Educação

IA nas escolas: milagre educativo ou caminho para o desastre? OCDE alerta para "preguiça metacognitiva"

19 jan, 2026 - 18:33 • Fábio Monteiro

Relatório da OCDE defende que a inteligência artificial deve ser integrada no ensino com cautela. Governo pede adaptação, mas dezenas de professores querem a proibição imediata da IA nas universidades portuguesas.

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O impacto da Inteligência Artificial (IA) no ensino é um tema quente. E a publicação do relatório Digital Education Outlook 2026, da OCDE, esta segunda-feira, veio deitar mais algumas achas para a fogueira do debate.

Enquanto a OCDE recomenda o uso cauteloso da IA generativa como apoio à aprendizagem, em Portugal, o relatório dividiu o sector: o Governo apelou à adaptação das escolas, mas dezenas de professores universitários exigem a sua proibição imediata, alertando para riscos cognitivos e éticos.

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O uso da IA nas escolas garante melhores notas?

Depende. A IA pode melhorar o desempenho imediato, mas prejudicar a retenção de conhecimento a longo prazo. Um estudo na Turquia, com mil alunos, revelou que o acesso ao GPT-4 melhorou o desempenho imediato em matemática até 127%. No entanto, "os alunos tiveram um desempenho 17% pior assim que o acesso foi removido".

Segundo o relatório da OCDE, "quando utilizada como um atalho e não como uma ferramenta de aprendizagem, a IA generativa pode deslocar o esforço cognitivo e enfraquecer as competências que sustentam a aprendizagem profunda".

O que diz o Governo português sobre a IA nas escolas?

O ministro da Educação, Fernando Alexandre, afirmou esta segunda-feira que a IA "é uma realidade que não pode ser ignorada". Para o governante, "o que temos de fazer é, com essa mudança tecnológica, termos a capacidade de, seja com a formação dos professores, seja na alteração dos métodos de ensino, seja na alteração dos próprios currículos, aproveitarmos as oportunidades que essa mudança nos traz".

Acrescentou ainda que "com as estratégias adequadas, esses riscos podem ser minimizados e os benefícios podem ser maximizados".

Um tutor de IA pode ensinar melhor do que um professor?

Em alguns contextos, sim. Um ensaio clínico da Universidade de Harvard mostrou que alunos acompanhados por um tutor de IA alicerçado no método socrático "alcançaram ganhos de aprendizagem que foram mais do dobro dos do grupo de aprendizagem ativa" e fizeram-no em "significativamente menos tempo".

A vantagem, segundo o estudo, está na "hiperpersonalização", onde a IA "aborda conceitos errados específicos que um professor de sala de aula não consegue abordar individualmente para cada aluno em simultâneo".

Os estudantes conseguem reter o que aprendem com a ajuda da IA?

Nem sempre. Num estudo com estudantes de cinco universidades norte-americanas, os alunos que utilizaram IA generativa para escrever um ensaio obtiveram melhores classificações, mas "apenas 12% do grupo que usou IA conseguiu recordar o que tinha escrito uma hora depois, em comparação com 89% dos outros grupos".

A OCDE alerta para a "preguiça metacognitiva", um fenómeno em que os alunos demonstram uma "preferência por respostas rápidas e eficientes em vez de um raciocínio lento e esforçado".

A IA está a gerar um colapso cognitivo no ensino superior?

É essa a convicção de dezenas de professores de instituições de ensino superior portuguesas, que subscreveram um manifesto contra o uso da IA generativa nas universidades. O documento apela a "promover a humanização do ensino superior e banir o uso da inteligência artificial generativa (IA) nos processos de ensino-aprendizagem", argumentando que os estudantes são hoje "as grandes vítimas do mundo digital".

Segundo os subscritores, os alunos "veem os seus métodos de trabalho e estudo ser permanentemente soterrados por grandes modelos de linguagem e chatbots que operam enquanto fábricas de produção de lugares-comuns, banalidades, arquiteturas tecnológicas promotoras de fraude e plágio em série". O resultado, lê-se no texto, é a transformação dos jovens em "cretinos digitais".

Os professores também são afetados pela Inteligência Artificial?

Sim. O manifesto refere que a situação dos docentes "não é melhor", já que também eles são atingidos pelo "dilúvio digital". Denunciam a crescente dificuldade em "identificar com rigor práticas académicas fraudulentas" e criticam as universidades por terem adotado, "com receio de perder o comboio do progresso", uma política "suicidária de portas abertas".

Segundo o documento, as instituições limitam-se a "regurgitar vagas declarações de intenções, orientações, regulamentos, despachos, circulares, a promover conferências, workshops e a criar grupos de trabalho de eficácia tendencialmente nula".

Deve a IA ser proibida nas universidades?

Para os autores do manifesto, "o caminho, estreito e não isento de riscos, tem de passar necessariamente pela suspensão generalizada do uso deste tipo de ferramentas nos processos de ensino-aprendizagem". Entre os subscritores estão nomes como Viriato Soromenho-Marques, Raquel Varela, João Teixeira Lopes, Elísio Estanque, entre outros docentes de universidades e politécnicos de todo o país.

Como está a IA a transformar o trabalho dos professores?

Apesar das críticas, há quem veja na IA uma aliada para aumentar a produtividade. Atualmente, "37% dos professores já utilizam IA generativa para tarefas relacionadas com o trabalho", indica o relatório da OCDE.

No Reino Unido, um estudo com docentes de ciências revelou uma "redução de 31% no tempo gasto pelos professores no planeamento de aulas e recursos". Já o Tutor CoPilot, descrito como um "segregador em tempo real para um tutor humano", ajudou tutores com menos experiência a aumentar as taxas de aprovação dos seus alunos em nove pontos percentuais.

A IA pode ajudar a reduzir o fosso digital em países com menos recursos?

Sim, através de tecnologia "offline". O relatório da OCDE destaca o potencial dos "pequenos modelos de linguagem (SLMs) que funcionam offline em dispositivos móveis".

No Brasil rural, experiências demonstraram que a IA pode atuar como um "parceiro de estudo socrático sempre disponível", mesmo em zonas com conectividade limitada, contribuindo para "colmatar os fossos digitais".

A IA também está a ser usada na gestão de escolas e universidades?

Sim, segundo a OCDE. A IA está a ser aplicada em tarefas administrativas complexas, como "mapear equivalências entre cursos e programas, tornando tarefas como admissões, orientação de carreira e análise curricular mais rápidas e precisas". Estudos mostram que estas ferramentas são "tão precisas quanto o julgamento humano na identificação de equivalências".

Além disso, permitem prever o volume real de trabalho dos estudantes, revelando que os alunos do primeiro semestre de áreas científicas (STEM) enfrentam frequentemente as "cargas de trabalho mais pesadas, apesar do baixo número de créditos".

O que reserva o futuro?

A OCDE defende que a IA deve ser vista como uma ferramenta de "potenciação" e não de substituição". O modelo ideal é aquele em que "professores e IA trabalham em conjunto, criticando e refinando os resultados mútuos". Mas o relatório deixa um aviso: "a motivação, as relações e a aprendizagem socioemocional continuam a ser responsabilidades inerentemente humanas", que a tecnologia não consegue replicar com a mesma credibilidade.

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