Reportagem

Igreja do Catujal tem "miminhos" no Natal para as famílias. "É uma ajuda extra que a paróquia nos dá"

19 dez, 2025 - 13:13 • João Cunha

No Catujal, em Loures, há famílias que recebem, mensalmente, um cabaz alimentar. Em dezembro, por causa do Natal, há "miminhos" deixados pelos voluntários da paróquia, uma das mais pobres da Grande Lisboa.

A+ / A-
Reportagem na Igreja do Catujal
Ouça aqui a reportagem na Igreja do Catujal

O som dos aviões na aterragem para o Aeroporto de Lisboa obriga a suspender, por momentos, a conversa entre quem se concentra numa das portas laterais da Igreja de São José da Nazaré, mais conhecida como Igreja do Catujal.

Um voluntário da paróquia está a entregar as senhas, à vez, para a distribuição de cabazes com comida, fornecida pelo Banco Alimentar. Este cabaz, o único entregue este mês, é diferente, não estivéssemos nós próximos do Natal.

Isabel é uma das primeiras da fila, mais ou menos organizada, que se vai formando, à medida que vão chegando mais beneficiários. Ao todo, são 25 famílias que vêm buscar leite, bananas, iogurtes, azeite, óleo, bolachas, cereais, papas para bebés e muito mais.

Uma ajuda muito importante, “e nesta altura do Natal, mais ainda”, explica Isabel. “É quando tentamos reunir a família. É uma ajuda extra que a paróquia nos dá.” Sobretudo nesta altura, em que os tempos “estão a ser muito difíceis, muito difíceis mesmo”.

“Mas eu, pelo menos, tento conciliar as minhas coisas. Conciliar o meu ordenado com as minhas despesas. Eu consigo dar a volta”, garante Isabel, que aponta para a filha, ali ao lado, encostada a um muro. “A minha filha está desempregada neste momento outra vez. Tenho um filho que está a trabalhar e que ajuda nas despesas. Tenho uma renda de 400 euros, tirando o resto. Mas lá vou conciliando as coisas.”

Lá vai fazendo das tripas coração para viver. Ou sobreviver.

Atenta à conversa está Maria Alice, que veio acompanhar uma amiga e ajudá-la, com o seu carro, a levar os sacos com a ajuda alimentar para casa. Começa a conversa a explicar que foi doente oncológica.

“Eu tive um cancro e precisei muito e tive a ajuda de Nossa Senhora de Fátima. Foram as horas mais difíceis da minha vida. Pensei que iria para lá… Mas felizmente estou cá e bem”, garante, soltando uma gargalhada das que se dá quando estamos nervosos e apreensivos.

Consegue perceber a importância desta ajuda, porque também ela passou grandes dificuldades.

“Consigo, sim. Aquelas crianças que não podem, que não têm nada, uma ajuda, um pão, um iogurte, esta ajuda é boa. Eu já passei por isso, valeram-me os meus pais”, admite.

“Sei o que é os filhos chegarem a casa, quererem pão e não terem. E isso acontece aqui na nossa paróquia. Sei de algumas pessoas que estão assim”, lamenta.

Esta é uma ajuda que faz toda a diferença, admite Evandra, também ela beneficiária. “Faz muita diferença. Em 2022 tive um problema de saúde, que me obrigou a ficar sem trabalho. Tive um cancro. Precisei dessa ajuda e estou cá até hoje.”

Também ela vive tempos difíceis.

“Mudei de casa na mesma altura em que descobri a doença. Pagava uma renda de 350 euros, neste momento estou a pagar 700 e tal euros" no Bairro das Queimadas, conta à Renascença.

"Tenho três filhas. A mais velha já não está comigo. Tenho a do meio com 23 anos, já trabalhou e está sem trabalho outra vez. Tenho uma pequenina com 8 anos e tenho o meu marido, que está reformado com uma reforma de 400 e pico euros. Não chega para pagar a renda”, lamenta.

Superou a doença e já regressou ao trabalho, “mas não a cem por cento”, por causa das limitações que tem.

“Estou a adaptar-me ao serviço, com os tratamentos que estou a fazer. E estou à espera de mais uma cirurgia, para ver se isto fica resolvido. Espero que sim”, diz, sorrindo.

Lá passa mais um avião. Ali, no Catujal, as barracas que foram demolidas, há uns meses, ao cimo da rua, ainda concentram algumas conversas. As primeiras barracas do bairro do Talude estão logo ali, no cimo da colina. E quem vive cá em baixo sabe pouco sobre estes vizinhos.

