24 jan, 2026 - 08:30 • Cristina Nascimento
Não gostar de matemática ou aceitar que é inevitável ter má nota a matemática são posturas que ainda estão normalizadas e são passadas de geração em geração. O cenário é traçado por Rogério Martins, professor de Matemática na Nova FCT.
“Ainda persiste essa ideia de que é aceitável não gostar de matemática”, afirma em entrevista à Renascença, apesar de reconhecer que hoje é “mais fácil ver pessoas a assumir que gostam de matemática”.
No Dia Internacional de Educação, o docente rejeita explicações simplistas sobre a existência de fracos resultados escolares. “Dizer que a culpa é dos alunos ou dos professores parece-me redutor”, sublinha, apontando a complexidade de um problema que envolve a abstração da disciplina, a ansiedade associada, e fatores sociais.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
Rogério Martins considera que professores e alunos têm feito esforços, mas alerta para desigualdades crescentes. Com o impacto da tecnologia, “é possível que os melhores alunos estejam cada vez melhores e os piores cada vez mais atrás”, o que faz com que “o aluno médio esteja cada vez mais afastado da média”.
Crítico de um ensino excessivamente orientado para exames, defende que muitos alunos acabam por “aprender a responder a umas quantas coisas” sem compreender em profundidade. Aponta ainda a instabilidade dos programas como um problema político central: “Os programas oscilam em função do Governo”, o que cria uma “fonte de instabilidade permanente” no ensino da matemática.
Ainda persiste aquela noção de que não gostar de matemática é aceitável? É possível aprender a gostar de matemática na escola atual?
Sim, a minha perceção é que ainda persiste essa ideia de que é aceitável não gostar de matemática e essa ideia talvez ainda tenha uma maior profundidade, digamos, na nossa população, porque temos uma geração anterior que não gostava de matemática e que continua a transmitir essa ideia para a nova geração.
Comparando a altura em que eu era estudante com a forma como os estudantes hoje veem matemática, o que sinto é que os nossos jovens são mais diversos. Quando eu era estudante, tínhamos os nossos grupos: os “betinhos”, os “heavy metal’s” e não era muito mais do que isso.
Eles hoje têm referências muito mais globais, que vêm do YouTube, das redes e de tudo o que têm online. São mais diversos entre eles e aceitam mais a diferença entre eles. Eu acho que isso tem uma consequência também para a matemática. Hoje em dia é mais fácil ver pessoas a dizer e a assumir que gostam de matemática, até mesmo, muitas vezes, pessoas que nós não estamos à espera.
Ainda assim os resultados escolares a nível da matemática continuam a ser, no mínimo, desconsoladores. Quem é que está a falhar mais na matemática em Portugal? Os alunos, os adultos que elaboram os currículos ou os adultos que lecionam as aulas? Quem é que, neste ecossistema matemático, está a falhar mais?
Eu acho que é difícil responder essa pergunta, no sentido em que isto é um ecossistema muito complexo. Há coisas que são simples de resolver. Essas já foram resolvidas. Depois há as coisas complicadas que ainda não foram resolvidas, em particular este problema da matemática, que é um problema muito complexo, que tem muitas vertentes. Dizer que a culpa é dos alunos ou dos professores parece-me um bocadinho redutor.
É simplesmente causa de muitas coisas.
A matemática vai ter sempre uma componente abstrata e o nosso cérebro não está assim tão adaptado, originalmente, para trabalhar com a abstração da matemática.
Por exemplo?
A matemática é muito abstrata e isso torna o seu estudo difícil. E não há volta a dar. Por mais que tentemos colocar a matemática em perspetiva, mostrar o lado mais prático de aplicações e de relação com o dia-a-dia, no final, a matemática é abstração.
Isso é um problema. Não quer dizer que não possa ser trabalhado. Aliás, o meu trabalho tem sido, nos últimos anos, essencialmente ligar a matemática à vida real. Mas a matemática vai ter sempre uma componente abstrata e o nosso cérebro não está assim tão adaptado, originalmente, para trabalhar com a abstração da matemática.
Esta é uma das razões. Depois temos, por exemplo, esta razão que ainda há pouco falávamos, do facto da sociedade acabar por transmitir à nova geração sempre aquela atitude de “eu também fui mau à matemática, portanto, não te preocupes”.
