. “Quero lutar pelos mais novos, claro”, vaticina.
Uns metros atrás, Alice Vieira, de 23 anos, agradece-lhe o gesto – é “babysitter” e ter um contrato de trabalho não passa de uma ideia “utópica”.
“Não só tira os sonhos aos jovens, como tira a vontade de viver cá em Portugal. Dá vontade de emigrar, que é o que está a acontecer”, aponta sobre o novo pacote de mudanças ao Código de Trabalho e que, em seu entender, mostra que “estamos prestes a perder direitos”.
Ao longo do percurso, o desfile (onde participou o secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira, e vários líderes partidários e candidatos presidenciais à esquerda) cruzou-se com várias lojas e restaurantes abertos, recheadas de funcionários a atender clientes. Na Rua do Carmo, parecia só mais um dia – mas quem foi trabalhar sabia ver as diferenças.
“Não queria ser descontada [no ordenado], mas sou super a favor da greve. Nós já ganhamos pouco e agora aumentar horas extra? Essas questões também dos contratos sem termo e poder demitir a pessoa a qualquer custo… Realmente, a gente tem de lutar”, afirmou Carolina, de 28 anos e maquilhadora, que aproveitou a pausa para almoço para ver os milhares de pessoas que gritavam contra a reforma laboral, com lemas como “Ninguém quis o pacto do Luís” ou “A greve é geral porque o impacto é brutal”.
A energia era tanta que, à chegada às escadarias da Assembleia da República, largas centenas de manifestantes continuavam de megafone em riste. Ana Ramos, trabalhadora do setor audiovisual e do cinema, ia olhando com orgulho para a mancha que, mesmo após a desmobilização das estruturas sindicais, continuava a protestar – e a assobiar quando membros das equipas da Iniciativa Liberal apareceram às janelas da Assembleia da República para matar a curiosidade.
“Eu acho que há pessoas que não fizeram greve que gostavam de ter feito greve e que estão a juntar-se agora. E acho que é uma maneira de chamar a atenção e ver se chega ao jornal da noite, não sei. É um reflexo do descontentamento, que só para o governo parece não existir”, afirmou, já com a mão no bolso. Começa a tocar “Liberdade” de Sérgio Godinho – é tempo de se juntar à multidão e levantar o telemóvel com a lanterna ligada.