REPORTAGEM EM RIBEIRA DE FRADES

“Mesmo que as condições não sejam as melhores, pelo menos estamos na nossa casa”

12 fev, 2026 - 13:50 • João Maldonado

Junto ao local onde a A1 ruiu há duas hipóteses: ou sair de casa ou contrariar as recomendações das autoridades. Há quem tenha passado a noite no carro, há quem tenha sido “obrigado” a ir dormir a casa de familiares, mas há também quem arrisque e quem tenha um barco “exclusivamente para os casos em que o rio rebente”.

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Reportagem em Ribeira de Frades. “Mesmo que as condições não sejam as melhores, pelo menos estamos na nossa casa”
Reportagem em Ribeira de Frades. “Mesmo que as condições não sejam as melhores, pelo menos estamos na nossa casa”

“Estamos abertos. Bem, até pelo menos não haver água.” É assim que a Renascença é recebida no café, em Ribeira de Frades, onde este artigo é escrito. Por aqui, junto ao local onde a A1 ruiu, impõe-se uma pergunta. Como conviver com o risco de um rio levar tudo aquilo que demorou uma vida a construir? A resposta varia, sendo diferente de boca em boca.

Nas ruas chamam-lhe “o guarda-rio”. De trator, José Ricardo atravessa pela noite, sem nada temer, os campos repletos de água e lá vai em busca de apurar a situação por conta própria. José tem uma plantação de milho. Ou melhor, tinha. A verdade é que está completamente alagada.

Com o campo submerso, a boa notícia é a casa onde vive não ter sido ainda atingida. “Esta noite fui três vezes ao Mondego, tenho lá uns pontozinhos, sei que quando está no sinal x está mesmo a galgar a margem”, sublinha com toda a naturalidade e calma possível.

E, afinal, se a coisa der para o torto, José tem um barco de madeira ao qual pode sempre recorrer. Nunca foi usado e ali está “exclusivamente para os casos em que o rio rebente”. Se flutua? “De vez em quando ponho na água para ver como está”, clarifica.

A nem 5 minutos a pé vive Álvaro em conjunto com o pai. Ao invés, porque estavam fora de casa na altura do rebentamento do dique, foram impedidos, por segurança, de chegar até ao local onde vivem. “Portanto, passámos a noite dentro dos carros”, explica, acrescentando que “podia ir para casa de familiares, mas mais vale não darmos encargos a ninguém”.

Álvaro recorda 2001, tempo em que andou “com água pelo pescoço dentro de casa”. Na altura foi obrigado “a arranjar a casa toda”. Agora, pode apenas esperar que o mesmo problema não surja – na residência com vista direta para a Autoestrada 1.

É por aqui raro descobrir uma porta que à frente não tenha um saco com areia ou pedras. A improvisação faz parte e dá algum alento caso a hora da água chegue mesmo. Por aqui, em Ribeira de Frades, há duas hipóteses: ou sair de casa ou contrariar as recomendações das autoridades.

Ao circular a pé, a Renascença depara-se com 3 amigas, já para lá dos 70 anos. Querem informações. Querem perceber como estão as operações. Isabel, Graça e Laurinda. Entre todas, apenas Laurinda não dormiu em casa esta noite. “Fui obrigada, dormi fora, em casa de uma sobrinha minha, não é que tivesse medo, porque a enchente nunca lá chegou, mas, pronto, o meu filho apertou comigo e tive de ir”, relata.

Já Isabel, que em 2001, também por se ter recusado a sair, acabou a ter de ser transportada de barco dali para fora, argumenta que “mesmo que as condições não sejam as melhores pelo menos estamos na nossa casa”. Tem um primeiro andar e um sótão e, no limite, diz que hoje vai ponderar comprar provisões para se lá ficar presa.

Sair está também, para já, fora dos planos de Graça. “Andaram de porta em porta, tanto a Junta de Freguesia, a GNR, a Proteção Civil, batiam às portas”. A resposta? Foi firme: “Eu disse que não, que não saía”. Ainda que, confesse, mesmo que pouco convencida, “se fosse necessário, realmente ia”.

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