Depois, a matemática normalmente também é considerada muitas vezes — demasiado até, na minha opinião — uma medida da nossa inteligência que faz com que as pessoas sintam mais stress e mais ansiedade quando estão expostas à matemática e que não se sentem quando estão expostas a outros tipos de matérias. Isso agrava a situação.
Ensino Superior
Professor universitário entrevistado pela Renascen(...)
Mas os professores e os alunos estão a fazer o que lhes compete?
Eu acho que há um esforço dos dois lados. Acho que os professores estão a adaptar-se aos tempos em que vivemos, a aproveitar os recursos digitais e a potencialidade da tecnologia. Não acho que a escola esteja estagnada, porque, de facto, se nós nos lembrarmos de como era a escola há 30 anos, não tem nada a ver com a escola dos nossos filhos atualmente.
Há cada vez mais materiais e recursos disponíveis e recursos cada vez melhores, dentro e fora da escola. Nós hoje temos, não sei, só para mencionar o YouTube, temos canais de uma qualidade brutal comparada com o tipo de recursos que tínhamos. Antigamente, se eu quisesse saber qualquer coisa assim mais específico — e tivesse um pouco mais de curiosidade e quisesse ir um pouco além do programa ou qualquer coisa —, eu tinha de ir para a biblioteca.
Quanto aos alunos, acho que, na verdade, também estão a corresponder. Acho que estão a trabalhar muito mais e estão a preparar-se muito melhor. O acesso ao Ensino Superior é cada vez mais apertado e eles começam cada vez mais cedo a tentar tirar boas notas. Portanto, eu acho que a culpa não pode ser dos alunos. Os alunos estão a trabalhar cada vez mais, eu acho, em média.
Provavelmente, o que se chama o problema do ensino da matemática, será um problema que se vai manter ao longo dos tempos e provavelmente nunca terá uma solução, porque, afinal, estudar é difícil.
O acesso ao Ensino Superior é cada vez mais apertado e eles começam cada vez mais cedo a tentar tirar boas notas. Portanto, eu acho que a culpa não pode ser dos alunos.
Fico na dúvida se tem uma visão otimista ou pessimista...
Eu tenho sempre uma visão otimista, sou um otimista crónico. É possível que eu tenha uma visão que seja um pouco parcial. Eu trabalho na Nova FCT, que é uma faculdade de engenharia que acaba por atrair muitos bons alunos, as médias são cada vez mais altas, e, portanto, tenho contato com um tipo de população de alunos que entraram com médias muito altas. É possível que eu tenha uma visão deformada porque tenho um grupo muito bom de alunos que aparecem nos nossos cursos.
É possível também que aconteça um fenómeno relacionado com o aparecimento dos recursos digitais e tecnologia. Esses recursos, muitas vezes, podem ser aproveitados de forma muito boa e pode ser muito bom no ensino ou também pode ser usado de forma muito má. É possível que, neste momento, os melhores alunos estejam cada vez melhores e os piores estejam cada vez mais atrás.
Nós podemos usar a tecnologia para encontrar e para ver, tirar informação de canais excelentes, canais que mostram um certo tema com uma qualidade muito boa ou podemos usar as redes sociais “para ver gatinhos”, para ver exclusivamente conteúdo de entretenimento.
Portanto, acho que é possível que esteja a acontecer que o aluno médio cada vez esteja mais longe da média, que haja um grupo que esteja a ficar cada vez mais bem preparado e haja um outro grupo que esteja pior preparado.
Sociedade Portuguesa de Matemática considera que é(...)
Há pouco dizia que a matemática é difícil por ser mais abstrata. Será que, neste tempo digital, de tempos de concentração menores, de estímulos constantes, de alguma forma, o cérebro das gerações mais novas está menos preparado para matérias mais abstratas?
Eu acho que é bem possível, sim. Esse é talvez o maior fator que eu encontro em termos da diferença entre os alunos que recebemos atualmente nas universidades e os que recebíamos há 10 anos ou 15 anos. Os alunos atualmente estão sujeitos a constantes estímulos exteriores de toda a ordem e estímulos que são muito apelativos, seja para assistir a séries em streaming, seja para videojogos, seja para todo o tipo de conteúdos de redes sociais e tudo isso.
E, de certa forma, estão a competir connosco no tempo de atenção que temos dos nossos estudantes. E a competição é feroz, porque estes canais de entretenimento estão cada vez mais eficazes a atrair a atenção das pessoas.
