Lisboa

"Já não era sem tempo". Campo de Ourique aplaude obras na Rua Ferreira Borges

25 jan, 2026 - 07:00 • João Cunha

As obras de reconversão da principal artéria de Campo de Ourique arrancaram a 12 de janeiro. Vão dividir-se em três fases e deverão estar concluídas no final do próximo ano. Visam melhor as condições de mobilidade, acessibilidade, conforto e segurança, valorizando o espaço público e o quotidiano de moradores, comerciantes e visitantes.

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OBRAS FERREIRA BORGES
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O ruído quase constante dos automóveis deu agora lugar ao barulho das máquinas, que, aos poucos, vão removendo da Rua Ferreira Borges, a principal artéria de Campo de Ourique, em Lisboa, os basaltos por debaixo do piso onde estão as linhas de elétrico, que vão desaparecer. Há décadas que por ali não passa um "amarelo".

"Só quem nunca atravessou esta rua, de uma ponta à outra, e nunca teve a sensação de que estava numa qualquer montanha-russa, tal a quantidade de buracos, é que não entende a necessidade destas obras", explica António Santos, residente num dos três quarteirões agora encerrados ao trânsito, numa primeira fase das obras que se vai estender, pelo menos, até agosto.

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Num dos cruzamentos entre quarteirões, de mãos nos bolsos e avental posto, está Carlos Costa, que olha para uma máquina, ruidosa, que vai picando a pedra até a partir. E que é retirada do local por uma outra máquina, mais volumosa e, consequentemente, mais barulhenta.

"Para os munícipes aqui da zona de Campo de Ourique, vai ficar muito melhor a nível de passeios e circulação de trânsito. Vai favorecer muito", diz, recordando que as obras até já deviam ter arrancado na altura em que o presidente da autarquia era Fernando Medina.

De tesoura na mão, a cortar as fitas de plástico que juntam os jornais do dia, João Valente ocupa o interior do pequeno quiosque de venda de jornais, revistas e tabaco.

"Quando começarem aqui a arranjar o passeio, o quiosque vai ser transportado para o quarteirão onde as obras só arrancam em setembro", explica, sublinhando que vai ter de fechar dois ou três dias.

"Quando as obras nesta parte estiverem concluídas, o quiosque é de novo transportado para aqui." São obras com prós e contras.

"Passam menos carros, é certo, há menos barulho. Mas, para além dos clientes fiéis, que continuam a vir, há menos pessoas a passar aqui. Nota-se já uma quebra de 10% ou 20%". O que se entende: para percorrer ou cruzar, a pé, o troço da rua que está fechado, é preciso quase uma gincana por entre as grades de rede em metal, colocadas na horizontal, a impedir o acesso à zona das obras. Acresce à gincana os altos e baixos no passeio, a maioria dos quais provocados pelas raízes das árvores ali existentes.

"O problema é que havia muita gente que não estava informada", acrescenta João Valente, enquanto vende um maço de tabaco a uma cliente.

Rute Vieira, que vive no bairro há 40 anos, onde tem um restaurante, considera que estas obras eram inevitáveis.

Obras na Rua Ferreira Borges. Foto: João Cunha/RR
Obras na Rua Ferreira Borges. Foto: João Cunha/RR
Obras na Rua Ferreira Borges   Foto: João Cunha/RR

"Esta rua já estava a precisar. Isto já era da altura do Medina, o Moedas já lá está há dois mandatos e só agora é que arrancou. As obras prejudicam sempre as pessoas, mas depois acho que a rua vai ficar muito melhor", afirma.

Contudo, nota que há "menos pessoas a circular pela rua", e isso fá-la temer consequências para o comércio. "As rendas aqui são insustentáveis, são muito caras. E eu não sei como é que os comerciantes vão aguentar esta obra."

De carrinho de compras pela mão, que vai arrastando pelo passeio, Ana Maria partilha da mesma opinião: "Isto está uma desgraça. Os carros partem aqui suspensões e semi-eixos, as pessoas dão aqui quedas enormes. E, portanto, isto foi a melhor coisa que podia ter acontecido", diz, enquanto volta a respirar fundo para ganhar força e continuar a puxar o carro.

"É uma chatice, dão um transtorno, mas é preciso", faz questão de dizer Emília Pereira, de saco de pão fresco na mão. Com pressa para ir ter com o marido, que provavelmente está à espera do pão para o pequeno-almoço, desconfia do prazo dado para a conclusão das obras.

"Eles dão oito meses para estes três quarteirões. Normalmente nunca é no tempo que dizem. Portanto, isto vai andar aqui... nós dizemos dois anos."

No início da Ferreira Borges está uma florista. "Está aqui há mais de 100 anos. Eu sou a terceira geração aqui e já cá estou há mais de 50 anos", diz, orgulhoso, Miguel Pereira, marido de Emília.

O impacto das obras está a ser relativo no negócio.

"Não sinto grande diferença, porque tenho muitos clientes e uma clientela muito fidelizada", lembrando que na semana passada teve "um dia mais fraco, mas não foi pelas obras. Foi o dia em que choveu todo o dia."

Também considera que as obras em curso eram necessárias.

"Todos os dias caiam pessoas nos passeios, muitos deles idosos, que se magoavam. Havia problemas com pessoas cegas, pessoas com canadianas, com cadeiras de rodas, cadeiras de bebés. Os passeios estavam horríveis", garante, destacando a necessidade de avançar com as obras.

Há só uma coisa que contesta: "Eles vão tirar a calçada, e eu tenho pena, como lisboeta".

Desvios de trânsito

As obras em curso já obrigaram ao desvio da circulação rodoviária, que nesta primeira fase estará cortada nos três quarteirões, entre a Rua Saraiva de Carvalho e a Rua Infantaria 16.

Assim, quem segue para as Amoreiras terá de passar a fazer um circuito por Rua Coelho da Rocha, Rua Luís Derouet e Rua Infantaria 16. No sentido contrário, em direção à Estrela, terá de passar pela Rua Infantaria 16, Rua Tomás da Anunciação e Rua Saraiva de Carvalho.

A segunda fase das obras, com previsão de sete meses, vai ocorrer no quarteirão entre o cruzamento com a Rua Infantaria 16 e o cruzamento com a Rua Correia Teles. Haverá, de novo, cortes no trânsito, em datas ainda a definir.

A terceira fase - a última - tem o tempo previsto de oito meses e vai encerrar o quarteirão entre o cruzamento com a Rua Correia Teles e o cruzamento com a Rua de Campo de Ourique.

O resultado das obras

Haverá, depois de concluídas as obras, um novo pavimento na zona de circulação automóvel e nos passeios, onde uma grande parte da calçada portuguesa vai desaparecer, para dar lugar a lajes de pedra, menos derrapante.

Está prevista a instalação de passadeiras mais seguras, uma revisão dos semáforos e a alteração do esquema de cargas e descargas, de forma a evitar o estacionamento em zonas de cruzamento.

A EPAL aproveita a oportunidade para renovar a rede hídrica.

O início da obra chegou a estar previsto para 2024, mas o concurso internacional só foi lançado em maio de 2025. O investimento total é de 3,8 milhões de euros. Segundo números da Câmara de Lisboa, a Rua Ferreira Borges - onde passam cerca de seis mil automóveis por dia - alberga cerca de 80 estabelecimentos comerciais.

Devido a esta primeira fase das obras, os residentes com garagem na zona em reconversão vão ter direito a estacionar, gratuitamente, num parque subterrâneo junto ao Mercado de Campo de Ourique. As inscrições para a sua utilização terminaram no domingo, 25 de janeiro.

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