Entrevista a José Gil
"O momento em que as máquinas vão ter hegemonia sobre os homens já está a ser fabricado"
19 dez, 2025 - 06:30 • Ana Catarina André
O filósofo José Gil considera que as sociedades não estão conscientes do real impacto da inteligência artificial na história da humanidade. Defende que “o que anuncia e propõe o discurso da extrema-direita é desumanizante” e teme um futuro “em termos muito piores do que aqueles que aconteceram com o Holocausto”.
José Gil, filósofo, ensaísta e professor, afirma, a propósito dos avanços da inteligência artificial (IA), que “o que se prepara é uma transformação da subjetividade como nunca se operou na História” e alerta para o modo como “condiciona e fabrica os nossos desejos”.
Em entrevista à Renascença, José Gil, considerado um dos 25 grandes pensadores do mundo pela revista francesa "Le Nouvel Observateur", diz que é possível estabelecer paralelismos entre o atual contexto internacional e o período que antecedeu a II Guerra Mundial e refere, ainda, que Donald Trump “está-se nas tintas para as mortes em Gaza e na Ucrânia”. “O que lhe interessa é negócio”, sublinha o autor de livros como “Portugal, Hoje. O Medo de Existir”.
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Estamos numa época do ano, o Natal, em que parece haver uma certa predisposição das pessoas para o tema da paz. Como é que interpreta isto?
Não sei bem se, realmente, há uma grande atenção ao tema da paz, mas o que me parece é que a greve geral, tal como ela se desenvolveu, é o sinal de que há uma espécie de resistência automática dos sindicatos e das pessoas a uma captação do protesto social pela política de direita.
Neste sentido, vejo o que está a acontecer como evidentemente um protesto contra as condições sociais, as condições que fazem com que um 1/5 da população esteja no limiar da pobreza ou na pobreza, o que é imenso, mas também [como um] querer manter uma certa distância com o que está a causar estragos na política habitual sindical, na política social dos partidos, que é o tema da extrema-direita, do Ventura, do Chega, à volta da imigração, sobretudo, e da corrupção, mas sobretudo da imigração, tema que atrai extraordinariamente.
É um foco, um atractor do descontentamento social antigo, que se manifestava através de manifestações de sindicatos, que agora está a ser absorvido. Veja-se o comportamento do Ventura relativamente à greve geral – vejo isso como um anúncio para um futuro perturbador para o protesto social e a manifestação dos direitos das pessoas.
Greve geral? Há uma espécie de resistência automática dos sindicatos e das pessoas a uma captação do protesto social pela política de direita
Dava este exemplo da greve geral como demonstração ainda de algum traço, digamos assim, de vivacidade da sociedade civil, ou, por outro lado, falava antes deste aproveitamento que houve da greve geral?
A greve geral justifica-se enquanto greve geral, mas justifica-se e ao mesmo tempo toda a gente aponta para a estranheza do timing desta greve, enquanto há negociações, etc. Bom, mas o que me parece é que há aqui a vontade de afirmar uma independência, não é tanto da sociedade civil, é das organizações políticas e dos sindicatos para mostrar a sua distância em relação ao protesto que está a criar uma chapa que absorve todo o tipo de protesto em Portugal, que é o protesto da extrema-direita.
Falando do avanço da extrema-direita no mundo, considera abusivo estabelecer-se um paralelismo entre o atual contexto e o período que antecedeu a Segunda Guerra mundial?
Não. Evidentemente há imensas repetições. O que se está a passar na extrema-direita agora repete no discurso, na prática política, imensos temas do que se passou no fascismo dos anos 20, 30, na Europa. Simplesmente a coisa mudou muito e está a mudar. Elencar as mudanças seria muito longo e seria objeto de um estudo propriamente dito, mas vou dar-lhe um exemplo, um pequenino exemplo. O Nazismo, o Fascismo, o Estalinismo, enquanto poderes totalitários, tiveram uma enorme preocupação com a cultura. Tinham uma cultura de substituição relativamente à cultura dita burguesa.
Sabemos tudo o que se passou à volta da cultura através de muita gente, Goebbels, Himmler, etc. Porquê? Porque eles queriam realmente apresentar um projeto de sociedade com uma cultura, com valores morais, com princípios, etc.
Repare agora o que está acontecendo na extrema-direita mundial. Eles não têm, ou se têm, não podem criar um projeto cultural, nem uma visão da cultura. Entre a cultura e a extrema-direita atual há um fosso que se criou. Eles não têm cultura. Agora, porquê e o que é que vem aí é outra coisa. Teríamos de discutir isso.
O que anuncia o discurso da extrema-direita é desumanizante. E o que vem, depois, virá em termos muito piores do que aqueles que aconteceram com o Holocausto
Olhando para os conflitos mundiais atuais, para a polarização que atravessa as nossas sociedades, para o excesso de informação, parece-lhe que podemos falar de uma desumanização global, no sentido da perda do valor da pessoa humana?
