Reportagem
Passar o Natal a milhares de quilómetros de casa. "É difícil a pessoa sentir-se bem quando não está junto da família"
16 dez, 2025 - 07:00 • João Maldonado (reportagem) , Diogo Casinha (sonorização)
Erineu e Steven, nascidos na Guiné-Bissau e no Senegal, vão passar o Natal longe dos seus. Trabalham e estudam em Portugal e os contactos de 25 de dezembro vão ter de se fazer, na melhor das hipóteses, através de videochamadas.
9 da manhã. Steven Lopes Tavares apresenta-se na Avenida Sidónio Pais para o trabalho voluntário que desempenha na Cáritas de Lisboa. Senegalês, com pai proveniente da Guiné-Bissau, em África cresceu como bilingue, a falar francês e criolo em casa. Mas o bichinho da língua portuguesa foi aparecendo e acabou a aterrar em Portugal com o intuito primeiro de a aprender. Chegou há 4 anos e 5 meses.
E a língua, essa que veio aprender, já domina, pelo menos a ouvido nu, como se um nativo fosse. “Ainda falta muito por aprender”, relata, classificando-se como uma pessoa extremamente perfecionista. No dia-a-dia usa todas as ferramentas de que dispõe para manter a curva de aprendizagem em altas, cumprindo principalmente um exercício: ler, ler muito. “Adoro ler e a leitura ajuda-me nesse sentido, a poder dominar a língua. Romances e livros no que respeita à minha área, a área de gestão, sobretudo a gestão orientada pelos recursos humanos, a gestão dos talentos. E livros sobre política, direito e áreas inerentes.”
Veio desafiado por familiares que vivem em Lisboa, deixando na terra-Natal a família nuclear. Mas a jornada de Steven fora do Senegal começou ainda antes. Passou por França e viveu em Lille com um tio. Depois de ter iniciado a licenciatura em Direito e Ciência Política no continente africano, foi em terras francesas que a concluiu – aproveitando uma bolsa de estudo.
A experiência foi boa, mas teve problemas de adaptação à nova nação – o primeiro contacto com a Europa. “É um país diferente em termos culturais. O Senegal é um país orientado pelo coletivismo, em França o país tende a ser mais orientado pelo individualismo. Lá partilhamos todos, tem aquele sentido de solidariedade entre a vizinhança”. Algo que raramente encontrou em Lille.
Chegado a Portugal, dominado o português, decidiu concluir um mestrado em Gestão de Recursos Humanos. Mais um passo numa caminhada que tenciona terminar ainda com um doutoramento. Para já, mantendo um outro trabalho, é na Cáritas que está, em regime de voluntariado, três dias por semana, tendo por missão organizar os dados da instituição em folhas de Excel, de acordo com os atendimentos que são feitos. “Vejo-me nos valores e sobretudo na missão da Cáritas, que é aqui combater a pobreza e sobretudo tentar mitigar a exclusão social. Há Caritas no Senegal e conheço pessoas que lá trabalham. Sempre gostei do trabalho que fazem. Aqui também dediquei o tempo livre que tenho para ajudar.”
Steven está a investir no caminho que escolheu, mas há épocas do ano em que o preço a pagar pesa mais. Por estar longe de casa, o Natal é uma delas. Ainda que desta vez, excecionalmente, o pai – diplomata – esteja em Portugal. “Mais um ano, porque já foram quatro anos sem passar o Natal junto com a minha família. No início é difícil, como é óbvio, passar uma festa tão grande longe da família", reconhece. "Mas sendo uma pessoa resiliente, sempre consegui lidar com isso. É para assumir o que estou a fazer.”
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No dia 25 deste mês, quando estiver na sua atual casa, irá aproveitar os benefícios da tecnologia para encurtar distâncias com a mãe. “Ter sempre a ligação com a família que lá está; tentar perceber de que é que precisam, em que posso ajudar ou, às vezes, simplesmente falar, porque é bom termos essa ligação", conta. Na melhor das hipótese, conseguem recorrer a uma videochamada. "Se não, falar, simplesmente por um telefonema e pronto.”
"Deus é pai, vai dar certo"
Um sentido prático que se reflete também na vida de Erineu Nhaga, nascido na Guiné-Bissau há 31 anos. Está há dois em Portugal.
Nem sempre foi fácil. “Cheguei cá sozinho e não tinha ninguém que me pudesse receber, tive de alugar um quarto e pagar três meses. Passado seis meses, estava a ficar sem dinheiro e pensava mesmo em regressar à Guiné, porque não tinha como, não tinha trabalho, não tinha nada. Disse 'não, Deus é pai, vai dar certo'." E deu mesmo. "No 1 de maio comecei a trabalhar numa empresa e até hoje estou como efetivo.”
O laboral é complementado, como no caso de Steven, com outros ofícios. Um mestrado em Estudos de Desenvolvimento e um segundo trabalho também na Cáritas de Lisboa – onde começou por ser voluntário. Agora é gestor de um projeto de empregabilidade para jovens em situação de vulnerabilidade social, dois dias por semana.
“Na Guiné trabalhava na Cáritas, quando terminei a minha licenciatura em 2019. Cheguei a Portugal em novembro de 2023 e inscrevi-me logo como voluntário”. Fraternidade, união, amor e paz são palavras que associa à instituição. “Há uma frase que me encanta muito: 'fazer bem, mas bem feito', que é o slogan da Cáritas.”
Para trás, como tantos outros imigrantes em Portugal, deixou os pais e um filha com quatro anos, a quem tenta ligar todos os dias, preferencialmente com recurso ao vídeo. Mas não é tarefa leve, sobretudo em tempo de "espírito natalino". Todos os sentimentos relacionados com a saudade e espoletados pela distância se acentuam nesta época do ano.
"Não é nada fácil distanciar-se da pessoa que nós amamos. Porque essa união, essa esperança, essa grandeza dentro da família", diz, é algo para festejar em conjunto. "É difícil a pessoa sentir-se bem quando não está junto da família”.
Mesmo que para um católico os ritos vividos sejam os mesmo, a cultura difere muito de nação para nação – quanto mais de continente para continente. “Na Guiné vê-se logo no início de dezembro pessoas a sentirem-se mesmo num ambiente de festa, vê-se pessoas de um lado para o outro, e sente-se mesmo que chegou um período em que todo o mundo vai-se sentir bem.”
As diferenças estendem-se também à hora das refeições. Na Guiné-Bissau, explica, todos fazem um enorme esforço para conseguirem comprar comida mais rica nos mercados – o que não acontece no resto do ano. Mas há tradições que se mantêm inalteradas – e bem diferentes das que testemunha em Portugal. “Nós na Guiné não temos essa coisa, por exemplo, de sobremesa.” Também não há entradas. E jantar ou almoçar ao redor de uma mesa também não é bem como se imagina. “Nós não temos assim essa tradição de comer à mesa, nós comemos no mesmo prato". O equivalente à "tradição europeia de comer à mesa" é, na Guiné, "uma família comer no mesmo prato grande”.
Com ou sem lugares marcados numa mesa bem posta, Erineu e Steven estarão longe das famílias neste Natal – e vão ter de se socorrer dos telemóveis para ver os mais próximos, no dia mais clássico de união familiar pela tradição cristã.
















