Saúde

Fotografar um sinal e detetar cancro de pele? Plataforma "made in Portugal" agiliza diagnóstico

17 dez, 2025 - 07:25 • Catarina Magalhães

Com uma taxa de 90% de confiança, reduzir dúvidas dos médicos de família e atrasos no diagnóstico são os principais objetivos da tecnologia "Dermamatica", que pode vir a ser implementada em Portugal.

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Quando um paciente suspeita que uma mancha na pele possa ser cancro de pele, é habitualmente avaliado por um médico de família, que pode descartar um caso de risco.

Para reduzir possíveis dúvidas dos médicos e atrasos no diagnóstico, nasceu o projeto “Dermamatica”. A Renascença falou com um dos quatro criadores da plataforma, Sam Izadloo, investigador e estudante iraniano de medicina, na Universidade Católica Portuguesa.

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Com um algoritmo e base de dados originais construídos em Portugal, esta tecnologia utiliza inteligência artificial para detetar melanomas e planeia ser um equipamento médico utilizado nas unidades locais de saúde em Portugal.

Basta uma fotografia para diagnosticar um melanoma?

Ao fotografar um sinal, a “Dermamatica” lança uma pontuação, acompanhada por um mapa de calor sobre os possíveis pontos para tratamento.

Com uma taxa de 90% de confiança, o projeto explica ao médico as características específicas que motivam o resultado, sem ser necessariamente um resultado “positivo” ou “negativo”.

“Não dizemos se as lesões são malignas ou benignas, mas ajudamos a classificar e explicamos o porquê de ser um sinal de alto ou baixo risco”, explicou à Renascença Sam Izadloo, um dos quatro criadores da plataforma.

E se o resultado for inconclusivo? “No caso de a máquina estar na dúvida, programamos um ‘falso positivo’. É melhor esse ‘erro’ do que perdermos o rasto do paciente”, explica.

Para além disso, o sistema foi construído com 520 mil fotografias de estudos internacionais e, depois do registo, a aplicação mostra ao médico fotografias de casos semelhantes aos do doente.

“Exibimos lesões cutâneas que foram previamente biopsiadas para que o profissional possa comparar e tirar as suas próprias conclusões", refere Sam Izadloo.

Mecanismos de triagem semelhantes já começam a funcionar em Portugal, mas são soluções adquiridas do mercado externo. O Hospital Amadora-Sintra comprou um projeto estrangeiro e pretende "ir mais além", confirmou à Renascença o dermatologista da unidade lisboeta, Tomás Pessoa e Costa.

“Faz mais sentido ser o doente a usar a aplicação", contraria o especialista, acrescentando que "é preciso parar de sobrecarregar os centros de saúde."

“Como temos uma rede 'cheia de buracos', onde não temos médicos de família nem dermatologistas suficientes, nem sequer sabemos por onde os doentes andam”, refere Tomás Pessoa e Costa, em declarações à Renascença.

Porém, a "Dermamatica" acredita que não está no lugar do paciente interpretar os sinais do seu corpo, sem acompanhamento médico. Em vez de um paciente ser examinado por um dermatologista meses ou até anos mais tarde por um falso despiste, o médico de família pode ajudá-lo, mesmo sem conhecimento aprofundado da doença.

O dermatologista Tomás Pessoa e Costa reprova esta solução: “é uma situação muito injusta, porque exigimos que os médicos de família de medicina geral e familiar sejam especialistas em tudo e, na verdade, deixamo-los descalços e os pacientes podem ficar mais meses à espera por uma consulta de especialidade”.

O sistema planeado para o Amadora-Sintra vai estar nas mãos do paciente, mas, antes de qualquer fotografia, submete o utente a um questionário para evitar que o projeto se torne "absolutamente insustentável".

"O sinal está a crescer?" "Tem várias cores?" "Está a sangrar ou tem uma ferida? "É redondo ou assimétrico?" ... estas são algumas das questões preparadas para que seja marcada uma consulta no serviço de dermatologia mais próximo para o doente identificado, avançou o dermatologista.

Ainda assim, Pessoa e Costa não é "otimista ao ponto de achar que a tecnologia possa salvar o Serviço Nacional de Saúde (SNS)", alertando que é difícil implementar estas inovações no país.

“Não estamos a substituir o trabalho de ninguém"

O investigador e estudante iraniano de medicina, na Universidade Católica de Lisboa, começou os trabalhos desta start-up há um ano e meio enquanto estagiava numa unidade hospitalar da capital.

Confrontado com o caso de uma doente que foi encaminhada tarde demais para a unidade de dermatologia devido a um diagnóstico errado de um médico de família, Izadloo diz acreditar que este projeto “tem um grande potencial para salvar vidas”, principalmente no setor público.

Já em fase de testes, “o objetivo é estar no mercado português, mas também na União Europeia e até Ásia”.

Porém, o estudante reconhece que ainda são poucas as soluções de inteligência artificial implementadas nos consultórios portugueses. “Para muitos médicos, a inteligência artificial é uma caixa-negra", admite o investigador.

Apesar de acreditar que o mecanismo possa despertar alguma desconfiança para os profissionais de medicina geral, Sam Izadloo esclareceu que o médico vai continuar a ter a última palavra.

“Não estamos a substituir o trabalho de ninguém, apenas queremos dar apoio e maior confiança na primeira vistoria aliada ao conhecimento adquirido pela experiência", sublinha.

Já perante o impacto ambiental dos mecanismos de inteligência artificial, o criador disse que a equipa está "totalmente consciente e preparada de como uma ferramenta tão poderosa possa ter prejuízos e cometer erros”.

Promovido na conferência “Web Summit” deste ano em Lisboa, “Dermamatica” ambiciona, assim, “revolucionar a forma como Portugal faz o diagnóstico e tratamento do cancro da pele”.

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