Não ponho a questão assim. Isso é o que constitui o ponto de partida da crítica à extrema-direita, ao populismo e à demagogia neofascista do ponto de vista do humanismo e da democracia conservadora, humanista, etc. Ora, o que me parece, e nisso estamos de acordo do ponto de vista dessa visão humanista, é que o que está a vir aí, e o que anuncia e propõe o discurso da extrema-direita é desumanizante, absolutamente. E o que vem, depois, virá em termos muito piores do que aqueles que aconteceram com o Holocausto, etc. Muito piores.
Olhe-se, por exemplo, para a visão geopolítica e para o que ela traduz de visão do homem na política internacional de Trump. [O presidente dos Estados Unidos] está-se nas tintas para as mortes em Gaza, na Ucrânia. O que lhe interessa é negócio. Há uma nova pragmática, ironicamente com outros princípios, que são os do economicismo mais brutal. Nesse aspeto é uma resposta à sua pergunta.
Estamos numa época de largos avanços da inteligência artificial. Estamos a conseguir ler, enquanto sociedade, os sinais dos impactos profundos que esses avanços vão ter na vida de todos nós?
De maneira nenhuma, precisamente, não estamos. Os alertas que se levantam vêm de pensadores, de políticos do Canadá, dos Estados Unidos, pouco na Europa, pouco na América do Sul. Estou a pensar, por exemplo, em pessoas como a Naomi Klein ou mesmo o Yanis Varoufakis. O Bernie Sanders também fala disso.
O que se anuncia é absolutamente terrível e pode ser terrível, porque, como mostram o Varoufakis e a Naomi Klein, o que se prepara é uma transformação da subjetividade como nunca se operou na História. A maneira como a inteligência artificial e os dispositivos de inteligência artificial vão entrar na nossa vida íntima, como não só condicionam os nossos desejos e fabricam os nossos desejos, vai fazer como se fôssemos nós próprios a fabricar os mais íntimos dos nossos desejos e a realizá-los através das grandes tecnológicas da inteligência artificial que vão distribuir e fornecer os bens que desejamos.
Isso vai transformar a educação, a justiça, a sociedade civil enquanto comunidade. Está a transformar em indivíduos separados, as famílias lidando com informações e dando informações cada vez mais a um sistema de inteligência artificial e robótica que, ao mesmo tempo, vai possivelmente mandar completamente na economia, na subjetividade humana, aquilo que os cientistas apontam e nomeiam como singularidade.
O momento em que as máquinas vão ter a hegemonia total ou quase total sobre os homens, as mentes, o inconsciente humano, vai ser e já está a ser fabricado. A potência enorme da Amazon, nos Estados Unidos, o poder industrial que se estende por todos os ramos da produção é absolutamente extraordinário, mas falemos também noutras – são enormes potências industriais que estão a ser geridas cada vez mais e comandadas pela inteligência artificial.
O que se prepara é uma transformação da subjetividade como nunca se operou na História
Ao mesmo tempo que se dá esta transformação da subjetividade, como referia, podemos também perder valores comuns?
O comum está desaparecendo. Reenvio-a para o Varoufakis. O seu livro, mundialmente célebre, discutível, controverso, que se chama o "Tecnofeudalismo", mostra como de cada vez que há uma etapa de sofisticação e complexificação da máquina capitalista (ele chama-lhe fim do capitalismo), e a ascensão da inteligência artificial, há um saque do bem comum.
Por exemplo, a Internet, que foi apropriada pelas tecnológicas, Google, etc., etc., era primeiro um bem comum, mas foi porque foi apropriada, que se reformou então esta engrenagem da exploração pela inteligência artificial. A exploração tem uma História, aquilo que Marx chamava de exploração do homem pelo homem tem uma história e agora chegou a uma espécie de cume especial, próprio, específico, em que é o próprio homem a explorar-se a si próprio – extraordinário – através das máquinas.
E esse cume tem como próximo passo o abismo? Já disse, por diversas vezes, que o século XXI perdeu a alma. Partilha de uma perspetiva pessimista da evolução da humanidade?
Não gosto de entrar em discussões sobre pessimismo. Estar a discutir o pessimismo é desprender-se do presente e o que interessa é o nosso presente. Simplesmente o que se vê no futuro é simplesmente um desenvolvimento que diremos imparável do poder da inteligência artificial sobre toda a vida social e individual. Está em jogo a democracia e que forças há. Não são as forças do proletariado antigo, não são as forças dos partidos democráticos que vão poder reformular a democracia. Falava há bocado de um bem comum básico, mas o bem comum básico nós temos de o delimitar e definir. Sobre todas as falhas e fracassos dos valores, o que é que fica como resíduo básico, sem o qual o homem não pode existir?