E, de facto, isso é um pouco difícil de compatibilizar com a atividade de estudo, porque a atividade de estudo, por mais que tentemos criar materiais que sejam apelativos e interessantes, será sempre um conteúdo de informação, denso e é difícil de competir com conteúdos puramente de entretenimento.
Hoje é mais difícil ter a atenção dos alunos, simplesmente porque estão mais ocupados, têm muito mais informação para digerir, têm muito mais coisas para fazer, não têm sequer momentos mortos. Os bons alunos que nós recebemos são alunos que têm uma forma de estruturar e de organizar a sua vida muito, muito rígida e muito eficiente.
Ser estudante, principalmente a nível superior, mas também logo no ensino secundário, é, essencialmente, um trabalho a tempo inteiro, em que não há uma isenção de horário, ou seja, são eles próprios que têm de gerir a sua própria vida, têm de decidir “este período aqui agora da tarde eu vou estudar e no período seguinte eu vou ver uma série, ou vou ter com os meus amigos, vou jogar um videojogo”.
Isso é difícil, mesmo para nós adultos. Para conseguirmos ser eficientes temos, de facto, de estruturar completamente o nosso tempo e de ser muito racionais na utilização desse elemento-chave e escasso que é o tempo. Basicamente, esse é talvez o grande problema dos nossos alunos.
As rede sociais estão a competir connosco no tempo de atenção que temos dos nossos estudantes. Hoje é mais difícil ter a atenção dos alunos, simplesmente porque estão mais ocupados, não têm sequer momentos mortos.
Falta maturidade aos alunos para poderem organizar o dia conforme estava a descrever?
Eu não diria que falta maturidade, eu acho que eles têm muita maturidade. Se faltasse maturidade, eles estariam todos perdidos e não estão, porque eles continuam a chegar à faculdade.
Eu acho que eles são muito mais eficientes do que nós éramos a estruturar o tempo deles. Haverá alguns que não conseguem fazer e esses aí eventualmente até não vão chegar à universidade.
Eu não diria que falta maturidade. Eu admiro-os pela sua maturidade, porque dada a quantidade de informação e de solicitações que eles têm, é incrível como ainda assim continuam a estudar e como ainda assim continuam a chegar à universidade e a fazer os seus cursos e tudo isso. Claro que gostaríamos sempre de ter taxas de aprovação mais altas e tudo isso, mas ainda assim acho que eles fazem milagres.
Voltando às questões da aprendizagem da matemática, em Portugal ensina-se matemática para aprender ou para fingir que se aprendeu até ao exame?
Está a pôr o dedo na ferida. Esse é talvez o grande problema do ensino em Portugal e, se calhar, até em muitos outros países. Acho que é um sinal dos tempos, principalmente com a massificação do ensino, veio também a massificação da avaliação e isso leva a que as coisas sejam feitas de forma automática. Ora, se há coisa que não deve ser feita de forma automática e em massa, como uma linha de montagem é a educação. Porquê? Porque são pessoas e as pessoas são todas diferentes, os alunos são diferentes e neste momento estão a ser tratados todos como iguais e todos têm o mesmo exame. E porque é que não é possível personalizar o ensino neste momento? Porque nós ambicionamos, o que também é bom, educar praticamente toda a gente a um determinado nível. Estamos a educar muita gente e como este é um processo que, normalmente, é assumido pelo Estados, não há dinheiro para ter um professor — já não diria um para cada aluno como era na Antiga Grécia — mas um professor para meia dúzia de alunos. Neste momento, principalmente nas faculdades, temos muitas vezes um professor para centenas de alunos.
Este ensino massificado levou a este estado em que os alunos, pragmaticamente, tentam perceber qual é o caminho mais curto para o sucesso. O caminho mais curto para o sucesso, muitas vezes, sim, é aprender a responder umas quantas coisas que muitas vezes aparecem no exame e não entender realmente, até um nível mais profundo.
É uma pena porque, primeiro, não vão aproveitar o melhor da matemática, no sentido de não ver a melhor versão da matemática enquanto estudantes; e, segundo, porque percebendo não entendendo, vão esquecer ou — se não esquecerem — não vão conseguir transferir esse conhecimento para a sua vida profissional. Tudo isso parece-me um dos grandes problemas do ensino atual.
