Reportagem
Sem comboios e poucas alternativas. "A Linha do Oeste traz muita gente"
16 fev, 2026 - 06:00 • João Cunha
Devido ao mau tempo, a Linha do Oeste estará encerrada pelo menos até ao final do ano. População queixa-se de falta de transportes alternativos como os que funcionaram aquando das obras de modernização e eletrificação.
"Isto agora é uma tristeza. Nós estamos aqui e é este deserto, não se vê ninguém", lamenta Fernanda Martins, que vive frente à estação da Malveira, onde os comboios deixaram de passar. Os temporais deixaram a Linha do Oeste fora de serviço nos próximos meses. A zona, antes com movimento de passageiros da CP ao longo da manhã e ao final da tarde, é agora bem diferente.
Os cafés, estrategicamente localizados nas principais ruas de acessos à estação, estão agora com menos gente. E já se queixam de prejuízos. E pelas ruas por onde antes havia movimento, passam apenas os residentes.
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"O que é que esta gente irá fazer? Autocarros? As estradas também estão cortadas e devem estar uma lástima. Muita gente daqui trabalha fora da zona e deve ser muito complicado para essas pessoas, realmente", questiona Fernanda Martins.
Mais acima na rua, Vitor Peniche, vizinho de Fernanda, lembra que, durante vários anos, utilizou esta ligação ferroviária em que os comboios andavam relativamente cheios. Mas ainda hoje, diz, "a linha traz muita gente".
Os comboios já não vão tão cheios, mas "quem depende do comboio para ir trabalhar para Lisboa e para outros lugares faz muita diferença".
"Sim, sim", garante Fernando Galrão, que a usava diariamente nos trajetos Malveira-Caldas e Malveira-Santa Apolónia. De saco de supermercado cheio na mão, segue para a paragem de autocarro mais próxima, para chegar a Lisboa.
Já ouviu dizer que a linha vai estar fechada durante nove meses, para a realização de obras. Mas duvida do prazo.
"Se for nove meses só... eu penso que vai ser mais, sou um bocadinho pessimista. Ou realista", remata, enquanto apressa o passo porque o autocarro está a caminho. Vai chegar mais rápido a Lisboa, é certo, mas confessa, antes de partir, que prefere o comboio.
Mau Tempo
Linha do Oeste vai demorar "no mínimo nove meses" a ficar operacional
Ministro Miguel Pinto Luz disse que "quando as águ(...)
Na rua principal de Mafra-Gare, Isabel Silva dá dois dedos de conversa com uma vizinha. As duas, às tantas, afastam-se da berma, porque um carro que desce a rua está a aproximar-se perigosamente de um lençol de água que as pode encharcar.
Tal como na Malveira, a estação de Mafra está encerrada. Sem comboio e sem alternativos, fica difícil sair da freguesia.
"Muito complicado. Enquanto a linha andou em obras para ser eletrificada, havia autocarros a substituir o comboio, e agora não há", lamenta.
Há carreiras de autocarros a passar por Mafra-Gare, mas os horários, diz Isabel Silva, são pouco convenientes. Passam poucos e a horas inadequadas para as necessidades dos locais.
O que não se entende é por que motivo não houve ainda informação às populações, queixa-se José Rui Raposo, do Movimento Em Defesa da Linha do Oeste, que avança uma alternativa: "Fazer o transporte de passageiros entre as Caldas e Torres Vedras e entre Malveira e Meleças, tendo pelo meio o transporte de autocarro".
O Movimento considera que as obras de melhoramento da Linha do Oeste tivessem sido concluídas, talvez não tivesse havido problemas na sequência das tempestades das últimas semanas.
"Nos locais que têm barreiras e que podiam ter sido alvo de aluimentos isso não se passou, ou a passar-se, foi de forma muito leve, que não impede a circulação de comboios."
Descontente com a falta de soluções, o Movimento marcou para dia 21 uma concentração frente à estação das Caldas da Rainha, a favor da reposição de comboios na Linha do Oeste.
Uma linha que Hugo Luís, presidente da Câmara de Mafra, defende. "É de facto importante restabelecer a Linha do Oeste. É importante que seja uma alternativa, mas tem de ser melhorada a oferta para tornar este meio de transporte competitivo". O autarca sublinha que, para além dos passageiros, há que pensar no transporte de mercadorias.
"O concelho de Mafra e esta zona do Oeste tem uma palavra a dizer relativamente ao que pode ser a intermodalidade nas mercadorias, porque também estamos próximo do Porto de Lisboa. Podemos estar, do ponto de vista de investimento nacional, a perspetivar aquilo que se pode designar de porto seco para fazer chegar mercadorias ao Porto de Lisboa", conclui Hugo Luís.














