04 fev, 2026 - 13:31 • Olímpia Mairos
Após a passagem da depressão Kristin, vários espaços públicos e habitações ficaram cobertos de destroços, entre eles telhas de fibrocimento com amianto, um material altamente perigoso para a saúde pública. A destruição e o manuseamento destes materiais, sem proteção adequada, pode libertar fibras cancerígenas para o ar.
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Em declarações Renascença, Carmen Lima, presidente da SOS Amianto, alerta para riscos imediatos e futuros, criticando a falta de preparação das autoridades e a ausência de cumprimento das recomendações europeias.
Há aqui dois momentos distintos em que o risco é particularmente elevado. O primeiro ocorreu quando as telhas se partiram e foram projetadas pelo vento. Ao fragmentarem-se, libertaram fibras de amianto que ficaram suspensas no ar e que podem ter sido inaladas pelas populações locais.
O segundo momento de risco acontece agora, na fase de reconstrução. Populações, trabalhadores da proteção civil, bombeiros, militares e voluntários estão a limpar terrenos e a tentar reparar coberturas de fibrocimento com amianto, muitas vezes sem qualquer tipo de proteção. Ao manusearem estes materiais, estão novamente a libertar fibras perigosas, sem terem consciência do risco que estão a correr.
Vimos em vários meios de comunicação que praticamente ninguém utilizava proteção respiratória adequada. Isto é muito preocupante, porque mesmo em situações de emergência, estas intervenções devem respeitar as boas práticas definidas a nível europeu.
Sim. Em dezembro de 2025 foi publicado o Guia Europeu para a Gestão do Amianto, que dedica um capítulo específico às situações de emergência — como depressões atmosféricas, derrocadas ou incêndios.
Esse guia define claramente que, mesmo em contexto de emergência, profissionais e comunidades devem saber como se proteger quando há destruição de materiais com amianto. O risco não desaparece só porque a situação é urgente. Pelo contrário, tende a aumentar.
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Há uma distinção importante entre profissionais e população em geral.
Os profissionais — proteção civil, bombeiros, militares, equipas de emergência — devem ter kits preparados antes de qualquer desastre acontecer, tal como já acontece no combate a incêndios. Esses kits incluem máscaras específicas para amianto (não são máscaras comuns ou cirúrgicas) e fatos de proteção adequados.
No caso da população, é evidente que não se pode exigir este nível de equipamento. Mas, numa situação de emergência, pelo menos a proteção das vias respiratórias é fundamental. Uma máscara P3, com filtros adequados, como aquelas usadas durante a pandemia da Covid-19 e vendidas em lojas de equipamentos de construção, já reduz significativamente o risco.
O essencial é que as pessoas saibam que existe perigo e que não devem mexer nestes materiais sem proteção.
Infelizmente, sim. Portugal não transpôs corretamente a diretiva europeia que reconhece os trabalhadores de emergência como trabalhadores em risco de exposição ao amianto.
Além disso, não está a cumprir o que está definido no Guia Europeu de Boas Práticas, que explica como estes profissionais devem atuar e proteger-se em situações de emergência. Isto revela uma falha grave na prevenção e na proteção dos trabalhadores e das populações.
É uma situação profundamente lamentável. Está-se a aproveitar a vulnerabilidade de comunidades que viram as suas casas destruídas.
Quem oferece telhas com amianto sabe, ou devia saber, que este material é perigoso e que o seu manuseamento e reutilização representa um risco sério para a saúde. Além disso, é ilegal reutilizar telhas de fibrocimento com amianto.
Em Portugal existem empresas que produzem telhas de fibrocimento sem amianto. Há alternativas legais e seguras, mesmo em contexto de emergência. Recorrer a estas “doações” é colocar em risco a saúde das pessoas e perpetuar um problema grave.
É completamente um mito. O amianto não provoca efeitos imediatos. Ao contrário de outras exposições, como a legionella, os efeitos do amianto têm períodos de latência muito longos — 10, 15, 20 anos ou mais.
A inalação de fibras pode provocar doenças benignas, mas também vários tipos de cancro, sobretudo do aparelho respiratório. O facto de não haver sintomas agora não significa ausência de risco.
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Portugal precisa, urgentemente, de uma estratégia nacional para o amianto. Essa estratégia tem de incluir um plano específico para atuação em emergência.
Bombeiros, proteção civil e militares devem ser formados, equipados e preparados para estas situações, porque infelizmente vão continuar a acontecer — seja por tempestades, incêndios ou derrocadas.
É também essencial apoiar e informar as populações e reforçar a fiscalização, para impedir práticas ilegais como a reutilização e a circulação de materiais com amianto.
A mensagem é clara: mesmo na urgência, procurem soluções seguras. Não aceitem telhas com amianto. Procurem telhas de fibrocimento sem amianto, que existem e são produzidas em Portugal, inclusive na zona centro.
A falta de informação não pode justificar decisões que coloquem a saúde em risco durante décadas.
O Estado tem de dar o exemplo. O Governo tem de cumprir a lei e fazê-la cumprir.
Enquanto empregador, é responsável por proteger os seus trabalhadores — bombeiros, militares, proteção civil — que estão no terreno a ajudar comunidades vulneráveis. A ajuda não pode colocar em risco a vida de quem ajuda.