Os bons alunos têm uma forma de estruturar e de organizar a sua vida muito, muito rígida e muito eficiente.
E qual seria a solução? Acabar com os exames seria uma ajuda?
Mais uma vez, como disse, os problemas fáceis já foram resolvidos, estes são os difíceis. Tem de haver um equilíbrio. Agora, se este que temos é o equilíbrio correto ou não, não sei. Eu acho que tem de haver necessariamente exames que são transversais, aplicados de forma transversal, em todo o país, porque cria um certo nivelamento e uma garantia de que os alunos que acedem à universidade foram todos avaliados mais ou menos pela mesma bitola. Por outro lado, o exame é uma coisa normalmente muito curta, muitas vezes injusta e há alunos que lidam mal com a pressão e são subavaliados, porque simplesmente têm dificuldade a fazer o exame, enquanto outros até são sobreavaliados porque são alunos que são muito eficientes.
Será preciso um meio termo, que é basicamente o que nós temos atualmente: uma componente em que a reflexão é feita pelas escolas e depois outra componente que é feita a nível nacional com exames.
Na faculdade onde dou aulas tento combater esta ideia de que a forma de passar numa certa unidade curricular é estudar exames dos anos anteriores, aprender e decorar ali umas quantas questões. O que faço é tentar diversificar bastante as perguntas que aparecem no exame para dificultar a vida a essas pessoas e obrigar as pessoas a ganhar a maior profundidade possível nas matérias em causa. Assim, o exame avalia de facto a profundidade que a pessoa tem no conhecimento de uma certa matéria, em vez de o quanto ela é boa a resolver dois ou três tipos de problemas.
Eu acho que eventualmente poderia ser feito o mesmo nos exames a nível nacional. Eu não sou propriamente um especialista na matéria, mas acho que talvez os exames sejam demasiado previsíveis.
Fernando Alexandre admite que nunca percebeu a dec(...)
E seria bem acolhido, exames menos previsíveis?
Se calhar faz sentido para quem me estiver a ouvir, mas se fizerem esses exames que sejam um pouco imprevisíveis, todo o sistema vai reclamar, porque, quando os exames são um pouco imprevisíveis, os alunos ficam mais nervosos, as pessoas, se calhar, vão reclamar um bocado mais e se calhar é por isso que temos exames mais previsíveis.
A partir do momento em que temos exames mais previsíveis, as escolas, claro, dedicam-se a treinar os alunos para esses exames em vez de, realmente, estar a ensinar matemática. Mas acho que tudo isto pode ser afinado e tem de ser afinado, mas é, basicamente, um jogo entre ter exames muito diversos e com perguntas mais originais e, ao mesmo tempo, garantir uma certa previsibilidade e que os alunos sabem o que é que devem esperar no exame.
Ser estudante, é um trabalho a tempo inteiro, em que não há uma isenção de horário.
No fim de contas, consideraria que o problema do ensino da matemática em Portugal é um problema pedagógico ou político?
Mais uma vez é difícil cair num ou no outro. Eu acho que os dois são importantes. Sobre o problema pedagógico já falei e acho que temos feito grandes progressos, o que não quer dizer que não haja muito trabalho a fazer. No lado político, acho que um dos problemas do ensino da matemática em Portugal é a pouca estabilidade dos programas.
Nós temos tido ao longo das últimas décadas uma oscilação muito grande no estilo e conteúdo dos programas de matemática, sendo que a matemática é, supostamente, das matérias mais estáveis nos últimos séculos.
Nós, atualmente, ensinamos nas escolas técnicas e ideias que foram criadas a maior parte delas, seguramente, há mais de 100 anos, muitas há várias centenas de anos. Ora, os programas em matemática deveriam ser muito mais estáveis do que são e não são por razões políticas.
Os programas quase que oscilam em função do Governo que temos e em função do ministro da Educação e isso não deveria acontecer. Isso é uma fonte de instabilidade permanente nas escolas, os professores estão sempre a alterar as suas técnicas, os seus materiais, as editoras estão sempre a criar novos manuais. A falta de estabilidade é, de facto, um problema no ensino da matemática em Portugal, não tenho qualquer dúvida e isso é um problema político.
Não sei como concretizar, mas, na minha opinião, devia haver algum tipo de instituto que regulasse os programas, que fosse independente do Governo e que criasse uma maior estabilidade, uma estabilidade que fosse além dos ciclos eleitorais.