Depresssão Kristin

Pedrógão Grande: “O povo não pode continuar sozinho. Não pode continuar à espera que paguem prejuízos, tem de haver prevenção”

04 fev, 2026 - 13:02 • João Carlos Malta

Nos concelhos arrasados pelos fogos de 2017, a Kristin voltou a deixar um rasto de destruição. O sentimento de abandono que há quase uma década foi sentido, voltou agora em força com o vento e chuva. Falta eletricidade, faltam comunicações, há famílias desalojadas, e há um Interior que grita por atenção e quer respostas.

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Depois de há quase nove anos ter sido o fogo, agora é a água e o vento a varrer os municípios de Pedrogão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra e a deixar um rastro de destruição. Um número enorme de casas destruídas ou com danos, famílias desalojadas e perdas florestais enormes ꟷ fonte de rendimento fundamental para muitas famílias. E ainda um reavivar das memórias mais negras de 2017.

Mas também de um sentimento de abandono e de esquecimento. “O povo não pode continuar sozinho, não pode continuar à espera que paguem os prejuízos, tem de haver prevenção”, reclama a presidente da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, Dina Duarte.

A mesma diz que por estes dias na cabeça de quem ali vive mora a constatação de que “estamos na rota, quer dos incêndios, quer deste tipo de tempestades, e isso é o que me preocupa, porque em menos de nove anos termos este tipo de situação é assustador”.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, esteve esta quarta-feira naquele território onde criticou a falha, mais uma vez, do sistema de comunicações na depressão Kristin, como tinha acontecido em 2017 durante os incêndios que vitimaram 66 pessoas.

As conversas entre as pessoas daqueles três municípios devastados pelo fogo há quase uma década vão quase todas na mesma direção, e Dina recorda que há uns dias estava a falar com uma amiga que também foi atingida em 2017, que lhe confessava: “Estou novamente com esta sensação de que estamos novamente sós, há oito anos e tal, quando foram os incêndios, e, efetivamente, há este medo, há esta sensação de abandono”, descreve.

Dina percebe que são as grandes cidades o foco, neste momento, mas alerta que “há um conjunto de pequenas aldeias, de pequenos concelhos, que se calhar não têm força mediática, mas as pessoas estão cá e precisam também”.

Chama também a atenção de que num dos principais itinerários da região, o IC8, ainda são visíveis os rastos de destruição do Kristin. “Aqueles grandes sinais do IC8 que estão por cima da estrada, que vêm quase a meio da estrada, torceram, ou seja, a velocidade que o vento passou aqui também não foi muito inferior à que passou, por exemplo, em Leiria”, compara.

Sem previsão para ter luz e comunicações

A presidente da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande descreve que por aquela região do interior o problema maior agora é o de que “em grande parte do território, sobretudo nas aldeias, as pessoas estão sem luz e sem net, com muita dificuldade”.

Por isso, apela, para a criação de alternativas. “Se há soluções para as grandes cidades, também tem de haver para as pequenas aldeias, há geradores que poderão, eventualmente, ajudar-nos, pelo menos, a minorar este isolamento a que voltamos a estar votados”, identifica.

Para já, são os poucos geradores que existem que vão valendo àquelas pessoas, e a partilha entre todos para irem conseguindo alguma normalidade nas suas vidas. “É essa partilha que nos safa”, desabafa.

Passado uma semana, continua sem haver uma previsão para o restabelecimento da eletricidade naqueles locais. Dina descreve que são às dezenas os postos derrubados pela fúria do vento e que se percebe no chão da floresta os remoinhos que deitaram ao chão um número grande de eucaliptos.

Houve também muitas casas destruídas ou parcialmente danificadas, que Dina não arrisca um número, e muitas famílias desalojadas. Neste momento não há capacidade local para reparar as casas, apenas para “remendar”.

“Tem sido feito algum trabalho de tapar buracos nos telhados, mas as pessoas, algumas delas têm de ser, obviamente, continuando a chuva e este mau tempo, realojadas. Isto vai ser, novamente, uma catástrofe para as pequenas aldeias e, principalmente, para estes territórios já empobrecidos. Menos de nove anos depois, continuamos a ficar com estas perdas”, sublinha Dina, ela própria moradora numa aldeia da região.

E a presidente da Associação de Vítimas lembra que localmente não há empresas de construção civil suficientes para o multiplicar de situações. “São muito poucas, e algumas delas tinham obras a decorrer e, neste momento, reajustaram a necessidade para esta calamidade”, afiança.

Na dimensão económica, neste caso centrado na floresta, Dina Duarte fala de grandes perdas sobretudo nos sobreiros. “É uma razia nos sobreiros centenários, foram todos abaixo com o vento”, nomeia.

É um rombo para a economia local “porque muitas pessoas vivem de retirar a cortiça destes sobreiros”. Todo o dinheiro falta quando “a pressão é tanta para termos os terrenos limpos, termos de ter tudo preparado para quando chega o verão. E depois, no inverno, levamos com esta tempestade. É, efetivamente, um trauma”.

Por isso, a presidente da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, Dina Duarte, apesar de reconhecer que “o vórtice maior da perda, efetivamente, foi mais no litoral”, “há um interior inteiro que também sofreu consequências” e desespera por ajuda.

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