Ainda assim, Evandra deixa uma certeza: "Esta zona onde está inserida esta paróquia é uma zona acolhedora, de família. Que acolhe todos e abraça todos, são uma comunidade para todos."

Os cabazes entregues na Igreja do Catujal    Foto: João Cunha/RR
Os cabazes entregues na Igreja do Catujal Foto: João Cunha/RR
Presépio na Igreja do Catujal    Foto: João Cunha/RR
Presépio na Igreja do Catujal Foto: João Cunha/RR
Igreja de São José da Nazaré, Catujal.  Foto: DR
Igreja de São José da Nazaré, Catujal. Foto: DR

Para todos, muito diversa e uma comunidade pobre, como lembra o Padre Rui Cantarilho, responsável pela Igreja do Catujal. "São vários bairros com muitos imigrantes, também com população de vários cantos do país, desde o Alentejo ao norte. E é uma comunidade pobre. Vê-se que têm dificuldades, é gente com baixo poder de compra. São gente generosa, que dá o que pode, de bom coração. Dá o que pode, dentro das suas possibilidades, mas sabemos as suas possibilidades são muitas vezes pequenas".

Por isso ali estão algumas dezenas de pessoas da comunidade para receber o cabaz alimentar.

A situação económica da grande maioria dos residentes na zona também se reflete na igreja, que tem uma dívida de algumas dezenas de milhares de euros ao banco, pelo dinheiro pedido para a construção da igreja.

"Ao mês, só para pagar essa divida são necessários cerca de 1.500 euros. Depois, para mais despesas diversas a nível da paróquia são precisos mais mil euros. Há que perceber que a paróquia precisa, por mês, de quase 3 mil euros para sobreviver", alerta o Padre Rui, que há um ano chegou a esta paróquia, vindo de Arranhó e São Tiago dos Velhos, tendo estado há 15 anos na paróquia de Queluz.

Tem também à sua responsabilidade a paroquia de Unhos, mais rural, com mais fiéis e onde está a Igreja matriz e que vai acolher a tradicional Missa do Galo. E, mais uma vez, como no ano passado, haverá algo de pouco habitual para quem não é da zona.

O Padre Rui Cantarilho confessa que ficou surpreendido, no ano passado, quando viu muita gente a sair às ruas para ir à Missa do Galo, na noite de 24 para 25. "O autocarro que passa aqui na zona do Catujal-Unhos, a ligar vários bairros, vinha cheio de gente para a Missa do Galo, ou seja, usa-se o transporte público para se descolarem naquela noite à Missa do Galo. Foi uma missa muito bonita, uma celebração de igreja cheia, com as duas comunidades. E este ano já a estamos a preparar."

No interior da igreja, perfilam-se os sacos com ajuda alimentar que cada família virá levantar. A carregá-los para um carrinho de supermercado de forma a poder levá-los para outra porta da igreja, onde serão entregues, está um grupo de paroquianos voluntários que organiza a entrega.

Maria Manuela Rodrigues é uma dessas voluntárias. Sabe que esta ajuda faz muita diferença.

"Faz, faz. Mas mesmo muito grande. Nesta altura do Natal, tentamos sempre arranjar mais um miminho. Como conheço as carências das pessoas, tento dividir. Vou dar mais um bocadinho, porque tem mais crianças", acrescentando que "há muitas pessoas que nem são filhos, são netos" que estão a seu cargo. "E eu tento dar mais um miminho porque sei as dificuldades que passam", conta.

Emociona-se. Respira fundo e admite que recebe muito mais do que dá. E enquanto puder dar o seu tempo para ajudar o próximo, ali estará. "Eu faço isto com muito coração e emociono-me a falar nisto. Há muita gente que está à nossa espera".

E esses, os que estão à espera, muitos deles estão sozinhos.

"Não tem um miminho, não tem um carinho. São carentes, estão sozinhas, os filhos trabalham e, às vezes, não têm um carinho. A gente sabe que, por vezes, insistem sempre na mesma coisa", falando sempre do mesmo assunto, mas porque "não têm com quem falar".

"Isso emociona-me muito e tento lá ir dar um miminho. Basta um abraço."

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Naioncan Mancabo
    20 dez, 2025 Unhos, Catujal 00:29
    É um gesto muito louvável. Tem muita gente precisando e isso faz muita diferença na vida das pessoas que o recebam. É a minha paróquia também, e aprecio muito a simplicidade e o amor que os paroquianos têm uns para com os outros e com todos que lá chegam.

Destaques V+